
headLiner On the Moon é uma rubrica de análise de trabalhos discográficos elaborada por João Tavares do blogue Man On the Moon no qual são originalmente publicadas. Nesta parceria os álbuns lançados
nas últimas semanas terão um olhar sempre atento e uma audição sempre
sagaz!
Já viu a luz do dia ‘Serpentine Prison’,
o disco de estreia da carreira a solo de Matt Berninger, um registo que
deve muito do seu conteúdo ao período de confinamento que o músico
viveu em Nova Iorque e que lhe permitiu debruçar-se com maior empenho
neste seu projeto paralelo à realidade The National.
‘Serpentine Prison’ conta
nos créditos com os produtores Booker T. Jones e Sean O’Brien, e viu a
luz do dia através da Book Records, uma nova etiqueta, subsidiária da
Concord Records e formada por Berninger e Jones em conjunto.

Matt Berninger ao vivo com os The National no Festival Vodafone Paredes de Coura 2019 || Foto @ Hugo Lima
Por muitas voltas que
Matt Berninger dê à sua carreira musical, seja a solo, seja nos The
National ou no projeto El VY, há sempre um tronco comum a todas as suas
abordagens artísticas, as ideias de melancolia, de angústia amorosa e de
sofrimento mais ou menos profundo devido a esse sentimento único.
‘Serpentine Prison’ não foge à regra. Num registo que mostra logo esse ADN do músico em “My Eyes Are T-Shirts”:
”When I see you
something sad goes missing, I stop crying, lay down and listen, I hear
your voice and my heart falls together, please come back, baby, make me
feel better”
Logo a seguir com uma sobriedade descomunal em “Distant Axis”, um tema que foi crescendo a partir de um esboço criado por Walter Martin (The Walkmen) e que tinha o nome inicial “Savannah”.
“Distant Axis” é, aliás, a canção que melhor conjuga, na minha opinião,
as dimensões lírica e sonora de ‘Serpentine Prison’. Uma lindíssima
composição, instrumentalmente riquíssima e repleta de arranjos das mais
diversas proveniências, com uma toada emotiva crescente na qual as cordas
e o piano se deixam cobrir com mestria por uma nuvem espessa de
classicismo, por uma áurea de sentimentalismo e sensibilidade únicos,
impressões ampliadas pela superior delicadeza do registo vocal grave de
Berninger.
Berninger
é, na sua essência, confessionalmente monocromático e, artisticamente,
uma fonte inesperada de soul, conforme se percebe, por exemplo, em “One More Second”, ou nas cordas que abraçam generosamente a sua voz suplicante em “Loved So Little”.
Poucos duvidam que pessoalmente não seja uma personagem irrequieta, bem
humorada e divertida, sendo público o seu sorriso fácil e uma genuína
simpatia. É um ser repleto de cor e de jovialidade, mas, artisticamente,
este autor, cantor e compositor sempre preferiu uma outra profundidade,
fazendo-o com uma abordagem genuína e biográfica, plasmada numa faceta
cinza que o coloca num pedestal de refinamento e classicismo exuberante e
até algo distante da filosofia dos The National, eminentemente crua,
enérgica e imediata, quando comparada com esta proposta em nome
próprio. O piano que conduz “Take Me Out Of Town” é uma sagaz ilustração desta sua visão requintada e charmosa do processo de composição e o cariz boémio e nublado de “Collar Of Your Shirt” um marco de nobreza melancólica que todos devemos apreciar com elevada devoção.
Em suma, ‘Serpentine Prison’
oferece-nos com tremenda nitidez alguns dos maiores medos e
inseguranças do autor e Berninger fá-lo aqui tornando-se na própria
estrela que interpreta o estilo particularmente cinematográfico de uma
escrita sempre tocante, intensa e realista.
Espero que aprecies a
sugestão…

Tracklist:
01. My Eyes Are T-Shirts
02. Distant Axis
03. One More Second
04. Loved So Little
05. Silver Springs (Feat. Gail Ann Dorsey)
06. Oh Dearie
07. Take Me Out of Town
08. Collar Of Your Shirt
09. All For Nothing
10. Serpentine Prison
Avaliação pelo headLiner:
⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐ ⭐(8/10)
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Review escrita por João Tavares.
### Autor do blogue Man On The Moon no
qual publica, desde 2008, análises bem pertinentes às bandas e artistas
mais interessantes do momento. Sem dúvida uma das leituras mais
aconselháveis sobre música indie e alternativa em português de Portugal.
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