Manel Cruz // Créditos © Ivo Rainha – FreePass Guimarães
O Westway LAB Festival realizou este ano a sua 5ª edição e, sem margem para dúvidas, foi a mais ambiciosa de todas.
Sempre tendo a cidade de~Guimarães como “pano de fundo” tem conseguido atingir os seus objectivos: “objetivos fundamentais provocar encontros, estimular processos criativos, formular soluções para percursos profissionais e apresentar mostras autorais consolidadas.” Este é um evento de dupla abertura, destina-se aos profissionais da música porém tem uma janela aberta para o público em geral (nomeadamente no que diz respeito aos concertos e showcases).
As residências artísticas, as talks e conferências PRO foram reservadas para os profissionais da área musical e conferem-lhe a sua parte mais técnica. Já os concertos (uns foram pagos outros gratuitos) e showcases foram abertos ao público em geral como forma de celebração da música e da criação original.

Conferências PRO // Créditos © Ivo Rainha – FreePass Guimarães
Este ano o evento teve uma novidade que foi “Country Focus” no qual houve o foco específico para a música de um país. Escolhida a Áustria e esteve representada pelos projectos musicais Leyya, Avec, Cari Cari, Molly e Motsa. Todos eles tiveram a oportunidade de tocar ao vivo e dar assim a conhecer o seu reportório.
Ao todo aconteceram 28 concertos, um número deveras impressionante, dos quais a destacar a um forte contingente lusitano de qualidade lusitano: Manel Cruz, Dear Telephone, Toulouse, Isaura e Valter Lobo (com o projecto “Lobos de Barro” em conjunto com André Barros).
Por diversos espaços da Cidade Berço e inseridos nos City Showcases (de entrada gratuita) tocaram Gobi Bear, Daily Misconceptions, Joana Guerra, Time For T, Elizabete
Balcus, Nery, Jennifer Pague (Vita and The Woolf) e Mathilda. Foi esta a forma de inclusão da cidade no Westway LAB Festival.
Infelizmente por razões profissionais e com muita pena nossa não pudemos assistir ao Why Portugal Stage que contou com performances de Stereossauro, Isaura, Omiri e Moonshiners. Do restante do programa podemos acompanhar a maioria dos concertos/City Showcases pelo que vamos falar um pouco acerca deles a partir de agora.
As residências artísticas reuniram vários artistas e agruparam (quase) sempre artistas nacionais com artistas estrangeiros. O resultado destes trabalhos em conjunto foi mostrado ao vivo em duas noites consecutivas no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor. Na primeira noite o duo austríaco Cari Cari com João Morais (O Gajo) subiram ao palco para tocar algumas canções resultantes do seu encontro durante uma semana. Com um rock bem definido pela guitarra electrica e bateria dos Cari Cari com um toque de eloquência dado pela guitarra, a Viola Campaniça, de O Gajo o resultado foi bastante agradável de se ouvir. Não poderia ter começado melhor a noite.

Concerto final da residência artística Cari Cari + O Gajo // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
Seguiu-se um segundo showcase também resultante de uma residência artística. Desta vez tivemos em palco Gabriel Salgado (Ana) e as francesas Bryony Perkins e Miranda
Perkins (Perkins Sisters), duas cantoras que fazem parte da banda Sparky In The Clouds. Tiveram reunidos 2 dias e meio e o resultado também foi interessante. A performance baseou-se em vozes mais loops por parte das francesas com guitarra e piano de Gabriel Salgado. O showcase teve de parar a determinado momento para se resolverem dificuldades técnicas, no entanto, não foram suficientes para impedirem de termos uns minutinhos minimamente interessantes.

Concerto final da residência artística Perking Sisters + Ana // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
O final da primeira noite (dia 11 de abril) terminou com o rock espevito dos extrovertidos húngaros Dope Calypso. Têm um som marcadamente influenciado pelos sons de leste e balcânicos.
Com as boas indicações da primeira noite ficamos com um boa sensação e com uma maior expectativa para a segunda noite (dia 12 de abril) de apresentações de residências artísticas. A primeira actuação da noite trouxe-nos Jennifer Pague dos Vita and The Woolf colectivo norte-americano com Bruno Miguel dos Papercutz. Apenas tiveram juntos 2 dias e deram um gostinho electrónico baseado na voz da Jennifer, do sintetizadores e de sons pré-gravados.
A seguir mais uma união luso-francesa como na noite anterior. Rolando
Ferreira (Mister Roland) com Laure Briard. Apresentaram-nos um pop rock suave e praticamente acústico. Além a voz de Laure Briard e de Mister Roland na bateria houve apoio de um terceiro elemento na guitarra. Foi sem dúvida o melhor da noite. Noite encerrada por Bowrain, artista esloveno, compositor e pianista. Une ao piano sons electrónicos.

Concerto final da residência artística Laure Briard + Mister Roland // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
A sexta-feira 13 de abril não foi de azar e dedicada maioritariamente às bandas austríacas, tocaram os Cari Cari, os Molly e o DJ Motsa. A excepção verificou-se com a apresentação de outra residência artística, esta totalmente lusa com a dupla Valter Lobo (músico fafense) e André Barros.
Cari Cari, uma dupla austríaca formada pela multi-instrumentalista Stephanie Widmer e pelo baixista Alexander Kock. Tocaram no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor. Têm um som porreiro, uma mistura de country rock com outros tipos de rock. Ambos contribuem vocalmente sendo que Alexander toca guitarra e Stephanie concentra-se na bateria fazendo uso também de instrumentos de sopro, menos comuns, como o didgeridoo e a harpa de boca. “Dear Mr. Tarantino” foi uma das canções que mostraram e que surgiu na sequência de um desejo de ambos, conforme Alexander contou. Essa música é dedicada ao realizador Quentin Tarantino pois sempre quiseram entrar na banda
sonora de um filme do conhecido realizador norte-americano.

Concerto dos austríacos Cari Cari // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
Seguimos para a estreia dos concertos no Grande Auditório. Para nós uma novidade pois nunca tínhamos assistido a uma performance do lado de trás do palco daquele espaço. Em vez das habituais cadeiras, ficamos num espaço amplo existente atrás do palco. A
primeira banda a tocar neste Westway Lab Festival naquele espaço foram os Avec. Formada pela vocalista Avec a sua banda conta com mais 3 elementos: Andreas,
Lukas e Ross. Com instrumentos típicos de uma banda pop-rock: guitarra eléctrica e acústica, bateria, baixo e percussão mostraram-nos um som escorreito e de fácil audição. O timbre da vocalista fez-nos lembrar a pequena Grace VanderWaal, a norte-americana que venceu o concurso televisivo norte-americano “America’s Got Talent”.

Concerto dos austríacos Avec // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
O roteiro de seguida levou-nos ao Pequeno Auditório para assistirmos ao projecto de criação “Lobos de Barro” desenvolvido pela dupla Valter Lobo e André Barros. Ao piano tivemos André e na voz/guitarras Valter a que se juntou “músicos numa caixa”, isto é, às programações pré-preparadas. Tivemos uma actuação com vídeos a passar numa tela por detrás dos artistas naquilo que foi uma “dose de melancolia positiva” como tão bem
descreveu o artista fafense dizendo ainda que “só possível numa cidade como esta”.

Valter Lobo // Créditos © Ivo Rainha – FreePass Guimarães
Terminado este momento luso, voltamos ao Grande Auditório para mais uma apresentação austríaca vinda de Innsbruck. Mais uma dupla, desta vez, Molly composta por Phillip Dornauer (bateria, piano, sintetizadores) e Lars Anderson (voz
e guitarra). Com um som difícil de catalogar, vive da inspiração de vários géneros, entre shoegaze, rock e vários tipos de indie rock. Apesar dos problemas técnicos na parte dos instrumentos de Phillip, o que obrigou a Lars a ter um pequeno solo. Valeu a pena ouvir e ficar a conhecer esta banda.

A dupla austríaca Molly // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
A noite terminou com DJ set proporcionado por outro artista austríaco neste caso Motsa.
Chegados ao último dia, sábado 14 de abril, pela frente um longo programa com os City Showcases entre as 15 horas e as 19 horas e à noite mais 5 actuações. Dia/noite mesmo em cheio.
Como os City Showcases iam-se sucedendo nos horários e nos locais fizemos o
nosso roteiro e optamos por assistir a projectos que ainda não tínhamos visto
ao vivo. Daí as escolhas de Daily Misconceptions no Bar da Ramada, Mathilda
no coração da cidade-berço no Convívio e por fim no CAAA (Centro para os
Assuntos da Arte e Arquitectura) os Time for T. A grande revelação da tarde foram mesmo estes últimos. Gostamos imenso do concerto dos Time for T e do som que apresentaram naquele que foi o concerto de estreia da banda formada por Tiago Saga. Uma mescla de vários géneros desde o folk ao Reggae de muita qualidade e com uma sonoridade muito
apelativa.

Time For T. // Créditos © Ivo Rainha – FreePass Guimarães
Com a pausa para respirar fundo, jantar e descansar foi a altura de “voltar à carga”. Os concertos da noite eram muito apelativos e cumpriram com a nossa expectativa. Ainda mesmo antes de chegarmos ao Centro Cultural Vila Flor soubemos que as pulseiras estavam prestes a esgotar, algo que deixou-nos satisfeitos pois o evento merecia terminar com casa cheia.
O roteiro nocturno iniciou-se com a apresentação dos barcelenses Dear Telephone no Pequeno Auditório. A banda aproveitou para mostrar as novas canções incluídas no álbum “Cut” lançado o ano passado. Uma performance consistente numa feliz abertura de noite.

Graciela Coelho dos Dear Telephone // Créditos ©Ivo Rainha – FreePass Guimarães
No final lá voltamos a mais “uma moedinha, mais uma voltinha” até ao Grande
Auditório para vermos e ouvirmos a última banda austríaca a mostrar o seu
trabalho: os Leyya. Uma banda liderada por Sophie Lindinger e que navega pelos mares do electro pop. Antes de concentrarmo-nos na nossa estreia em Manel Cruz demos um salto ao café concerto para espiarmos o concerto dos vimaranenses Toulouse. Já não nos surpreende a qualidade e empenho da banda em palco, mais uma vez estiveram em bom plano. Pena é que não tivessem tido mais gente a vê-los. Ficaram “encalhados” entre os principais concertos da noite.

Os austríacos Leyya // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
Poucos minutos antes da meia-noite e uma mini multidão esperava para poder aceder ao Grande Auditório e assistir ao concerto de Manel Cruz bem acompanhado em
palco por Nico Tricot, Edu Silva eAntónio Serginho. O artista conhecido sobretudo por ter feito da mítica banda Ornatos Violeta fez jus ao epíteto de cabeça de cartaz e deu um concerto incrível. A orelha enorme em cima do palco ao centro marcava a imagem de marca. Utilizando uma panóplia enorme de instrumentos tivemos momentos únicos e surpreendentes em palco. Um desses momentos foi quando Manel Cruz cometeu
uma gaffe na letra ao cantar o épico tema “Capitão Romance” dos Ornatos Violeta.
Surpreendeu toda a gente incluindo a banda… Não foi normal ele ter-se enganado
numa canção que tem 20 anos como o próprio admitiu. Confessou igualmente que
não tinha noção que quase todas as suas letras têm referência a “Deus” pelo que
prometeu tentar cantar uma canção que não a incluísse… Manel Cruz apresentou-se super comunicativo, divertido e até interagiu com o público. Ao longo de bem mais de 1h foram apresentados vários temas incluindo os mais recentes: “Ainda Não Acabei” e “Beija-flor”. Sem dúvida um dos grandes momentos (senão o maior) deste Westway LAB Festival 2018.

Manel Cruz // Créditos Westway LAB Festival 2018 © Os Fredericos
Algo que foi bonito de verificar foi o acompanhamento dos artistas presentes no evento aos concertos dos seus colegas de profissão. Algo que verificamos em todas as performances que assistimos. Quanto ao público em geral, foi cada vez mais aderindo tendo o sábado sido o dia de maior afluência como já o dissemos anteriormente.
Como jeito de conclusão revelamos agora as bandas que mais gostamos de descobrir deste enorme roteiro que tivemos a oportunidade de visualizar. De um modo geral gostamos de todas as bandas austríacas, no entanto, temos de destacar claramente os Cari Cari. Quanto à “armada lusa”, gostamos muito de descobrir os Time For T, banda que não nos era totalmente desconhecida como a austríaca, no entanto, agora tivemos a primeira vez de os ver ao vivo e gostamos mesmo bastante.

Os austríacos Cari Cari // Créditos ©Ivo Rainha – FreePass Guimarães
O Westway LAB Festival é uma pérola, um universo musical recheado de
música de muita qualidade à espera de ser descoberta. Para nós foi uma vivência
e uma experiência muito boa e que pretendemos voltar a viver em próximas
edições. Com o apoio de A Oficina, a entidade que gere o Centro Cultural Vila Flor, a organização correu muito bem e~estamos convencidos que todos os que viveram este evento saíram muito satisfeitos pela experiência.
Texto:
Edgar Silva

