Alice na caixa das maravilhas do Coliseu

Alice Phoebe Lou, a estrela na estreia do Coliseu Box | mais fotos clicar aqui

Saímos do metro da Trindade empurrados para a Rua de Passos Manuel por um temporal que parecia ter decidido acompanhar-nos até ao concerto. A chuva caía oblíqua, agressiva e o vento varria a rua como se quisesse testar a nossa determinação. Mas bastou dobrar a esquina e chegar em frente ao Coliseu Porto Ageas para que o cenário mudasse por completo. A moldura humana era outra: um ajuntamento compacto de corpos molhados, expectantes, quentes. Muita gente — não estivesse a sala esgotada.

Falou-se recentemente, aquando do anúncio do Coliseu Box, uma nova configuração da sala principal do Coliseu do Porto, de cerca de 750 lugares em formato de plateia em pé. À entrada, essa nova disposição confirmava-se sem margem para dúvidas, explicando o enorme fluxo de pessoas numa segunda-feira hostil, chuvosa, quase imprópria para sair de casa. Ainda assim, ninguém parecia arrependido. Havia uma energia silenciosa, uma antecipação partilhada, como se todos soubéssemos que o temporal ficaria do lado de fora.

Alice Phoebe Lou de regresso a Portugal | mais fotos clicar aqui

Já lá dentro, um pano gigante negro estendia-se por mais de 180 graus, curvando-se à nossa volta e engolindo-nos lentamente, empurrando o público para muito perto do palco. Era como entrar numa cápsula escura, um ventre colectivo onde tudo o resto deixava de importar. O mundo exterior desaparecia e restava apenas a promessa do que estava prestes a acontecer.

Por outro lado, essa imersão quase total acabava por ofuscar a beleza sem igual do Coliseu. Talvez por o evento ser a estreia do ciclo de concertos da SON Estrella Galicia, talvez por simples coincidência cromática, o certo é que o vermelho insistia em reaparecer. As duas estrelas iluminadas, uma de cada lado da sala, marcavam o espaço e não deixavam margem para dúvidas quanto ao patrocínio, funcionando como pontos fixos num mar escuro, lembrando-nos de onde estávamos, mesmo quando tudo à nossa volta parecia querer desaparecer.

Visão deAlice Phoebe Lou a partir da plateia | mais fotos clicar aqui

Alice Phoebe Lou entra em palco apenas com guitarra e voz, anunciando desde logo que aquela noite não teria banda. À sua volta, quase como promessas silenciosas, repousavam um piano e mais um par de guitarras, aguardando o momento certo para serem chamados à ação. O arranque foi despido e honesto, sustentado pela doçura da sua voz e por um dedilhar delicado, quase frágil, que pedia silêncio, com foi possível ouvir em “Darling” ou “Pretender”. Um silêncio que, por vezes, era rasgado pelo forte néon da marca de cerveja, lembrando-nos — de forma algo intrusiva — do mundo exterior àquele refúgio escuro.

Era o primeiro concerto do ano e Alice não o escondia. Entre canções, partilhou que já tinha começado a escrever novo material, embora com a humildade que lhe é característica: tocaria apenas algumas canções do mais recente disco ‘Oblivion’ – “ainda estou a tentar perceber como as tocar ao vivo”, confessou. Essa franqueza atravessou todo o concerto e ajudou a criar uma proximidade difícil de encontrar, mesmo numa sala cheia.

Um dos primeiros momentos verdadeiramente colectivos chegou com “Harvest Moon”, o clássico de Neil Young. O sussurro da plateia era audível, quase reverente, até que a própria Alice convidou o público a acompanhá-la. A partir daí, o refrão ecoou de forma clara e afinada, transformando-se num abraço partilhado entre palco e plateia.

Daklis e Ziv, os companheiros de Alice | mais fotos clicar aqui

Mais tarde, juntaram-se em palco os “besties”, como a própria lhes chamou: Ziv Yamin
ao piano e Dekel Adin “Daklis” na guitarra e baixo. A formação em trio estreava-se ali, pela primeira vez, e trazia consigo uma nova camada de intimismo. Foi também nesse momento que o primeiro sintetizador da noite começou a debitar o ritmo — imediatamente reconhecido por grande parte da audiência nos primeiros segundos de “Glow”. Um reconhecimento quase instintivo, marcado por murmúrios entusiasmados e sorrisos cúmplices.

A partir da entrada da banda, Alice deixou praticamente de comunicar com o público, optando por uma sucessão contínua de canções, como “Velvet Mood”, “Sailor” ou “Touch”. Música atrás de música, sem interrupções, como se o concerto pedisse esse fluxo ininterrupto. Com a longa cortina preta a envolver o público, o jogo de luz ganhava finalmente pleno sentido, projetando-se na tela escura e oferecendo um espetáculo visual simples, mas eficaz, que acompanhava o tom emocional das canções.

Ziv e Alice em destaque | mais fotos clicar aqui

A meio do concerto, perante pedidos vindos da plateia, Alice foi clara: não iria ceder a solicitações. Tocava apenas aquilo que sentia naquele momento. Não soou a distância, mas a coerência — a mesma que atravessa toda a sua obra e que ali se materializava num alinhamento que ia do mais etéreo ao mais visceral, continuando por temas como “Dusk”, “Angel” ou “Better”.

O concerto aproximava-se do fim quando chegou “Witches”, o seu grande single. A essa altura, já não havia contenção possível: os berros multiplicaram-se, as vozes ergueram-se afinadas, e o Coliseu Box transformou-se num coro coletivo, devolvendo à artista tudo o que tinha sido entregue ao longo da noite. Alice despediu-se com um simples “stay warm e muito obrigado”, quase tímido, antes de desaparecer do palco.

O voo alegre de Alice Phoebe Lou l | mais fotos clicar aqui

Lá fora, o temporal continuava. Cá dentro, ficava a sensação de ter assistido a algo raro: um concerto íntimo dentro de uma sala gigante, onde a vulnerabilidade foi sempre a força maior.

Alinhamento:

Halo / Shine
Darling
Pretender
Harvest Moon (Neil Young cover)
The Surface
Lover
Glow
Velvet Mood
Mind Reader
Sailor
Only When I
Touch
Dusk
Angel
If You Were Here
Better
Open My Door
Underworld
Lose My Head
Witches

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Visão da plateia de Alice Phoebe Lou l | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Luís Silva @ luis_airesilva (Instagram)

Fotografia:
– Aitor Amorim @ torstudio (Instagram)

Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.

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