Festival Ecos do Lima volta a ecoar pelas margens da bonita vila de Ponte da Barca | Entrevista 

Ecos está de regresso às águas diáfanas do Lima já nos próximos dias 11, 12, 13 e 14 de Julho, com acesso livre a todos: não só destinado aos barquenses como todos que venham de fora serão, com toda a certeza, muito bem recebidos.

O Festival Ecos do Lima vai sublinhar a música de dança e avant-garde, internacional e nacional, trazendo também, à luz da contemporaneidade, a cultura minhota do baile gaiteiro.

A organização está a cargo da Associação Juvenil do Lima. O evento oferece, até domingo, muita música, literatura, cinema e artes visuais, num palco natural que une a paisagem e a comunidade.

Contará com exposições e instalações, arquitetadas por amigos do evento, e ainda com workshops infantojuvenis para as pequenas mentes de hoje, que serão os cidadãos de amanhã.

Por isso, o Festival Ecos do Lima destina-se a ser um espaço de intervenção cultural em Ponte da Barca.

Cartaz:

 

Numa manhã quente, apenas a uns dias do festival acontecer na pacata e bonita vila de Ponte da Barca, estive à conversa com a Inês, o Diogo, o Nelson, o Kevin e o André, organizadores do festival Ecos Do Lima, para uma conversa sobre a simbiose entre o Ecos do Lima e as tradições enraizadas da vila minhota, sobre o cartaz de luxo que o grupo de amigos conseguiu montar, e sobre o passado e futuro de um dos festival mais bonitos de Portugal.

~ Entrevista à organização do Ecos do Lima

headLiner (Luís): O Ecos do Lima realiza-se desde 2015, há praticamente 9 anos. Os jovens de 2015 que começaram esta aventura, sonhavam que em 2024 ainda estariam a organizar este festival? 

Inês:  É engraçado porque o Diogo e o Nelson estão no festival desde a sua génese, ou seja, foi muito pela vontade deles.

Diogo: A primeira edição foi uma edição experimental para aproveitarmos o potencial que tem o Choupal, e como na altura eu e mais uns amigos que também estavam na organização tínhamos uma banda e conhecíamos algumas bandas, achamos que poderíamos potenciar o espaço através desse conhecimento para fazer um cartaz low cost e ver como corria.

Não correu mal, também não correu assim muito bem (risos), e decidimos continuar nos anos seguintes. Mudamos uma coisa ou outra, a melhorar um bocadinho aqui e ali, mediante o que conseguíamos e o que podíamos. Entretanto a Inês, o Kevin e o André juntaram-se, e muitas outras pessoas que nos acompanharam desde o início, e que, entretanto, foram às suas vidas. O festival está sempre a renovar-se.

Nelson: Eu ia complementar um bocadinho… acho que claro se está a renovar, claro, mas os ideais inicias, que eram a paisagem, a própria comunidade, a música, os amigos, isso manteve-se. Claro que se foi renovando, as próprias pessoas que nos ajudaram no início, agora tem trabalho, acaba por ser mais complicado, mas de certa forma tentam sempre ajudar e trazer mais gente, o que acaba por fazer o festival autossustentável na própria comunidade. Ou seja, apesar da renovação, houve certos valores que se mantiveram.

headLiner (Luís): Que dificuldades sentiram ao organizar um festival de música alternativa, como o Ecos do Lima, numa região tão rica em tradições e profundamente ligada às suas raízes culturais? 

Nelson: Acho que dificuldades há sempre. Quando tivemos a ideia de criar o festival, não pensamos nessas dificuldades, houve essa inocência de certa forma. Se pensássemos nas dificuldades, não saiamos da cepa torta (risos). Nós pensamos um bocadinho ao contrário, queremos fazer, e depois à medida que vamos fazendo vamo-nos adaptando, vamos virando as esquinas. Não há esse pensamento da dificuldade, não há esse “pequenismo” de Ponte da Barca, é exatamente o aposto. A Barca tem muitas coisas para dar, vamos aproveitando isso da melhor forma e não pensar que somos pequenos e que não vai dar para fazer.

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headLiner (Luís): “intervir culturalmente em Ponte da Barca, em diálogo com o território e a comunidade”. Como tem sido a receção da comunidade local ao festival ao longo dos anos? 

Inês: Bem, isso foi um processo longo. Sempre houve uma intervenção da comunidade, mas foi crescendo muito ao longo dos anos. Como disseste, e bem, Ponte da Barca ainda está muito fechado em si próprio, nas suas próprias tradições, e quando vem alguma coisa nova, alguma coisa mais alternativa, as pessoas estranham. Tanto é, que numa fase mais primitiva do festival o público era praticamente de fora, mas agora acaba por ser exatamente o contrário e até temos um público muito vasto de faixas etárias. Por muito que não seja o estilo de música dessas faixas etárias, tentam perceber e até gostar de muitas das bandas que passaram por aqui, até se calhar são bandas que agora elas ouvem. Por isso sim, cada vez é mais incisiva essa participação.

headLiner (Luís): O Ecos do Lima vai para além da música, trazendo outras valências. Como têm envolvido a comunidade no festival? 

Nelson: As associações têm um papel preponderante. Quando fazemos o planeamento do festival reunimo-nos com as pessoas daqui, tentar aproveitar o que já existe e integrar no cartaz.

Por exemplo, este ano temos um ponto muito forte, os Gaiteiros de Bravães. O Zé Rafa tem uma preponderância muito grande em termos culturais aqui na Barca, tanto com as crianças como com as pessoas mais idosas, é sempre muito dinâmico, e desde início nos quis ajudar e entrar dentro do projeto. Temos também uma parceria com o Lindoso Connection…

Inês: É o que o Nelson estava a dizer, as associações têm um papel fundamental. Se há associações do foro cultural nós tentamos com que elas integrem a programação. Alias, não é só integrar a programação, nós pensamos em conjunto o festival. Eu acho que está aí a chave da comunidade, não é simplesmente arranjar um slot no cartaz, é pensar em conjunto com as associações.

Também a título individual, temos muita programação, talvez não este ano, até porque o festival de ano a ano vai mudando, que surge de sonhos e projetos individuais. Por exemplo, na edição passada com a Inês Portocarrero os encontros de poesia. Ela está muito associada à biblioteca. Costuma fazer essas sessões de poesia, e acabamos por falar com ela e transpusemos para o festival. O cinema também na última edição, foi até o máximo exemplo do tal sonho individual. A Susana Varela que é uma cinéfila, não tem qualquer projeto oficial de cinema, simplesmente vê filme e tem uma cultura muito vasta nisso, e numa conversa com ela criamos um momento, uma programação dedicada ao cinema.

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Nelson: Depois há outra parte da comunidade que já deves ter sentido um bocado, que é a parte da construção do próprio festival. Desde distribuir flyers até à conversa no café com os amigos a falar do que vamos fazer, deve ser das partes mais belas do festival, é o fazer acontecer, a união. Depois de todo aquele esforço, no final estarmos com os nossos amigos e estarmos a ver: “olha, fizemos isto”, e ver a dinâmica que a Barca ganha é dos sentimentos mais belos. Essa questão da comunidade também é isso, fazer algo em conjunto e cada pessoa sentir que faz parte do festival.

Inês: Até tenho mais exemplos da programação deste ano.  As próprias instalações que estão no Choupal, que são de amigas do Ecos do Lima que já vem há muitas edições, e que manifestaram esse interesse de montar uma exposição e uma instalação artística. Elas também vão estar associadas a um workshop numa oficina juvenil, que vai acontecer na sexta-feira. Elas próprias manifestaram essa vontade de participar, apresentaram-nos um projeto, fomos trabalhando sobre isso e vai se concretizar.

headLiner (Luís): Falando de música, o Ecos do Lima nunca tinha trazido tantas bandas internacionais. Foi uma aposta do festival este ano? É um objetivo dar mais visibilidade para além de fronteiras, nomeadamente para o país vizinho através de bandas como os ZA! e os Dame Area? 

Kevin: Não lhe chamaria um objetivo, mas simplesmente algo que aconteceu naturalmente. Se pensarmos que o festival já tem quase 10 anos, só houve até hoje um artista que não era português, portanto já tivemos imensas edições onde demos palco a muita coisa boa que se faz cá.

Também tem de se perceber que na zona norte e agora no verão, há imensos festivais desta dimensão que trazem bandas principalmente portuguesas, portanto se continuássemos nesse registo talvez iríamos começar a repetir o que já fizemos ou repetir cartazes. Foi necessário evoluir dessa maneira e de certa fora é uma maneira de atrair outras pessoas, até porque o que acontece muito em Portugal, “o que vem de fora é melhor”, esse é o pensamento de muita gente. Na verdade, nós achamos sempre tudo muito bom aquilo que trazemos cá. Isto pode ser uma forma de quem não conhece o festival, começar a conhecer.

Diogo: Nós andamos a pesquisar o mercado em Portugal, e o contexto de “banda” está cada vez mais raro de se apanhar. Há menos bandas emergentes, há cada vez mais individuais com os seus projetos. Essa falta de bandas fazer-nos-ia repetir cartazes e nós também queríamos trazer algo novo, virar o disco de certa forma. As bandas portuguesas que trouxemos todas elas têm muita qualidade. Sempre apostamos em dar palco a bandas emergentes, mas ultimamente nós temos tido muita dificuldade em escolher as bandas, precisamente por isso.

Kevin: A parte engraçada é que realmente tivemos essa barreira, mas o resultado é provavelmente o cartaz que mais nos orgulhamos até agora. Podemos dizer que até correu bem nesse sentido.

Nelson: Era aquilo que estava a dizer ao bocado, nós não pensamos logo no final, nós vamos sentido… olha, isto faz sentido, vamos falando, vamo-nos adaptando. Não houve este pensamento de “vamos buscar bandas internacionais”, foi mais “gostamos, isto bate certo”. Também temos orçamento, é exequível, e é assim que se vai formando o cartaz.

Inês: E de repente começasse a gerar um conceito, vem uma banda, aparece outra, se calhar faz sentido virar isto para algo mais internacional.

Nelson: Acho que nunca houve o pensamento para internacional, houve sim o pensamento para o estilo musical. O line-up começou a formar-se, fez sentido encaixar mais outra banda, e aconteceu de serem internacionais, porque como o Diogo estava a dizer, tivemos dificuldades em encontrar bandas que fizessem sentido e não fossem repetidas.

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headLiner (Luís): Por falar em bandas internacionais, tenho de salientar também a estreia em Portugal de bandas como os Chalk, banda que já abriu para Idles ou os Smudged. Como é que estes dois nomes surgiram no vosso radar?  

Kevin: Posso contar, pelo menos de Smudged que foi a primeira banda que contratamos e foi um bocado aleatório. Eles são holandeses, e existe uma banda que se chama Iguana Death Cult, em edições passadas já tínhamos trocados uns emails mas tinha ficado só por aí. Naquela de começar a pesquisar e tentar perceber o que anda por aí, que discos novos andam a sair, o que é europeu que acaba por ser mais fácil de os trazer para cá… Andávamos a pesquisar, e reparei que tinha saído um KEXP recentemente dos tais Iguana Death Cult. Estava a ver e tal, e dois entrevistadores do KEXP perguntaram “Que bandas do vosso meio, da vossa cultura, da vossa cidade, que andam a crescer, e que vocês querem dar aqui um shout out?”, e eles respondem “os Smudged, uma banda de amigos nossos, estão agora a crescer, são incríveis, uma cena meio indie com krautrock e eles vão dar o salto”. Eu fui logo ouvir, toda a gente gostou, mandamos logo email e alinharam.

Inês: Também porque são conhecidos por darem um grande show ao vivo, é uma banda de palco.

Kevin: Um dos gajos [dos Iguana Death Cult] disse especificamente “eles são ainda mais incríveis ao vivo”, e nós achamos logo que vai ser algo que vai funcionar connosco.

Inês: Quando pensamos no line-up, pensamos em criar um cartaz coeso, bandas boas e claro muito reféns do nosso gosto. É esse o nosso objetivo, trazer um cartaz criativo e bandas que resultem em palco, eu acho que é isso um festival. Nós gostamos muito de ir a festivais, e muitas vezes vemos bandas que ao vivo não resultem tão bem, o próprio alinhamento não está bem construído. Construir o alinhamento também tem muito que se lhe diga, queríamos trazer bandas que gostamos muito, mas que não fazia sentido.

Kevin: Nós íamos meter Chalk e Máquina a tocar no mesmo dia, e depois pensamos, “eh pá, isto não faz sentido”, é tudo muito parecido. Por isso distribuímos pelos dois dias.

Inês: O mais importante é que uma banda vale pelo show ao vivo, eu acho que isso também é algo do festival, e acho que isso conseguimos sempre concretizar.

Nelson: Nós estamos a falar só do palco principal, mas há um pensamento em relação a todos os palcos, ou seja, tem de fazer sentido o artista no palco em que é.

Vamos ter Chibatada numa zona ribeirinha, que faz sentido, temos Chris Imler num ambiente de pista, after-party. Temos os Gaiteiros no Largo do Urca, uma festa tradicional que já costuma haver na própria vila. Nós tentamos pensar no artista e o sentido do seu contexto. Tentamos dar pensamento a tudo que fazemos de forma a ficar o mais coeso possível.

headLiner (Luís): Comecei esta conversa a perguntar se em 2015 tinham sonhado que o Ecos do Lima chegaria a 2024. Agora pergunto qual a perspetiva para os próximos anos e onde gostariam de ver o festival no futuro.  

Kevin: Nós queremos ser o próximo Rock in Rio, com uma barraca da Mercedes, outra do Millennium BCP, balões, insufláveis (risos)

Diogo: Uma coisa que é certa, e falo por todos, queremos é que o festival continue. Em que moldes? Nós temos sempre discutido isso de ano para ano… Mas é difícil de responder.

Inês: Isso é uma questão engraçada porque não sabemos responder. O Ecos do Lima está mesmo muito presente nas nossas vidas individuais. Nós temos uma química muito grande entre nós, somos muito amigos, falamos quase todos os dias e acho que isso também ergue o festival todos os anos.

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Isto não é um “business” em que fazemos só uma reunião, não, nós estamos sempre a trocar ideias. Isto parte muito da forma como vamos vivendo os nossos dias, as nossas ideias vão mudando, e não faço mesmo ideia de como será a próxima edição. Muita gente me pergunta, “mas vai continuar a ser gratuito, vai continuar a ser a pagar?” eu não faço a mínima ideia. O Ecos já foi gratuito, já foi a pagar, já teve bandas nacionais, já teve bandas internacionais, ou seja, ele vai mudando a sua forma, mas nunca muda o seu significado. E qual é o significado do Ecos? É a intervenção cultural em Ponte da Barca, a paisagem, a comunidade e isso mantém-se. Tudo o resto não sabemos. A próxima edição será daqui a dois anos, eu não sei como pensarei daqui a dois anos.

Isso é uma pergunta muito interessante… eu não consigo prever a próxima edição. É muito aliciante para nós saber a próxima edição, mas é impossível prever porque nunca será igual a este, e isso depois também não nos motivaria.

Nelson: E há uma coisa, nós estamos a meter o foco em nós, nos organizadores, mas o festival vive muito do contexto, das pessoas. Eu mesmo que não quisesse organizar mais o festival, são as próprias pessoas que começam a dinamizar, a sentir e a puxar por nós. Elas são uma parte integrante. Nós não conseguimos responder como será o festival porque as pessoas daqui são uma parte integrante. Nós somos quase como um espelho. Nós tentamos vocacionar o que as pessoas idealizam, o que é que a Barca é.

Falar daqui a 10 anos, ou daqui a 2 edições, é muito difícil porque primeiro temos de sentir o que o Ecos vai significar para as pessoas. No final desta edição será que a vila vai estar connosco? Porque não fará sentido batalhar para um sentido que, na verdade não faz sentido. No fundo a cultura é um espelho, uma reposta, do sítio onde está inserido.

Inês: Mas respondendo mais objetivamente, se imaginávamos que o festival iria atingir esta dimensão? Muito sinceramente, não, não imaginei quando comecei a participar no Ecos do Lima em 2016, em 2018 mais dentro da organização, nunca imaginei. Era mais uma coisa de férias de Verão, e de repente faz parte da minha vida e de todos nós.

Horários:

Mais informações sobre o Festival Ecos do Lima nas redes socais do evento em @festivalecosdolima

  • Entrevista realizada por Luís Silva a 7 de julho de 2024
Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.