Bailamos à moda do Porto com os Expresso Transatlântico

Expresso Transatlântico na Casa da Música com lotação esgotada | mais fotos clicar aqui

Nesta passada sexta-feira os Expresso Transatlântico deram o primeiro concerto após terem editado, no decurso do ano transato, ‘Trópico Paranóia’. Trata-se do segundo álbum da sua discografia em formato longa-duração. A atuação teve lugar na Sala 2 da Casa da Música no Porto com a particularidade de ter sido a uma sexta-feira 13.

Os irmãos Sebastião e Gaspar Varela com Rafael Matos formam este tridente musical nomeado de Expresso Transatlântico. Um projeto surgido em 2021 com um EP homónimo. Conquistaram o reconhecimento generalizado com ‘Ressaca Bailada’, o LP de estreia, editado em 2023.

Numa longa jornada de sexta-feira constantemente algo friorenta, a música dos Expresso Transatlântico era a medida certa para tornar a noite bastante calorosa e encerrar a semana em nota altíssima.

Expresso Transatlântico na estreia ao vivo de novos temas | mais fotos clicar aqui

Durante a tarde o anúncio oficial, já esperado, da lotação esgotada. À hora certinha (21:30h) as luzes baixaram e o habitual anúncio sonoro fez-se ouvir. Sem fosso, com as pessoas mesmo “coladas” ao palco a perspetiva era de uma literal união entre o trio e os fãs. Na realidade, não foram só três em palco, a banda mostrou-se em formato quinteto, teve o apoio de Tiago Martins no baixo e José Cruz em vários instrumentos como a flauta, o teclado ou o trompete.

Para mim foi um reencontro com eles, depois de duas experiências festivaleiras em 2023 e 2024, finalmente em sala fechada, algo que já tinha nos planos há algum tempo. A ocasião anterior ocorreu no Primavera Sound Porto em 2024 numa atuação memorável e bem molhada em que o impermeável foi peça indispensável, a reportagem sobre esta performance pode ser lida aqui.

O multi-instrumentista José Cruz | mais fotos clicar aqui

Em palco os três elementos principais estiveram bastantes estilosos em termos de indumentária: o baterista Rafael Matos estava com uma t-shirt da Adidas aos quadradinhos amarelos e pretos a fazer lembrar o equipamento dos árbitros de futebol do antigamente. Sebastião Varela equipado com calçado da marca germânica já referida e uma vestimenta sóbria em tons escuros. Gaspar Varela o mais estiloso: com um laço ao pescoço, um casaco e uma t-shirt de manga cava.

Ao fim das três primeiras, todos temas recentes, numa sequência igual à do disco: “Avalanche”, “Trópico Paranoia” e “Tigre da Serra” já o pessoal estava imbuído do espírito musical destes lisboetas. As primeiras palmas, essas bem ritmadas, surgiram em “Bruxa do Caramelo”. Esta faixa teve direito a explicação sobre a sua existência: durante o processo de gravação aconteceram coisas estranhas pelo que pensavam que estavam acompanhados fenómenos de bruxaria. Já “Bairro Fantasma”, novamente com Gaspar Varela nas explicações, é uma faixa que versa sobre as dificuldades da habitação, ele que disse em ritmo de piada que já não dava para viver com os pais. Gaspar agradeceu também ao público portuense pela presença.

Gaspar Varela, o mestre da guitarra portuguesa | mais fotos clicar aqui

“Flor Trovão”, foi o primeiro single, aquele que antecipou este último registo discográfico, ao vivo tem uma acrescida pujança já sentida na sua versão de estúdio. Uma das coisas estranhas que aconteceram durante o tal processo de gravação na casa aonde estavam foi um trovão que caiu em cima dela. Esta faixa surgiu em homenagem a esse momento peculiar. O concerto seguia “de vento em popa” com uma vibe altíssima e um público a corresponder ao momento. A presença de público revelou-se bastante heterogénea com pessoas de diferentes estratos etários. Sinal claro que a música deste projeto atinge público jovem e menos jovem.

Antes de Gaspar estar somente de t-shirt de manga cava vestia ainda um casaco, peça que abandonou no momento de fazer um solo de guitarra portuguesa, algo que surgiu mais ou menos a meio da performance. Ele é, definitivamente, uma espécie de superstar da guitarra portuguesa. O bailarico estava definitivamente instalado e a música instrumental dava para fechar os olhos e deixar o corpo sentir todos os acordes.

A música dos Expresso Transatlântico vai beber inspiração a diversas fontes, a mais óbvia e falada, pelo uso da guitarra portuguesa, é o fado. Há também influências arábicas escutadas em certos acordes da guitarra elétrica a fazer lembrar um pouco o projeto do tuaregue Bombino.

Sebastião e Gaspar no momento solene da noite | mais fotos clicar aqui

“Mete um vermelho para o menino…”, uns segundos depois, para não ser penálti “O vermelho é a cor da luta” disse Gaspar ao pedir ao técnico de luzes aquelas cores em cenário. Aconteceu antes do momento solene da noite na interpretação de “Canção para a Madrugada“ apenas a três. Sebastião e Gaspar sentados na plataforma aonde a bateria estava instalada e Rafael a tocar bateria eletrónica de pé.

Sebastião teve também momentos de comunicação com o público e fez questão de frisar que o projeto que têm possui o propósito de ser um meio resistência, de toma de posição e fazer arte.

Houve também outra ocasião bem sentida por parte da banda no agradecimento a todos os que tiveram envolvidos neste álbum mais recente. Realce para os elogios a Paulo Furtado (conhecido como The Legendary Tigerman), ele que foi o produtor. Uma referência também especial a Hugo Valverde, ele que estava como técnico de som.

Sebastião Varela com olhar focado | mais fotos clicar aqui

“Azul Celeste”, “Nikita Punk“ e “Não Pares Povo” marcaram o final antes do encore e o ambiente estava mesmo ao rubro. Como nota de curiosidade, na transição para o encore escutamos uns instantes do tema “A Música Termina” de Marco Paulo. No fecho evocaram Celeste Rodrigues num fado que nunca gravaram.

Gaspar “brincou” com um instrumento Theremin e também abandonou a guitarra portuguesa pela elétrica, durante uns curtos momentos. Diga-se que Sebastião, Gaspar e Rafael estiveram sempre muito enérgicos.

Fim em festa total com Gaspar a puxar por toda a gente, de um lado e do outro da plateia. Ele que não resistiu e fez crowdsurf. Desta vez mais pacífico e sem o stress de perder os monitores in-ear como acontecera no Primavera Sound Porto em 2024.

Gaspar Varela, sempre entre o concentrado e o irreverente | mais fotos clicar aqui

No final do concerto houve a busca das setlists bem como um clube de fãs, um número considerável de pessoas equipadas a rigor, a tirar uma foto de grupo junto do palco.

Estas novas faixas soaram extremamente bem ao vivo e são a clara certeza que os Expresso Transatlântico estão a trilhar um caminho em crescendo de clareza musical com ritmo bem pulsante. Eles são uma banda jovial, com uma atitude irreverente e postura sonora sedutora. Merecem ser foco de atenção pois a sua discografia tem muita qualidade e ao vivo são soberbos. Um dos projetos mais sólidos e diferenciados do panorama musical nacional.

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva

Fotografia:
– Gonçalo Tavares @ goncalo.raw (Instagram)

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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