
Já recuperado da intempérie da noite/madrugada da 3ª jornada rumei novamente a Paredes de Coura para o derradeiro dia. Com algum receio do clima fui mais protegido porém o clima esteve num perfeito ameno. Sem chuva, de tarde com um gracioso calor no ponto certo e durante a noite com uma ligeira brisa sem ser suficientemente incomodativa.
No recinto ainda existiam resquícios do clima agreste: terreno pesado com a erva ainda algo ensopada. Nada que pusesse em causa ou causasse desconforto, as pessoas até nem se coibiram de se sentarem pela encosta abaixo.
A minha chegada aconteceu perto já das 17:30h, horário para o arranque com os Indignu. Um debute mais cedo relativamente aos dois dias anteriores. Deu, logo aí para notar, que iria ser um dia com uma maior afluência de gente. Já contava com esse “efeito Lorde”.

Ambiente em Sleaford Mods | mais fotos clicar aqui
Formados em 2004 em Barcelos os Indignu são um quarteto formado por Afonso Dorido (guitarra), Graça Carvalho (violino), Ivo Correia (bateria) e Pedro Sousa (baixo). Durante as últimas semanas deixaram posts nas suas redes sociais pela ansiedade e imensa vontade em pisarem o palco do Vodafone Paredes de Coura.
Afonso Dorido sente as músicas com uma intensidade personalizada. Como em outras ocasiões até toca a sua guitarra de joelhos e deitado em palco. Ele que vive de uma forma muito particular os concertos revelou a “emoção muito grande” de estar ali. Tal era extensível aos outros membros dos Indignu.
Mais uma estreia de sonho neste marcante festival lusitano, é sem dúvida, um marco na carreira de qualquer banda portuguesa. Durante os 45 minutos a que tiveram direito tocaram 4 temas: “Devolução da Essência do Ser”, “Urge Decifrar No Céu”, “Marcha sob Marte” e “Levitação do Sahara”. Temas instrumentais intensos e extensos que permitiram mostrar o seu notável post-rock à moda minhota.
Ele é já uma instituição da música mundial, especialmente no campo da soul. Aos 73 anos Lee Fields tem ainda energia inesgotável para transmitir às pessoas. Era um desejo já antigo de João Carvalho, o responsável pelo festival.

Lee Fields num belíssimo momento | mais fotos clicar aqui
Ele que fez lembrar o falecido Charles Bradley, cujo concerto em 2015 neste festival é ainda recordado por quem teve a felicidade de lá ter estado.
O norte-americano do soul apresentou-se com a sua vasta banda de 6 elementos nos quais os instrumentos de sopro foram componente essencial. Por entre músicas mais mexidas como “Ladies” ou baladas sentimentais a atuação seguiu de vento em popa.
Em “What did I do” contou com o soberbo coro e afinado do público. Já em “Forever”, uma incurável canção romântica, os braços levantaram-se e a encosta registou um lindo cenário. Lee Fields cumpriu com classe a sua missão.

Yin Yin em estreia nacional | mais fotos clicar aqui
Apesar de não constar da minha lista, acabei por ir cuscar a atuação do quarteto neerlandês Yin Yin já que me agradou o som que escutava ao longe. Nesta primeira performance em Portugal a banda dos Países Baixos agarrou firmemente o público. As pessoas foram acompanhando e intercalando com palmas, sinal que o funk psicadélico destes Yin Yin foi recebido de braços e ouvidos bem abertos.
A interminável irreverência do vocalista Jason Williamson é coadjuvada por Andrew Fearn e o post-punk que produzem é uma espécie de chapada que ressoa na cara durante algum tempo e que demora a passar. As letras são altamente politizadas e até mesmo duras, não é à toa que o último álbum se intitula ‘UK Grim’ (traduzindo: Reino Unido Sinistro). A faixa que dá o nome a esse LP até foi logo a primeira apresentada.

Sleaford Mods na sua 2ª passagem pelo festival | mais fotos clicar aqui
Na verdade é Jason quem faz todas as despesas em cima do palco com a sua voz, já Andrew parecia um pugilista em aquecimento. A atuação dos Sleaford Mods foi divertida, apenas e nada mais do que isso. A ausência de reações mais positivamente exacerbadas por parte das pessoas foi um sinal disso mesmo. Não fica para a história do festival, disso não há dúvidas.
Em hora propícia ao jantar, antes da fase principal do cardápio musical do dia, os Crack Cloud conseguiram reter imensa gente no Palco Yorn. Pelo que me pude aperceber o sexteto (todos alinhados, até o baterista) estava a ter uma performance com bastante nível. Finalmente vi Explosions in the Sky em Portugal. No próximo mês vão lançar o novo disco ‘End’ e o concerto por cá surge numa altura dourada para um belo ‘sneak peek’. Não foi o caso disso, fizeram antes uma “viagem” pelos vários álbuns da banda, especialmente pelos mais antigos.
Tratou-se de uma atuação única este verão na Europa já que a tournée de promoção desse álbum só irá acontecer depois de 15 de setembro.

Explosions In The Sky rubricaram uma das melhores atuações do festival | mais fotos clicar aqui
Christopher Hrasky (bateria), Mark Smith (teclados), Michael James (guitarra/teclados) e Munaf Rayani (guitarra) juntaram-se em Austin nos Estados Unidos da América e o seu post-rock instrumental caloroso e vibrante inspirou muitos músicos por todo o mundo, como por exemplo, os “nossos” First Breath After Coma. Aliás, a faixa que dá o nome à banda lusa, foi mesmo a primeira do alinhamento. Eles foram acompanhados por Jay Demko, elemento de suporte ao vivo.
Eles não vinham a Portugal há bastante tempo, estavam visivelmente satisfeitos por cá estarem. Munaf Rayani até arranhou uma saudação num português bem percetível.

Munaf Rayani dos Explosions In The Sky | mais fotos clicar aqui
Tratou-se, sem dúvidas, de explosão catártica do que pode ser considerado como algum do melhor post-rock do planeta traduzido através de temas como “Six Days at the Bottom of the Ocean” ou “Memorial”.
Na interpretação de “Your Hand in Mine” produziram um momento mais solene e introspetivo. Já em outros temas como “Birth and Death of the Day” ou “Great Death” ouvi a ascensão das guitarras a um plano etéreo.
A atuação no final foi coroada com luzinhas no ar, aquelas lanternas que o sponsor principal do festival costuma oferecer. A audiência, pontuou dessa maneira, a excelência da performance com uma despedida iluminada dos céus.
Os Les Savy Fav são Tim Harrington (voz), Seth Jabour (guitarra), Syd Butler (baixo) e Harrison Haynes (bateria) e para satisfação de João Carvalho, organizador do Vodafone Paredes de Coura, finalmente estiveram no evento ao fim de 7 ou 8 tentativas.

O furação de categoria 5 Tim Harrington | clicar aqui
A atuação dos Les Savy Fav vive, em larga medida, nas explosões meio insanas (ou completas se assim o quisermos dizer) de Tim Harrington. O vocalista é uma força desmedida da natureza e não fica quieto um segundo, como por exemplo, quando cantou “I Want You” no meio do público provocando um ambiente insano que só o punk rock permite.
Ponto curioso na interação com os fãs, através de um código QR convidaram todos a aparecer no ecrã gigante como se fosse uma reunião no Zoom. Algo que aconteceu recorrentemente durante o concerto para animação geral.
“Patty Lee”, “Hold On to Your Genre” e “Dirty Knails” foram alguns dos temas que os Les Savy Fav deixaram como amostra para quem não os conhecia. A partir de agora, para mim e muitos outros, uma banda que ficou para registo futuro.

Wilco em palco | clicar aqui
Jeff Tweedy e o baixista John Stirratt são os membros remanescentes da formação inicial dos Wilco. Esta banda norte-americana já atravessou décadas porém o legado do seu rock alternativo e indie rock gizado em Chicago continua bem vivo. São já 12 álbuns editados deste 1995.
Esta instituição de Chicago e do bom rock norte-americano que são os Wilco rubricaram uma performance memorável, como se tratasse de um masterclass de como fazer e tocar rock. Nesta demonstração fizeram questão de tocar algumas das mais remarcáveis canções da sua história como “Jesus, Etc.”, numa bonita interpretação acompanhada de luzinhas no ar, ou a bem conhecida “Impossible Germany”. As canções novas foram igualmente abordadas, a faixa que dá o nome ao mais recente trabalho discográfico “Cruel Country”, foi uma delas assim como “I Am My Mother”.

Jeff Tweady, o vocalista dos Wilco | clicar aqui
“A Shot in the Arm”, canção de 1999, fechou o set de um dos concertos que fica para a história do festival em 2023.
A neozelandesa Lorde leva já 14 anos de atividade na música e ela ainda só irá completar 27 primaveras em breve. A carreira já vai longa e com muito sucesso. A artista veio à Europa fazer, literalmente, meia dúzia de datas e uma das que escolheu foi a de Paredes de Coura para surpresa da organização. Tal terá sido por causa de gostar muito de Portugal, algo que referiu com emoção durante a sua performance. Lorde já atuou por mais 2 vezes em solo lusitano (Rock In Rio 2014 e Primavera Sound em 2018), alturas em que sentiu uma vibe diferenciada nos fãs portugueses. Terá sido essa uma das razões para a escolha do Vodafone Paredes de Coura para fecho desta mini tournée.
A entrada em palco registou-se com um pequeno atraso num cenário de grande aparato visual no qual um círculo gigante preenchia o palco. Os seus músicos ficaram “perdidos” no background, por entre a parafernália e o foco total ficou em Lorde. Teve até uma câmara em constante presença atrás de si enquanto cantava os seus temas.

A tradicional festa no final do festival, aconteceu após o concerto de Lorde | Foto de Hugo Lima @hugolimaphoto
|| Lorde não permitiu que os meios oficiais fotografassem o seu concerto. ||
Começou com “Royals” e prosseguiu com “Solar Power” ela que insistentemente puxou pelo público do “Porto”. Para gáudio das suas fãs, entre jovens adolescentes e adultas na casa dos 20s, desceu ao fosso para as cumprimentar o que suscitou uma mini loucura na frontline. No momento seguinte tivemos “Team” para de seguida desacelerar a fundo com a triste canção “Liability” no qual existiu um momento de ligação em que as pessoas acenderam as suas lanternas para dar-lhe um pouco de luz num período introspetivo.
Depois de ter apresentado duas músicas novas, o final aconteceu com “Green Light” num concerto para um público feminino jovem presenteado com os condimentos certos de um show por uma diva pop.
Seguiu-se a apresentação do mini filme sobre a edição que acabava de terminar, tal como é habitual a seguir ao último concerto do headliner, com a mistura de confettis e bolas gigantes das cores do main sponsor. Um habitué no festival e uma ocasião sempre bastante festiva e adorada por toda a gente.
O Vodafone Paredes de Coura regressa em 2024 entre os dias 14 a 17 de Agosto. Estão já prometidas bandas com historial nesta vila do Alto Minho.

A concentração do público em Crack Cloud | mais fotos clicar aqui
— Considerações finais
– Tal como o festival nos habituou, desde os WCs à restauração, os espaços funcionaram bem e notei uma maior preocupação com a limpeza de todos os locais. Este ano, pela menor afluência, foi até mais fácil circular.
– As bandas portuguesas, pela sua alta qualidade, não ficam a dever em nada às suas congéneres estrangeiras. Merecem ter slots mais relevantes, refiro-me a tocarem no palco principal e noutros horários nomeadamente na antecâmara dos grandes headliners.
– Considero que há demasiadas bandas/artistas por dia e uma atuação de 45 minutos é relativamente curta. Menos bandas e mais tempo de atuação pode ser positivo, do ponto de vista dos festivaleiros.
– Alguns horários são muito tardios, de registar que ter headliners entrarem quase às 2 da manhã é exagerado. Inclusive ter atuações a começarem às 4 da manhã é igualmente muito puxado. Há pessoas que vão só pelos concertos e no final têm de regressar a casa. Nem todos estão de férias.
– Os intervalos entre as atuações principais, em todos os dias foi demasiado longo. Na sexta-feira, devido ao temporal, foi até uma fase de resistência para quem esperou para assistir a Little Simz.
Foto-reportagem completa deste dia: Clicar Aqui

A boa disposição do público no último dia | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Tiago Paiva
