‘New Normal’: a pluralidade musical – dia 3, NOS Primavera Sound 2019


Festival amigo das famílias [Mais fotos do concerto aqui]

Chegamos ao último dia do festival, dia em que a pluralidade de todos os seus
intervenientes era gigante, desde o indie feminino de Lucy Dacus, Big Thief, Snail Mail,
ao noise/punk de Viagra Boys e de Amyl And The Sniffers, ou viajando até ao país vizinho pela nova sensação pop flamengo da Rosalía, navegando ao outro lado do oceano pela voz da colombiana Erykah Badu ou do brasileiro Jorge Ben Jor ou até mesmo pela dance club de Nina Kraviz e dos Modeselektor.

Foi uma odisseia musical intensa, este último longo dia do Primavera Sound, e talvez o melhor reflexo que poderíamos ter desta nova imagem que o festival quer transmitir com o seu novo slogan: ‘New Normal’.

Chegar cedo ao festival pode ser fantástico. Não tínhamos visto os Shellac no dia anterior, pelo que o seu concerto surpresa ali bem ao lado da zona de restauração tornou-se num miminho para todos nós que madrugamos na chegada ao recinto. Durante cerca de 45 minutos, não se negaram pedidos e tocaram-se canções do seu repertório. Foi um incrível início de sábado. 

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Shellac em concerto surpresa [Mais fotos do concerto aqui]

E o “Oscar” vai para… Amyl And The Sniffers

Cada vez sou mais fã da música noise, da cena punk,~pós-punk, do fuzz,
por isso a banda australiana entrou diretamente para as minhas escolhas para
este último dia. Uma banda que já andou em tour e a abrir os concertos para
os King Gizzard? Tinha tudo para dar bem.

A escolha foi difícil entre os suecos Viagra Boys e Amyl And The Sniffers, mas por toda a envolvência do concerto da banda australiana, a escolha foi feita.

A banda começou bem ao lado da danceteria que Jorge Ben Jor trouxe ao parque da cidade, ainda num começo morno trazido pela luz que se ia desvanecendo por detrás das árvores que delimitavam o recinto, e pelas poucas
pessoas que estavam a assistir na linha da frente ao concerto da Amyl And The Sniffers.

A hiperativa Amy Taylor, a jovem (23 anos) desbocada que não tem medo de dizer o que quer que seja, abanou com o palco Super Bock, levando aquele pequeno anfiteatro natural para a cena punk do final dos anos 70. Estão a imaginar aquele corte mullet dos anos
80 que já ninguém usa? Bem, os elementos da banda australiana trouxeram de volta essa moda e todo o seu outfit de um tempo já longínquo.

Pouco faltou para o pó levantar, as vozes começarem a ecoar e o mosh pit rebentar. Com o sol cada vez mais para lá do que para cá, o ambiente começou a aquecer. A constante irreverência da vocalista durante o concerto, facilmente acabou por fazer explodir um vulcão que se encontrava adormecido há pouco tempo – o público, que por esta altura já enchia por completo o pequeno anfiteatro.

Amyl And The Sniffers vieram agitar as águas bem calmas que se têm visto este ano dizendo: Punk’s Not Dead.

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Amyl And The Sniffers em palco [Mais fotos do concerto aqui]

‘Surprise Motherfucker’!!! Yves Tumor

Com o final do dia e do festival a aproximarem-se, a escolha entre Erykah Badu e Yves Tumor teve de ser feita. Devido a um atraso considerável no concerto da artista
colombiana, a escolha ficou fácil, e ainda bem que assim foi.

Não conhecia muito o trabalho do artista norte-americano, mas, pela irreverência que
fomos tirando do que dele ouvíamos, sabíamos que íamos ter show. Aliás, show não
é a palavra correta, mas sim FREAKSHOW!!!

Chegámos ao palco Pull & Bear (claramente o palco que mais cartas deu neste
festival), não com muita gente, talvez pela hora tardia, talvez pela enchente no
palco principal, mas isso pouco importou para o que vimos.

Só uma palavra para Sean Bowie aka Yves Tumor: selvagem! Veio apresentar ‘Safe in The Hands Of Love’, álbum editado no ano passado, em que toca músicas imprescindíveis como ‘Licking An Orchid’, ‘Lifetime’ ou ‘Noid’. Esta última veio soltar a primeira e única moche de um concerto que foi consumido pelo seu glam e luxo. Uma “diva” de mil e um pseudónimos, que mesmo
surfando pelo público adentro não deixou de o ser.

Muitos concertos já vimos por esse território fora, mas nenhum como este. Já tinham visto algum concerto onde os seguranças raramente olhavam para o público, mas, em vez disso, para o artista a atuar? Uma exigência dele, quem sabe, mas a verdade é que por onde Yves Tumor ia, os seguranças faziam sprints para acompanhar aquele monstro de palco, algo insólito e só visto no concerto do artista americano.

Muitas vezes, sem percebermos se o artista estaria a fazer playback, quer pela quantidade de vozes infinitas sobrepostas, quer pelo facto de nunca ter perdido o fôlego sobre o  seus longos saltos altos (mesmo após kms percorridos no palco), a verdade é que isso pouco importou. Viver, assistir e presenciar um concerto de tal animal de palco, valeu praticamente o bilhete de todo aquele festival.

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’Dance marks the Spot’: Jorge Ben Jor

Não~sei quem faz os horários do festival NOS Primavera Sound, mas para essa pessoa um beijinho, por ter posto Jorge Ben Jor sob o pôr-de-sol mais bonito de todos.

Foi assim, numa tarde solarenga, em que o verde das árvores e da manta natural que se estendia sob os nossos pés se fundia com o céu azul do Porto, que o calor e o samba do Brasil chegaram a Portugal.

Se calhar até muita gente desconhecia o nome de Jorge Ben Jor, mas quando este começou a tocar, “Mas, Que Nada!”, o seu maior clássico, não houve ninguém que não batesse um pé, esboçasse um sorriso ou uma voz a acompanhar um dos grandes embaixadores dos sons mais tropicais.

Toda a banda de Jorge Duílio Lima Menezes transmitia a boa onda e a alegria da cena brasileira, através dos seus sorrisos rasgados e dos passos de dança que os milhares de pessoas reproduziam, transformando o palco NOS numa danceteria.

Não importa a idade que o artista brasileiro tem (74 anos!!) mas a verdade é que ele está aí e consegue pôr um festival inteiro a dançar como aconteceu em “Take It Easy My Brother
Charles”
, “Mais Que Nada” ou “Bebete Vãobora”. Uma força da natureza trazida para o anfiteatro que fez toda a gente sambar com o “nosso irmão de cor”.

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E o derrotado do dia é…

Este dia claramente não teve um derrotado, aliás, ter teve, mas desta vez não foi um artista ou uma música.

Quando estás perante tantas e tão boas escolhas, num leque que dá a volta ao mundo
musical vezes sem conta, e te deparas com este rótulo de “derrotado” que decidimos atribuir, a escolha não é nada fácil. Por isso, o título teve de recair sobre as condições que este ano o festival ofereceu ao seu mais recente e ampliado palco Bits.

Após ter vivido intensamente o palco Bits nos dois dias anteriores, apenas saindo já com o sol a raiar, este palco veio a mostrar as suas fraquezas no último dia.

Um dos grandes momentos deste festival, e deste último dia, que levou centenas de pessoas a ficar até mais tarde no recinto, mesmo depois de todos os concertos já terem
terminado nos restantes palcos, foi Nina Kraviz.

A artista russa deparou-se com uma enchente brutal que não se tinha visto nem de perto nos dias anteriores e o tráfego num palco fechado tornou-se tão difícil quanto respirar lá dentro. Não fosse este o único problema, também a qualidade do som que se fez sentir por quem se encontrava à frente das colunas que tentavam formar uma arena 360º
stereo.

Apesar disso, quando a música sai a vencer no seu todo, todos ficamos a ganhar, e o ’New Normal’ ficou a ganhar neste dia, em que a pluralidade musical foi a grande vencedora.

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O Terno

O trio brasileiro O Terno, composto por Tim Bernardes, Guilherme D’Almeida e Gabriel Basile, apresentou-se no Palco Seat. Antes da sua presença em palco já Tim se passeava pelo NOS Primavera Sound, no dia anterior, aproveitando também ele para ver algumas das performances. Aquele som, com a típica pegada brasileira, foi a opção perfeita para nos imbuirmos ainda mais no espírito festivaleiro. Os raios de sol, ao som do belíssimo tema “Pegando Leve” (logo a segunda a ser tocada), proporcionaram momentos perfeitos de pura intimidade quer com a banda, quer com o festival e o ambiente circundante.

Enquanto alguns elementos do HeadLiner optaram por Viagra Boys, outros fizeram o caminho até ao Palco NOS para Hop Along. Quem fez esta opção decididamente não se
terá arrependido, mesmo que ao fundo se fizessem ouvir os Viagra Boys, que tocavam no palco ao lado da entrada. Aquele timbre rouco de Frances Quinlan não deixa ninguém indiferente, é mesmo uma daquelas vozes bem sensuais e irresistíveis. “Well Dressed” e “How Simple” não faltaram à chamada e foram cantaroladas pelos fãs lá bem na frente.

Lucy Dacus

Com um cartaz de sábado devidamente recheado de grandes vozes femininas, tínhamos em Lucy Dacus uma curiosidade acrescida. O seu concerto decorreu no Palco Super Bock, perante bastante gente. Do cimo da encosta, a vista até
ao palco estava repleta de gente sentada, a piscar um olho ao palco. O concerto
não desiludiu, e ficamos com vontade de a rever num futuro próximo.

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Lucy Dacus em palco [Mais fotos do concerto aqui]

Big Thief

Não contávamos com aquela mini multidão para Big Thief, cujo concerto arrancou às 19:15h, ainda relativamente cedo. Não teve em nós o impacto avassalador da performance do ano passado no Festival Vodafone Paredes de Coura, porém, foi também bastante emocionante. Desta vez, Buck Meek veio com a banda, pelo que surgiu um motivo extra de interesse. Esta, que foi a última data da sua digressão europeia, deu para tudo. Buck Meek rebentou as cordas da sua guitarra tendo inclusive saído de palco. No último tema interpretado, “Masterpiece”, chamaram todos os seus roadies ao palco para celebrarem a ocasião. Sem dúvida um momento muito bonito. “Paul” e Mythological Beauty” foram outras das canções essenciais na sua performance.

Snail Mail

A estreia de Lindsey Jordan em Portugal deu-se nesta edição do NOS
Primavera Sound
. O seu grande êxito como Snail Mail foi logo tocado de início, falamos de “Heat Wave”. Não teve uma prestação vocal assim tão
agradável, certo é que a sua voz foi melhorando com o passar das canções. No Palco Pull & Bear, deparámo-nos com muita gente nova a seguir o seu concerto, algo natural pois a própria artista norte-americana é também muito nova. Nota de registo para a sua banda cuja performance teve devidamente à altura.

Todas as fotos do terceiro dia: clicar aqui

Além de fotos do ambiente deste terceiro dia inclui fotos dos concertos de:
– Shellac
– O Terno
– Lena D’Água e Primeira Dama
– Hop Along
– Viagra Boys
– Lucy Dacus
– Big Thief
– Snail Mail
– Jorge Ben Jor
– Amyl & The Sniffers
– Rosalía
– LOW
– Erykah Badu

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Texto: Luís Silva e Edgar Silva

Fotografia: João Machado

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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