“I’m going my way” para ver Birds Are Indie em Coimbra

Birds Are Indie no Salão Brazil | Foto © Daniela Barbosa

Sábado de tempo excelente, com um calorzinho bom, numa decisão de última hora decidi rumar a Coimbra para fazer a minha estreia no Salão Brazil. Juntei-me ao meu amigo Luís no Porto, durante a tarde, para de seguida rumamos até à cidade conimbricense com o objetivo bem definido. Neste passado dia 18 de abril, os Birds Are Indie terminavam uma série de três concertos seguidos com mais uma atuação numa das suas salas preferidas, quiçá até a predileta de todas. Motivos óbvios é a sala da sua cidade e uma aonde vão tocando com alguma regularidade. Afirmaram “sempre um prazer tocar em casa” só que também não esconderam que nem sempre foi assim pois ao início o nervosismo atrapalhava um pouco.

Para os mais distraídos: este trio já tem 16 anos de carreira, são já 7 álbuns com alguns EPs e singles pelo meio.

Vila das Aves em 2018, Setúbal em 2023, Barcelos em 2024, em Guimarães há poucas semanas… Finalmente vi-os na cidade do seu berço. Portanto tudo somado são cinco os concertos que vi dos Birds Are Indie e com toda a certeza não ficará por aqui.

Joana e Ricardo em destaque | Foto © Daniela Barbosa

Bem recentemente esta banda de Coimbra editou, mais precisamente no passado dia 27 de março de 2026, o seu mais recente registo discográfico ‘The Stone of Madness’ sendo um complemento de ‘Ones & Zeros’ o anterior álbum de 2023. O seu indie pop, com coesos elementos de eletrónica, extremamente bem ritmado tem uma linha identitária bem personalizada tem vindo a ser construída ao longo dos anos de forma bem fina estando atualmente no seu ponto de maturação ideal.

A entrada no Salão Brazil fez-me lembrar a entrada do CCOP no Porto devido à escadaria que leva ao 1º andar aonde está localizada a sala de espetáculos. Situada na baixa de Coimbra num edifício antigo esta sala de espetáculos tem uma elegância muito própria, um espaço gerido e programado pelo JACC-Jazz ao Centro Clube, uma associação cultural sem fins lucrativos.

Uma playlist de luxo esteve a rolar na instalação sonora antes da atuação com temas como “Are You with Me Now?” de Cate Le Bon e “Walk Away” dos Franz Ferdinand numa mistura entre música mais recente e outra já vintage. Música editada pela Lux Records não ficou evidentemente de lado. Ouviu-se também “Levitate Me” dos Pixies numa versão de Raquel Ralha & Pedro Renato.

Ricardo em destaque | Foto © Daniela Barbosa

Às 22 horas e 17 minutos deu-se o “pontapé de saída” por parte dos Birds Are Indie, altura em que surgiram em palco, com o tema “Empty screen”. Esta é curiosamente a primeira faixa do disco de 2023. A partir daí, o foco principal foram mesmo as fresquinhas canções de ‘The Stone of Madness’. Houve, mais adiante e na parte derradeira, mais uns certeiros desvios na recuperação de temas de discos anteriores.

A multi-instrumentista Joana Corker ficou ao meio e ocupou-se da bateria (em modo redux), do teclado e sintetizador. À esquerda ficou Henrique Toscano, ele que tocou baixo. À direita esteve Ricardo Jerónimo na guitarra. A indumentária foi também pensada ao pormenor: eles vestidos de todo de preto e com sapatilhas de lona da mesma marca, já Joana esteve de preto da cintura para baixo e na parte de cima com uma camisa encarnada.

Casa bem preenchida no Salão Brazil | Foto © Daniela Barbosa

Como nota de curiosidade vale a pena referir que o último a juntar-se à banda, um ano após o debute do projeto, foi o baixista Henrique Toscano.

A primeira das novas a ser tocada foi “I could laugh”, com uma breve paragem para toda a parafernália da percussão de Corker ficar devidamente assente. Seguiu-se “Not Today”, música que escutamos na RTP Antena 3 durante a viagem e que atualmente ocupa a posição 5 no top A3 30, e que foi o primeiro single deste último álbum. Uma canção bem ritmada e que resulta de forma efetivamente eficaz ao vivo devido ao seu compasso e repetição do simples refrão que fica a ecoar na mente. O seu significado versa sobre um: “sentimento de frustração de querer que uma série de coisas aconteçam, mas elas teimam em nunca mais acontecer”

Outro dos temas significativos da noite foi “Useless effort”. Aborda a observação uma flor no meio do deserto e da dualidade que isso representa. Os temas dos Birds Are Indie todos têm um background bastante profundo, é necessário escutar e prestar a devida atenção às letras por via de uma forma pensante.

Interação de Ricardo Jerónimo com a sua família | Foto © Daniela Barbosa

A mãe de Jerónimo esteve destemida e corajosa, curtiu o som mesmo juntinho ao palco, ao invés de outros familiares que preferiram ficar mais recatados. Este concerto teve também esse lado reconfortante, quando há família e amigos presentes a ocasião torna-se naturalmente mágica e memorável. A sala registou uma afluência bastante considerável o que ajudou de sobremaneira a animar as hostes. Não foi um público demasiado efusivo contudo soube presentear a banda com a sua satisfação nos momentos acertados.

Num desvio a 2020 escutamos “Black (Or The Art of Letting Go)”, um tema belíssimo e que caracteriza bastante bem a essência deste trio. Por esta altura já a banda sentia de forma expressiva o calor do interior do Salão Brazil, verbalizado por Joana “está muito calor” ao mesmo tempo que abanava as golas da sua camisa. “Em Abril, calores mil”, reformulando o ditado, pareceu-me que o público aguentou bem a situação. Um dos miúdos que esteve presente e que ficou em tronco nu também não ficou propriamente chateado…

Joana Corker sempre bem disposta… Mesmo com o calor | Foto © Daniela Barbosa

“Le bec dans l’eau”, a tal com o refrão em francês e que serviu eles terem uma canção não cantada em inglês, foi dedicada ao amigo que lhes proporcionou a expressão. Ao todo interpretaram sete dos dez temas deste incrível álbum novo apelidado de ‘The Stone of Madness’.

De ‘Local Affairs’, álbum de 2018, tocaram a “Get In”. Já de ‘Ones & Zeros’, álbum de 2023 interpretaram também os temas “Same time, same place” e “So many ways” marcando definitivamente, de forma bastante acutilante, a fase final do concerto.

“Behind the sun”, a mais calminha da noite, revelou-se especial pelo sublime contraste das vozes do casal Joana e Ricardo, mesmo um momento espetacular. O fecho de cerca de hora e meia de concerto ocorreu “Shake Shake” dos Tédio Boys, uma versão pelos Birds Are Indie figura num álbum de tributo a esta incontornável banda de Coimbra. Tema dedicado a Rui Ferreira, dono da loja Lucky Lux, estabelecimento que dista a 3 minutos do Salão Brazil, e também o responsável pela editora Lux Records. Tinha mesmo de ser uma versão pois o senhor é apreciador de boas versões.

Henrique em destaque | Foto © Daniela Barbosa

Todo este desvario conimbricense foi uma aventura inesquecível. Um sábado extremamente aprazível em excelente companhia, uma passagem agradável pela baixa de uma cidade que tenho ainda a descobrir mais a fundo. A “cereja no topo do bolo” foi mesmo o notável concerto dos Birds Are Indie. Ficou também checkada mais uma sala da minha lista, o Salão Brazil é um sítio fixe. Pelos vistos vai ser remodelado e a programação continuará a proporcionar bons momentos ao pessoal de Coimbra e arredores. Resta dizer aos conimbricenses: façam um favor a vocês mesmos: aproveitem, deem vida à cultura em especial a esta mítica sala e apoiem os artistas portugueses.

Agradecimento final ao Manuel Simões da This Is Ground Control pela simpatia e pelo convite para esta reportagem e respetiva cedência das fotos da Daniela Barbosa.

Momento mais intimista entre Joana e Ricardo | Foto © Daniela Barbosa

Texto:
– Edgar Silva

Fotografia:
– Daniela Barbosa – @ urbandani_dades (Instagram)

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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