Furacão Jarvis fez frente à depressão “Miguel” – dia 1, NOS Primavera Sound 2019

Jarvis Cocker apresentando Jarv Is [Mais fotos do concerto aqui]

Sempre fomos fãs incondicionais dos cartazes que o (NOS) Primavera Sound tem conseguido montar ao longo destes anos, cartazes que nem sempre apenas trouxeram a cena Alternativa ou o Rock à tona. Em 2014 estreei-me no parque da cidade, e já nessa altura se viam cartazes diferentes dos anos anteriores com nomes como o hip-hop de Kendrick Lamar (um então desconhecido para muita gente) às subtis guitarras e samba na voz de Caetano Veloso e de Rodrigo Amarante ou à soul inconfundível de um então não muito conhecido Charles Bradley. Era um cartaz eclético… diferente, com personalidade e que navegava por vários estilos musicais. Era do caraças!!

Passados 5 anos, a marca Primavera Sound trouxe o lema ‘New Normal’. Só eles provavelmente saberão o que isso quererá dizer, mas a verdade é que não caiu em boas graças. Os cartazes iam cada vez mais entrando na cena do R&B, hip-hop, mas as várias variantes do rock sempre foram o grande HeadLiner. Este ano a conversa foi outra.

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Ambiente junto ao palco Super Bock [Mais fotos do concerto aqui]

– Quinta-feira, dia 6 de junho –

O recinto da versão portuguesa do Primavera Sound tem sofrido pequenas alterações ao longo dos anos, e a adição do palco Seat tem trazido alguma controvérsia. Isto porque a marca de automóveis espanhola trouxe com ela o slogan ‘Created In Barcelona’, como se já não soubéssemos… Um statement desnecessário e que apenas serve para subir o ego da cidade vizinha.

Mas foi precisamente desse palco (que por vezes poderá ter sido confundido com o palco principal pelas bandas que o pisaram) que saíram as melhores atuações do 1º dia.

O dia foi chuvoso, muito, e o impermeável amarelo acabou por se tornar inútil nas horas mais tardias mas, nada nos iria demover dos longos tapetes verdejantes e do alcatrão que se estendia ao longo daquele palco.

E o ‘Oscar’ vai para… Jarvis Cocker Introducing Jarv Is…

Foi de rajada que entramos no recinto, já um pouco tarde, para virar imediatamente à esquerda em direção ao carismático Jarvis Cocker.

O frontmen dos super Pulp, banda grande da cena do Britpop, foi um furacão que fez frente à depressão “Miguel” que ameaçava a noite do primeiro dia. Pela sua voz inconfundível e a imagem que tem mantido imaculada ao longo dos anos através dos seus expressivos óculos e cabelos longos, quem olhava para o palco meio distraído poderia por momentos ver/ouvir o icónico Nick Cave. Sempre imparável em palco apesar dos seus 55 anos, contagiava quem lhe seguia com o olhar e com o coração.

O artista que em 2017 formou a banda pelo nome “Jarv Is”, lançou este ano o seu single de estreia “Must I Evolve?”, mas foi com “His ‘N’ Hers” que viajou no tempo para os anos de ouro dos seus ex. Pulp.

De entre chocolates e chuva, Jarvis fez ainda uma dura crítica aos hooligans que no próprio dia tinham causado distúrbios na Avenida dos Aliados: “They are a bunch of a fucking cunts”, sendo o mote perfeito para a sua “Cunts Are Still Running the World”.

Um concertão cheio de carisma e emoção na teatralidade e nas palavras. Muito se suspeitava do sucesso a nível musical deste Primavera, mas Jarvis Cocker veio desmentir essa ideia.

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Jarvis Cocker a dar show no Palco NOS [Mais fotos do concerto aqui]

‘Surprise Motherfucker’!!! Tommy Cash 

Este é daqueles nomes que se não fossem por um festival, não pagaria para ver, nunca.

Um rapper vindo diretamente da Estónia? de nada conseguiamos prever o que estava prestes a acontecer… electrizante e controversa foi a atuação do artista.

Tommy Cash (TOMM¥ €A$H) de 27 anos começou a ser falado por esse mundo fora após uma colaboração com os Modeselektor para “Who”. A sua aparência inocente, de um miúdo mais novo do que aparenta e com o seu bigode que mais parece de um rapaz na puberdade, pode ser facilmente mudado para a criatura mais bizarra e inesperada que poderão ver.

Em palco, com uma t-shirt completamente rasgada nas costas, com o microfone na mão e a fazer maratonas em cima do palco Super Bock . De fundo?… querem mesmo saber? Porno. A pornografia mais bizarra que poderiam ver naquele dia, Tommy Cash tinha. Sem pudor nem preconceitos, o artista arrojado nas imagens pregou muitos queixos caídos mas também muitas ancas a dançar.

Músicas como “Little Molly”, “Pussy Money Weed” ou “X-RAY”, onde aquele sotaque russo bem característico foi bem audível, levaram ao êxtase as pessoas que enchiam o pequeno anfiteatro.

Tommy Cash é irreverente, é provocante, é psy trance, é rap, é pornografia. Surpreendeu todos que o puderam provar.

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Tommy Cash em palco [Mais fotos do concerto aqui]

’Dance marks the Spot’: Stereolab 

Sabes que é bom quando danças mesmo sem perceber parte da letra que ouves. Stereolab é muita coisa. É pop, é jazzy, é rock.

A banda franco-britânica liderada pela francesa Lætitia Sadier, encheu o palco Seat e um pouco das bancadas laterais. Seria impossível encher todo aquele recinto, pois este dia 6 foi provavelmente dos dias que menos gente levou dos últimos anos.

Sem editar nada desde 2010 com o álbum ‘Not Music’, a banda veio apresentar muitos dos seus clássicos. É subtil e apaixonante a sua música. Faz querer abraçar a pessoa mais próxima e dançar noite dentro como é o caso de “Brankhage”, ou dançar ao ritmo da pandeireta e da voz delicada de “Metronomic Underground” ou tirar o pé do chão e saltar com o francês de “French Discko”.

OK que não é um dançar arrojado com aquele beat sem fim à vista e em loop, mas é aquele dançar de gerações, dançar de forma livre e apaixonada pela língua do amor. Foi Stereolab.

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Lætitia Sadier com os Stereolab [Mais fotos do concerto aqui]

E o derrotado do dia é… Solange

Não estou aqui para agradar às massas mas sim apenas para dar o meu testemunho e cunho pessoal. O nome grande do dia e um dos nomes mais sonantes do cartaz era, sem dúvida, Solange.

A verdade é que a artista, que muito recentemente lançou o seu ‘When I Get Home’, nem se encontrava na nossa lista de concertos para esta noite. Preconceitos da cena pop de que fomos alimentados? Talvez, mas a verdade é que no final do dia fomos lá parar.

A curiosidade e o interesse acabaram por se instalar para ver a diva, e, antes do concerto começar, reservámos os nossos metros quadrados à frente do palco NOS, na maior enchente do dia. A primeira impressão que tivemos pela montagem cénica que se formou em cima do maior palco subiu-nos a espectativas. Muitos instrumentos, a bateria por debaixo de uma plataforma minimalista mas majestosa. Tudo para dar bem, portanto.

Por volta da meia noite e meia entra a grande armada de Solange Knowles composta por 7 músicos e 6 bailarinos, que foram subindo o palco e, aí, o êxtase se instalou. Tudo muito bonito, tudo muito harmonioso, tudo muito rigoroso. Cada movimento parecia ter saído de um laboratório, e talvez isso possa ter sido a ‘morte do artista’.

O concerto tornou-se algo repetitivo, sem nuances, demasiado monótono. Nem mesmo o vozeirão de Solange dava para fazer acordar, naquela noite fria. A soul e R&B de Solange não eram definitivamente para aquelas horas, e definitivamente não para um palco tão grande. A verdade é que a única coisa que conseguia puxar por maiores aplausos foram os bailaricos da artista e o twerk sem medo de uma das bailarinas. Um pouco descontextualizado com toda a sonoridade envolvente, sim, mas talvez sem isso, o público se tivesse mantido em silêncio praticamente todo o concerto.

Tentar fazer da simplicidade e do íntimo um “santuário” (como a própria lhe chamou) à 1h da manhã daquela quinta-feira fria e chuvosa, não deu o brilho que a diva precisava.

Todas as fotos do primeiro dia: clicar aqui

Além de fotos do ambiente deste primeiro dia inclui fotos dos concertos de:
– Dino D’ Santiago
– Men I Trust
– Mai Kino
– Built To Spill
– Jarvis Cocker
– Stereolab
– Tommy Cash

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Texto:
Luís Silva

Fotografia:
João Machado

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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