
HeadLiner On the Moon é uma rubrica de análise de trabalhos discográficos elaborada por João Tavares do blogue Man On the Moon no qual são originalmente publicadas. Nesta parceria os álbuns lançados
nas últimas semanas terão um olhar sempre atento e uma audição sempre
sagaz!
Já chegou aos escaparates de
‘The Ascension’,
o quinto e novo trabalho do norte-americano ‘Sufjan Stevens’, um registo
que viu a luz do dia a vinte e setembro e que sucede ao excelente ‘Carrie & Lowell’, de dois mil e quinze, um trabalho que marcou o retorno do músico à folk mais
intimista, nostálgica e contemplativa, depois de ter deambulado entre o
caótico, o esquizofrénico e o genial em discos tão importantes como ‘Illinoise’ ou ‘The Age Of Adz’.

‘The Ascension’
é
uma jornada eletrónica climática e intimista, mas também algo
inquietante, feita de um psicadelismo eminentemente experimental. Depois
desta evidência, que fica clara logo após uma primeira audição do
alinhamento da obra, importa referir que
‘The Ascension’
é um
marco na inflexão sonora que este músico de Chicago tem vindo a fazer
ultimamente, não só no seu projeto a solo, mas também nas colaborações
onde tem assentado arraiais, com particular destaque para o disco
‘Planetarium’
que assinou a meias com Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister, há pouco mais de três anos.
Mesmo contendo alguns dos
tiques identitários que marcam uma carreira de quase duas décadas,
impressos na intimidade dialogante da sua escrita, que atingiu o apogeu
no antecessor que se debruçava sobre o súbito desaparecimento da mãe e
na seleção de alguns arranjos e detalhes que ainda têm um travo folk inconfundível,
‘The Ascension’
oferece-nos, acima de tudo, um vasto e barroco festim eletrónico,
justificado em diversas composições recheadas de uma vasta miríade de
efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que, como é o
caso da grandiosa composição America, servem bem à medida da imensidão e
do silêncio que carateriza o vazio cósmico a que o músico de Chicago
nos tem habituado ultimamente, não só nas obras já referidas, mas também
no inquietanto trabalho
‘The Age Of Adz’, a comemorar dez anos de existência.
No entanto, não há um único fio condutor na descrição estilística de
‘The Ascension’,
um álbum onde questões como a religiosidade, o sobrenatural e o
abstracionismo, no fundo, conceitos que também servem para definir o
conceito de amor de que Sufjan Stevens tanto gosta de explorar, são a
pedra de toque de cerca de oitenta minutos que formam, no seu todo,
moldura sonora estética que pode ser comparada a uma verdadeira jóia, em
todos os sentidos. “Video Game”, talvez a canção da carreira do musico de Chicago que mais fielmente obedece ao formato pop dito
convencional, mostra também um perfil radiofónico e acessível no disco,
uma canção que, sendo melodicamente feliz, assenta num registo
sintético proeminente, em que, numa espécie de dance pop psicadélico,
vozes e batidas aproximam perigosamente Sufjan Stevens de um território
sonoro dominado por alguns dos maiores mestres do R&B e do hip-hop atual.
Em
suma, cinco anos após um período extremamente complicado da vida do
músico, o entusiasmo, a inspiração e a apurada veia criativa regressaram
a Chicago, envolveram Stevens, deram-lhe uma vontade de trabalhar fora
do vulgar e o resultado é um disco cuja audição nos proporciona uma
experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.
Espero que aprecies a sugestão…

Tracklist:
- Make An Offer I Cannot Refuse
- Run Away With Me
- Video Game
- Lamentations
- Tell Me You Love Me
- Die Happy
- Ativan
- Ursa Major
- Landslide
- Gilgamesh
- Death Star
- Goodbye To All That
- Sugar
- The Ascension
- America
Avaliação pelo HeadLiner:
⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐ (9/10)
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Review escrita por João Tavares.
### Autor do blogue Man On The Moon no
qual publica, desde 2008, análises bem pertinentes às bandas e artistas
mais interessantes do momento. Sem dúvida uma das leituras mais
aconselháveis sobre música indie e alternativa em português de Portugal.
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