Foco HeadLiner aos Talentos Emergentes #18 | Fatspoon

image

A música instrumental dos Fatspoon não se gere por fronteiras ou limites e mescla géneros tão distintos como o rock, a dance music, o funk ou o hip-hop.

A Cidade Invicta é um dos pontos de encontro deste coletivo que agrupa amantes de música vindos de estilos distintos e respetivos gostos diferentes. O núcleo duro é constituído por João Hierro, Miguel Pinto, João Azeredo, Pedro Nadais e Gonçalo Palmas sendo que ao vivo a formação é mais extensa. Uma banda jovem com todos na faixa etária dos 20 aos 30 anos.

O seu som é fortemente groove e faz com os seus ouvintes mexam as ancas e deem uns pezitos de dança. Foi isso mesmo que a equipa do headLiner comprovou no concerto que este coletivo realizou em Famalicão.

‘Mushgrooves’ é a primeira edição discográfica cujo lançamento ocorreu no decurso deste 2020.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=MxdgBLbxUak&w=540&h=304]

A meados de Agosto fomos convidados para o estúdio e ponto de encontro improvisado dos Fatspoon, um colectivo formado por amantes da música e que viram no jazz a receita perfeita para os levar mais além.

Na casa do Luís, um dos dois bateristas que a banda tem, tivemos uma longa conversa sobre o seu trabalho de estreia, ‘Mushgrooves‘, uma mistura entre o jazz, o funk, o rock ou mesmo o hip hop, numa combinação alucinante e que deixou muita água na boca.

Na nossa conversa falamos com parte da banda, Luís, um dos bateristas, Miguel Pinto, no baixo, Gonçalo Palmas, nos teclados e Pedro Nadais, numa das guitarras. Falamos do digital e do analógico, das grandes influências com  nomes como Snarky Puppy ou Vulfpeck, ou do palco de sonho que a banda portuense sonha em tocar.

image

Fatspoon em concerto no MEL- Famalicão [Mais fotos aqui]

~ Entrevista ao Fatspoon

headLiner: O vosso nome, Fatspoon, tem um tanto de
engraçado como de peculiar. Como surgiu a receita para este nome?

Miguel Pinto: Foi um bocado por um acaso.
Inicialmente o nome da banda era outro, e, por engano, um amigo do Luís veio-me
perguntar: “Como é que se chama a tua banda? É Fatspoon?”, “Não, meu, é outro
nome”. Mas fiquei com aquilo na cabeça, e acabou por ficar aquele nome.

Pedro Nadais: Queres dizer o nome anterior?

Miguel Pinto: Era Fapoon, que não tinha nenhum significado [risos].

Pedro Nadais: Não, tinha um significado.

Miguel Pinto: Era um significado com pouca
importância. Foi de um vídeo da internet, e estávamos com pressa para arranjar
um nome porque íamos ter um concerto. Ou seja, inicialmente era esse o nome,
depois é que veio este. Foi ao acaso uma pessoa que se enganou, e disse: “Não,
meu, mas Fatspoon é que é fixe, tipo grande colher de grumo”. E acabamos por achar engraçado, e pronto, depois o resto da banda
achou piada e ficou.

headLiner: Vocês vêm de um background diferente,
certo? Uns de vocês vieram da FEUP, outros da ESMAE, como surgiu este coletivo?

Pedro Nadais: A banda começou comigo e com o Miguel.
Conhecemo-nos na FEUP, começámos a tocar com um baterista, depois tocamos com outro,
com outro guitarrista, estávamos sempre a mudar.

Miguel Pinto: Não era bem uma banda, íamos tocando juntos.

Pedro Nadais: Sim, íamos tocando juntos. E depois
falámos com o Hierro (baterista 2) que o Miguel conhecia, foi o primeiro baterista (e continua a ser), e depois foram surgindo todos
os outros membros. O Azeredo (saxofone), que surgiu por intermédio do Hierro e depois o
Palmas (teclados).

Miguel Pinto: Eu já tinha falado com o Palmas no
início da banda, só que não deu na altura, depois o Hierro também falou com ele.
Foi um misto, toda a gente se conhecia.

Palmas: E acabou por ser no timing certo.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=mdlBSOdWbSE&w=540&h=304]

headLiner: Pelo que percebi, o Palmas já era cobiçado há algum tempo.

Palmas – Nós não nos conhecíamos muito bem.
E na altura que me chamaram ainda não havia muitas coisas para me mostrar.
Depois decidimos que iria acontecer numa fase a seguir, quando já houvesse música,
para podermos construir algo em conjunto. Mas a partir do primeiro ensaio
levámos todos a sério e pegámos todos na “coisa” em conjunto, o que acabou por
ser a seguir ao primeiro concerto de Fatspoon.

headLiner: Gravaram em fita para as Live Session
Master Tape. O porquê de gravar neste registo? Que grandes diferenças sentem
gravar em fita relativamente ao digital?

Palmas: Eu acho que quando se grava em live session, diretamente para uma fita, a orgânica da banda está sempre acima, porque há
mais a simulação de concerto ao vivo, em que não interessa tanto se há um prego ou se algum volume não está no sítio. O
que interessa é mesmo essa orgânica, que não se consegue capturar quando os músicos gravam faseadamente. E
o que nós temos falado é que agora se calhar vamos optar mais pelas lives, porque tem mais a ver com o nosso
estilo e já temos alinhavados quatro lives que
não sabemos ainda bem como é que vão ser feitos. A partir de agora se
calhar vamos optar mais por gravar porque achamos que captura o nosso lado mais ligado à improvisação. Gostamos muito de incluir momento de improviso nas nossas músicas.

image

Fatspoon em concerto no MEL- Famalicão

[Mais fotos aqui]

 

headLiner:  Duas dessas gravadas foram a “Biscuits” e a “Disco Sheet”,
duas novas do vosso álbum de estreia que irá sair ainda. Como foi o processo
criativo para esse trabalho? O facto de terem estado em confinamento teve
alguma influência direta? 

Miguel Pinto: O confinamento, acho que foi só mau para a banda, não ajudou muito.

Palmas: Por um lado deu pica para agilizar o lançamento, um bocado se calhar.

Miguel Pinto: Nós estávamos muito bem encaminhados para acabar o disco e depois houve
ali uma “coisa”, que nem sequer deu para nos reunir uns com os outros, praí durante um mês
e meio ou dois. Portanto deve ter atrasado esse tempo. E entretanto..

Palmas: E entretanto cancelámos imensa coisa também. Tínhamos cinco concertos marcados para
Março. Era um mês em que nós estávamos a investir muito. Nós em Janeiro e
Fevereiro não fizemos quase nada a nível de concertos estávamos a reparar-nos para tocar ao vivo em Março, e tínhamos um live também na porta 253 marcado. Ou seja, íamos
ter um live e cinco concertos e foi tudo cancelado. Neste momento ainda nem
sequer remarcámos essas coisas. Mas graças a isso, tivemos agora um concerto muito bom para nós, que nos deu imenso gosto em fazer. Um dos concertos adiados era no

CRU :: espaço cultural

em Famalicão, e agora essas mesmas pessoas, convidaram-nos para tocar num festival que agora estão a fazer, chama-se MEL, uma produção da Elogio Vádio.

Miguel Pinto: Mas a cena do confinamento é isso, não foi bom de todo para a banda.

[youtube=https://www.youtube.com/watch?v=tOBTrRRtQA8&w=540&h=304]

headLiner: Então a nível de processo criativo já estava tudo…

Miguel Pinto: Tudo não, nós estamos em misturas há muito tempo. Houve só uma coisa que
foi feita mais em processo criativo para uma das músicas que é a “Space Bagel”, onde se adicionaram os teclados e um
sintetizador. Isso é que foi feito pós-quarentena, ou ainda a meio da
quarentena.

Palmas: Foi no pós-quarentena, uma semana depois, mal acabou a quarentena. O Miguel convidou um grande amigo dele que é o Pedro Fonseca, que também faz parte de várias bandas. Juntamo-nos com ele e passámos ali quatro dias só a dar
um arranjo na mistura e a compor teclados. Chamámos um amigo nosso que gravou os
primeiros trinta segundos de um clavinet, o Francisco Martins, todos ajudaram. A música que se calhar
era uma das que estávamos menos satisfeitos, passou a ser uma das que neste momento estamos mais satisfeitos.

headLiner: E que bandas influenciaram o vosso som para este trabalho? 

Palmas: Acho que há duas bandas a que toda a gente nos associa sempre, em qualquer
sítio que vamos, que são as bandas que agora também estão mais na moda dentro
da nossa onda, que são os Vulfpeck e os Snarky Puppy.

Miguel Pinto: Mas as composições iniciais, o que eu andava a ouvir na
altura, era uma banda de Lisboa que são os Groove Quartet. Isso acho que influenciou imenso as
composições das músicas. Algumas, mais as músicas experimentais que estão sempre a mudar de partes.

headLiner: A vossa capa, a que está nas vossas redes sociais e que provavelmente foi
um dos cartões de visita, não a nível de som mas a nível gráfico, é um boneco a cozinhar algo, está ali qualquer coisa a fermentar. Quando começaram a sair as primeiras músicas estavam referenciados a sabores, comidas. Qual a ligação? 

Pedro Nadais: Isso surgiu muito naturalmente e muito espontaneamente e acho
que foi muito bem conseguida essa junção dos alimentos e dos sabores à parte
auditiva, que é a música.

headLiner: Mas foi algo pensado? 

Pedro Nadais: Não foi muito pensado. Inicialmente o nome não era Fatspoon.
Entretanto surgiu esse nome, que introduziu a colher da sopa nesta caldeirada e
depois, a partir daí uma coisa ia puxando a outra, como os nomes das músicas
por exemplo. Os nomes das músicas começaram muito por quem nos influenciava,
como a “James Jamon”, que é muito baseada no funk do James Brown, um bocado mais “rockada”, mas é
por aí. A “Scone Fields”, no John Scofield. A
partir daí começámos a criar algumas ligações entre nomes de músicas e comida… e colher, e surgiu assim essa sopa de letras.

headLiner: O que no fundo acaba também por ser o jazz. Uma mistura de vários
elementos e de vários instrumentos.

Pedro Nadais: Exatamente, é por aí. O jazz e a parte da improvisação e da fusão.

image

Fatspoon em concerto no MEL- Famalicão [Mais fotos aqui]

 

headLiner: Nas vossas atuações ao vivo, têm tido uma boa receção do público?

Pedro Nadais: Sim. Tivemos um concerto que me lembro muito bem, em Santo Tirso (Carpe
Diem
) em que tocámos, pagava-se a entrada e no final do concerto lembro-me de
muita gente nos vir felicitar. Pagava-se entrada, mas no final algumas pessoas
que não pagaram a entrada gostaram tanto que a foram pagar. Eu acho que isso
foi impagável para nós.

Palmas: Literalmente [risos].

Miguel Pinto: Mas a receção é sempre muito boa. Nunca tivemos nenhum concerto que
correu mal. Mesmo os que correm mal da nossa parte, ou que nós achamos que
correram mal, as pessoas dizem que gostaram muito. Mesmo não sendo nossos amigos.

Palmas: O mais bem conseguido, curiosamente, foi em Vigo. Um concerto que nós
fomos lá dar numa sala, foi o segundo concerto em Espanha que demos e foi uma
loucura. Era uma sala mesmo pequena, deviam estar vinte e cinco
pessoas. Estavam mesmo a vibrar. Estavam lá dois espanhóis que vieram falar connosco no fim para dizer que
tinham ouvido e que tinham achado que era parecido com Snarky Puppy e que
tinham feito 60 km para nos vir ver, todos contentes. E nesse aspeto a
receptividade está a ser boa. Agora queremos é fazer chegar a nossa música a
mais pessoas e com este álbum queremos investir forte em fazer a nossa música
chegar principalmente à comunidade mais jovem, ao pessoal mais da nossa faixa
etária.

headLiner: Como coletivo, onde se imaginam mais
a tocar: numa tarde quente no jazz na relva do Festival Paredes de Coura, num
final de tarde do Primavera Sound ou num Cool JazzFest? Em que cenário
gostariam de se enquadrar?

Miguel Pinto: Sinceramente, nos três.

Pedro Nadais: Isso era o melhor dos três mundos, era de facto os três.

Luís: Utopicamente falando, estaríamos no GroundUP Music,
que é o festival organizado pela malta dos Snarky Puppy. Mas no EDP Cool JazzFest seria fantástico. Mas para pegar no que estavas a dizer, sendo que o objetivo é
atingir um público mais jovem, seria incrível tocar no jazz na relva no Festival Paredes
de Coura
, era ótimo.

headLiner: Sendo que estão agora a lançar o vosso primeiro longa duração, queriam referenciar alguém, destacar alguém que vos ajudou neste processo?

Miguel Pinto: O álbum foi gravado inicialmente num estúdio na casa de um amigo nosso, o Filipe Oliveira. Na ajuda da captação do som tivemos a Inês Meira.

Palmas: A nível de gravação trabalhamos com alguns músicos, um deles foi o Shumi que gravou percussão na “Scone Fields”, outro deles foi o Francisco Martins que gravou o clavient na introdução da “Space Bagel”. Também trabalhamos com o Manu Idhra que fez percussão em duas músicas, na “James Jamon” e na “Funky Seaweed”. As bónus tracks do nosso ‘Mushgroves’ foram gravadas em fita e misturadas pelo Colin Girod, que tratou também da masterização do nosso disco. A capa do álbum foi concebida pelo Güerogüero, um ilustrador mexicano. Depois o João Miro, um amigo nosso, pegou na estética que ele ilustrou e construiu a contra-capa e o design do próprio disco.

Vejam toda a foto-reportagem do João Machado no MEL – Famalicão: clicar aqui

image

Links

Facebook: facebook.com/fatspoonmusic
Instagram: @fatspoonmusic

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.