
Já estamos em setembro, para trás ficaram muitas tendas vazias, recintos desertos, pó no ar, moches e crowdsurfs esquecidos. Entramos num mês em que parece que tudo acabou e só pensamos já no verão do próximo ano. Para nós é o regresso a um dos festivais mais genuínos e bonitos deste Portugal fora, são 3 anos a regressar onde fomos felizes, regressamos a uma terra encantada, regressamos ao Indie Music Fest.
Já com muitos kms de música percorridos nestes dois últimos meses, fizemos a mochila de campismo com o essencial e fizemo-nos uma vez mais à estrada. O Honda de 2000 do meu amigo Manso rapidamente se encheu. Nem mais uma cadeira ou uma tenda cabia naqueles metros quadrados. Partimos estrada fora sempre a rasgar alcatrão pela nacional 319 em direção a Baltar até passarmos por uma entrada com um grande aparato para aquelas bandas, claramente tínhamos chegado ao Bosque do Choupal.
O pórtico é marcado pelo já típico “Indie Music Fest” parecendo flutuar nos ares daquela terra encantada. Olhamos para dentro e apenas vemos uma coisa, aliás, milhares de coisas, vemos milhares de árvores serem comidas por heras que as trepam deixando o Bosque do Choupal místico e enigmático.

Já com a bonita pulseira no pulso esquerdo acompanhado por muitas outras, entramos no campismo bem ao lado do recinto onde passaram mais de 35 bandas. Por lá, já se estendiam centenas de tendas por entre carvalhos e pinheiros que se juntavam aos milhares de festivaleiros, dando suporte a camas de rede e a milhares de lâmpadas que de noite tornavam o campismo num lugar mágico.
Dia 1 – Fomos recebidos pelo rock
O relógio marcava as 18h00 quando os bracarenses Quadra subiram ao Palco Sisma, palco que mudou de localização em relação ao ano passado. Um espaço acolhedor bem propício a grandes concertos intimistas de puro rock rodeado de troncos de madeiras a delimitar o seu espaço. Em palco tocava o quinteto a apresentar o seu mais recente álbum ‘Cacau’. Com uma casa bem cheia, mostraram músicas como “Mapa de Fuga” ou “Mutações”, músicas cheias de cor e sabor que fizeram todos os presentes soltar os primeiros passos de dança.

Neste primeiro dia, o público fazia a rota entre Palco Sisma e Palco Relva, os únicos palcos abertos numa espécie de receção ao campista deixando o Palco Antena 3 apenas como um ponto de passagem.
O ponto mais alto desta primeira noite pertenceu à banda que encerrou a noite, os The FAQs. A banda, que conta com Tommy dos The Lazy Faithful no baixo, deu um autêntico concerto de puro punk português fazendo lembrar Peste e Sida com a sua última música “Punhetas”, levando o público à loucura com inúmeros crowdsurfs e uma moche sem fim.

Dia 2 – O Bosque tornou-se Selva
O dia 2 começou como acabou o dia anterior, com a temperatura bem alta e a pedir um mergulho. Já com a barriga cheia graças aos dotes de culinária da chef sem estrelas michelin Carolina, o nosso destino só poderia ser um, a piscina.
O festival já consagrado com 3 prémios de micro-festival oferece transporte desde o recinto até à piscina da terra, uma bonita piscina ao ar livre que serve como um parque de diversões aquático para os muitos festivaleiros que fogem até lá. Há espaço para os mergulhos, como se de uma competição se tratasse, espaço para a leitura, para o bronze ou para a música que sai das colunas portáteis dos nossos vizinhos do lado.

Voltamos ao bosque a tempo de vermos pela primeira vez uma banda, que se diga desde já underrated em Portugal, os Prana. Foi assim também que assistimos ao primeiro concerto desta 6ª edição no palco principal com o nome de Antena 3, todo ele rodeado por longas árvores oferecendo um ninho musical às centenas de pessoas que já enchiam o recinto. Com Miguel no baixo e na voz (e sempre descalço) a banda mostrou ‘Ser Nenhum’, álbum lançado este ano. Para todos os fãs de música cantada em português, os Prana claramente fazem lembrar a portugalidade dos Ornatos Violetas com linhas de baixo bem fortes, embora com a guitarra de João soava bastante alta por vezes abafando o vozeirão com que Miguel nos encantava.

A noite caiu e as lâmpadas penduradas nas árvores do recinto, expandindo-se até ao campismo, transformam aquele num dos recintos mais bonitos de todos os festivais por onde já passámos em algo mágico, algo retirado de um conto de fadas. Com caçadores de sonhos pendurados, cadeiras suspensas quase por magia, um Carocha saído de uma banda desenhada, galinhas a deambular como se aquilo fosse tudo delas (e era). Sabíamos que estávamos numa terra encantada.
Por volta das 11h00 da noite voltamos ao palco que àquela hora chamava todas as atenções, o palco principal onde iam tocar os Keep Razor Sharp. A banda é uma das mais experientes que passou pelo festival, e mesmo com um extenso cardápio de festivais por onde passaram, ficaram rendidos à paisagem que tinham do cimo do palco – “A vista é maravilhosa daqui!” -. Apesar da já muita experiencia de músicos como o vocalista Afonso (Sean Riley & The Slowriders), ou do guitarrista Rai (The Poppers), a banda por vezes pecou na pujança e na intensidade com que puxavam pelos Indies. Mesmo assim com malhas como “The Lioness” e “I See Your Face” fizeram soltar rugidos dos presentes levantando algum pó.

Até perto da 1h da manhã vivíamos num bosque, a partir dessa hora vivemos numa SELVA! Os responsáveis por essa mudança? Os Throes + The Shine. O trio de rock-kuduro deram um dos melhores concertos que vimos nesta época festivaleira. A pujança de Mob, vocalista da banda e oriundo de Angola, é a cabeça por de trás de todo o caos que se fez sentir durante mais de uma hora. Conseguem imaginar uma audiência toda em moche, dançar, saltar, crowdsurf? Foi isso que aconteceu em Baltar. Uma autêntica festa com direito a tudo. Falamos do furação Mob a festejar, a cantar mesmo no meio do público, mais crowdsurf por parte do enérgico vocalista ou até mesmo a subida da estrutura metálica do palco! Isto tudo não podia vir em vão e a banda rasgou grandes elogios aos Indies dizendo que eles são “os melhores de sempre”. Não acreditam? Venham a Baltar viver.

Dia 3 – “saudade já bate forte” – Conan Osiris
A nossa manhã começou relativamente cedo, tudo graças à temperatura que se fazia sentir no ar (provavelmente causado pelo trio portuense ainda da noite anterior) e, que se iria comprovar como o dia mais quente.
A tarde começou relativamente mais cedo com um concerto intimista de Luís Severo bem no centro do Bosque onde se localiza o mini-estúdio da Antena 3 e áreas descanso dignas de realeza. O artista de Odivelas sempre com o seu ar descomprometido, óculos semi pousados dando um ar da sua graça, a sua mini guitarra e acompanhado pela sua camisa de flores turquesa entreaberta encantou os mais curiosos.

Algo que torna este festival um mundo à parte e único é a inexistência de fronteiras entre campismo e recinto. Apenas um simpático segurança para manter a ordem. Essa característica tão particular do Indie Music Fest torna o festival numa enorme casa para todos os que decidem mudar para lá durante aqueles 3 dias.
Os concertos do último dia sofreram um atraso de sensivelmente 1h, dando mais tempo aos campistas fazerem as suas refeições mais descansados e terminando o festival a horas bem mais tardias em modo de festa.
Assim já por volta das 21h30 (e não das 20h30), saímos do conforto da nossa “casa ambulante” e fomos ver Luís Severo e a sua banda, onde se encontra por exemplo Manuel Palha dos Capitão Fausto. Com um tom triste, mas agradecido, Severo vira-se ao público revelando “Há uns meses reuni este pessoal e este é o último concerto da digressão, então estou um pouco emocionado”. Passando pelos seus grandes hits como “Planície (Tudo Igual)”, “Escola”, “Meu Amor”, foi bem percetível que Luís Severo era dos nomes mais esperados deste festival. Ouvem-se em uníssono as vozes dos festivaleiros a cantar por vezes a tentar superar o próprio Luís e pessoas mais envergonhadas, mas sem nunca desistirem das palavras. O concerto terminou com o músico a solo e apenas acompanhado pela sua guitarra com a música “Olho de Lince”.

Já se fazia tarde, mas quase nem a meio estávamos para o que ainda vinha, quando Filipe Sambado sobe ao palco. Os seus acompanhantes de luxo eram realmente um luxo. Contavam com Alexandre Rendeiro aka Alek Rein, Manel Lourenço aka Primeira Dama, Adriano Fernandes dos C de Crochê e Luís Barros. Filipe e os seus camaradas tocaram músicas como “Só Beijinhos”, “Dá Jeitinho”, e o seu grande sucesso “Deixem lá” que soltou uma pista de dança a céu aberto. Com Filipe Sambado e Luís Severo no mesmo cartaz seria era inevitável um dueto dado que Luís já fez parte dos seus acompanhantes de luxo. O final do concerto foi marcado pela ousadia de Sambado. A solo e de costas para o público, pôs o rabo de fora e cantou como se nada estivesse a passar (e não estava), provocando gargalhadas e muitos aplausos (e muitas fotos).

O grande momento de rock veio pelas guitarras e bateria dos Omodo. A banda de Lousada veio quebrar a pop, e as borboletas que até lá andavam, e trouxeram os morcegos e um rock sujo/veludo (como lhe chamam). O público, bem atento ao que o quarteto ia fazendo, nunca se manifestou de uma forma mais ousada, muito culpa da calma e serenidade que até lá tinham sentido.
Uma tendência que tem inundado os festivais mais alternativos, é o hip hop, e este ano não foi exceção no Indie Music Fest. No dia anterior tinha atuado o trap de Yuzi, hoje cabia a Mundo Segundo mostrar que a cena hip hop está bem viva em Portugal e recomenda-se, dando um dos concertos que mais gente levou desde que nos lembramos durante estes 3 anos.

Já noite adentro e passando das 3h da manhã, sobe ao Palco Relva um dos grandes nomes do festival, Conan Osiris. A afluência foi enorme e o palco pequeno tornou-se gigante. Não tinha uma banda, não tinha um gajo a fingir que passa música, tinha apenas João Reis Moreira, seu dançarino que o tem acompanhado por esse país fora e a figura incontornável de Tiago Miranda, ou como lhe chamam, Conan Osiris, coberto por um pano negro como se da Virgem Maria se tratasse. O concerto de um dos artistas do momento começou com uma das suas mais cantadas, “Borrego”. O público imediatamente responde com a letra na ponta da língua, e os que não conheciam dançavam às fortes batidas, muita culpa do SHOW que o bailarino mostrava em cima do palco. Passando pelas inevitáveis “Adoro Bolos” e “Celulitite”, e apesar de Tiago não se ouvir por um problema técnico na munição, o concerto continuou e atendeu pedidos, como a última música “Amália”, uma das mais bonitas do artista lisboeta.

Chegámos ao fim, a “saudade já bate forte”, como diz Conan, mas agora só nos resta arrumar as tralhas, desmontar o estaminé e relembrar o Bosque Encantado lendo estas palavras e vendo estas lindas fotos pela lente do meu amigo João Machado.
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Texto: Luís Silva
