Capicua, o grande destaque deste 1º dia | mais fotos clicar aqui
Tal como é tradição, desde 2018, a minha vivência do Westway LAB inicia-se com a presença no Café Concerto do CCVF para as atuações que resultam de criações originais dos artistas selecionados numa residência artística de uma semana. Como de costume realizaram-se na quarta-feira (10 de abril) e quinta-feira (11 de abril) e contou com a usual combinação de artistas lusitanos com músicos vindos de outras partes do mundo. Este ano vieram artistas com backgrounds bem diversificados: o duo Debdepan (do Reino Unido), SMYAH (Bulgária), Haizea Huegun (do País Basco, Espanha) e Zoe Berman (EUA). Do lado português participaram Phaser, Metamito, Vile Karimi e Mafalda Costa. Proporcionaram, nas suas atuações, produções acabadas de serem criadas e tocaram-nas ao vivo pela primeira vez. São momentos sempre giros, sobretudo pela descoberta de artistas completamente desconhecidos: quer de nacionais quer dos forasteiros.
Sexta – Noite 1 do Festival
Tal como gosto de fazer, quando é o início de um evento, foi altura para observar o recinto, a organização e as pessoas. Perceber diferenças para o ano transato. Faltavam ainda cerca de 30 minutos para o concerto de abertura, marcado para as 21:30 horas por isso deu tempo para isso e para rever amigos. Ao contrário do ano passado o ambiente estava bastante tranquilo e a bilheteira não estava com lotação esgotada. Não existiram stresses nem avarias para realizar a troca do bilhete por pulseira. No restante, relativamente aos palcos e respetivos acessos, foi tudo idêntico à edição de 2023.
A noite esteve bastante agradável, na sequência de um belíssimo dia de clima veraneante, com temperaturas acima dos 20 graus e céu azul.
A primeira atuação nesta noite inicial, da porção paga do Westway LAB, teve como interveniente o artista Luís Severo. Ele que revelou ser “bom tocar nesta sala icónica”, situando-se pelas referências de amigos que viram no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor alguns concertos de artistas relevantes.

A autenticidade de Luís Severo em mais uma bonita atuação | mais fotos clicar aqui
Luís Severo entrou e dirigiu-se ao piano começando a performance com “Vida de Escorpião” numa altura em que iam entrando pessoas a conta-gotas e cujo afluxo continuou durante os 20 minutos seguintes. Antes de “Meu Amor”, o segundo tema, teve de retirar os seus in ear por estar a ter feedback com “muita chuva”. No seu timbre castiço e natural disse que “ter chuva não fazia muito sentido” depois da belíssima sexta-feira com que fomos presenteados.
Ao terceiro tema o lisboeta regressou ao álbum ‘Cara d’Anjo’ de 2015 com a interpretação de “Canto Diferente” perante uma plateia silenciosa a desfrutar do momento. Ao quarto tema, “Acácia”, Severo muda para a guitarra e entra a Catarina Branco para o piano. Já “Planície” foi interpretada a duas vozes com uma envolvência enorme entre Luís e Catarina, entre o som providenciado pela guitarra clássica e pelo piano. Mariana Camacho e João Sarnadas (conhecido pelo projeto Coelho Radioactivo) participaram neste formato a banda de Luís Severo nos coros como em “Cedo ou Tarde”, um dos singles mais recentes e que faz a antevisão do álbum que surgirá ainda este ano.

Luís Severo e toda a sua banda | mais fotos clicar aqui
Conforme anteviu o artista lisboeta houve “parte especial só com eles” (referindo-se a Catarina, Mariana e João com a interpretação de “Amor e Verdade” no qual fizeram uma harmonização extremamente bem conseguida com coros a 3 vozes.
A atuação, tal como apanágio deste sui generis músico, foi refrescante e emocionante que terminou com a nova canção “Insónia” e uma menos recente: “Primavera”. Já vi Luís Severo algumas vezes e continuo a ter vontade em assistir a mais atuações dele. É, sem dúvida, um dos mais incríveis cantautores mais originais e diferenciados que temos em Portugal.
Findo este único concerto do Grande Auditório rumei ao Café Concerto para ver os Bardino, trio cuja formação conta com os músicos Nuno Fulgêncio (bateria), Diogo Silva (baixo) e Rui Martins (teclados e guitarra) e do qual tinha mesmo pouco conhecimento. Eles fizeram a sua estreia em terras vimaranenses.

Bardino em atuação no Café Concerto | mais fotos clicar aqui
Aproveitaram esta ocasião para introduzirem à plateia o mais recente trabalho discográfico ‘Memória da Pedra Mãe’ editado já no decurso deste 2024 através da editora Jazzego. Entre temas instrumentais e outros com recurso a algumas vocalizações permitiu perceber um som com uma vibe dançante muito boa. A fazer lembrar um pouco a banda canadiana badbadnotgood.
Facilmente intuímos das influências do universo jazz porém como escreveu Rui Miguel Abreu para o Rimas e Batidas é “jazz-não-jazz”. A performance dos Bardino contou com o saxofonista Brian Blaker como convidado, ele que participou no mais recente álbum em dois temas.

Nuno Fulgêncio dos Bardino | mais fotos clicar aqui
A parte menos positiva foi mesmo o público, em bom número durante os primeiros temas tendo posteriormente existido uma debandada das pessoas rumo à atuação seguinte. A atuação decorreu em bom ritmo e estava a ser minimamente cativante pelo que o sucedido foi algo de estranho.
Não abrandava a cadência da noite e para performance seguinte existia uma expetativa algo elevada. A nova artista Silly trouxe o seu álbum de debute, à Cidade Berço. Maria Miguel Bentes reuniu neste seu trabalho o acumular de uma experiência de vida com diferentes patamares vivida entre Açores, o Alentejo e a grande Lisboa. Efetivamente o EP ‘Viver Sensivelmente’ de 2021 é que põe esta criadora no mapa musical nacional. Surgiu ‘Miguela’, editado no passado dia 9 de fevereiro e produzido pelo incrível Fred Ferreira. Começamos agora a ter uma noção renovada de todo o seu potencial com esta atuação.

Fred e Silly em palco | mais fotos clicar aqui
Em palco, frente a frente, surge Silly à nossa direita e Fred Ferreira à esquerda. Na voz, nas teclas e guitarra tivemos Maria, já Fred ficou responsável pelas batidas e toda a parte eletrónica. Ambos proporcionaram um mix sonoro voluptuoso, ligeiro e apelativo com um forte travo dançável, pese embora a seriedade das temáticas nas letras. Efetivamente foi a surpresa e a descoberta mais agradável da jornada desta primeira noite. Um excelente cartão-de-visita.
“Coisas Fracas”, “Inquietação”, “Silêncio” e “Agua Doce” foram tocadas logo na fase inicial conseguindo desde logo captar toda a atenção das pessoas. Silly referiu ter sido, esta última referida atrás, aquela que concretizou a sua junção definitiva a Fred.
“Prognósticos”, uma das faixas obrigatórias desta nova artista do panorama nacional, um claro talento emergente, não faltou ao alinhamento.

Silly e Fred nos agradecimentos finais | mais fotos clicar aqui
Existiu uma boa adesão de público porém bastantes pessoas situaram-se longe da zona central da box. De um modo geral o pessoal ficou espalhado pelo espaço, com uma tendência de permanência na entrada da box (situada em cima do palco do Grande Auditório do CCVF com vista para a plateia sentada).
Ana Lua Caiano tocou neste mesmo festival no ano transato e ainda não tinha o hype atual. Senti que Silly tem um potencial idêntico em termos de projeção.
Voz de Riça e apoio nos beats e voz de Zé Mendes. Esta foram os músicos vistos na sequência no alinhamento do festival cuja atuação ocorreu no Café Concerto. Nesta atuação o rapper Riça deu a mostrar um pouco do seu último e mais recente álbum ‘Diabos m’ Elevem’.

Riça e a sua cenografia expressiva | mais fotos clicar aqui
O artista portuense José Leal, conhecido artisticamente como Riça, proporcionou uma performance dinâmica perante uma cenografia muito expressiva. Temas como “Ponte Babel” e “Rato do Campo & Rato da Cidade” foram alguns dos interpretados deste trabalho discográfico editado em setembro do ano passado.
Capicua e os seus companheiros de palco entraram quase com 20 minutos em relação à hora prevista: meia-noite e meia. “Há muito tempo que não chego ao palco à 1h da manhã” afirmou a artista por entre um sorriso largo na sequência do tema de abertura “Último mergulho”. Aliás a interpretação do tema foi reiniciado depois de um engano na letra pela artista.

Interação entre Capicua e o seu público | mais fotos clicar aqui
“Medo do Medo”, “Sereia Louca” e “Planetário” foram algumas das canções tocadas na parte inicial da performance e que captaram logo mentes e corpos dos presentes. Nos interlúdios ia recitando em ritmo de spoken word algumas palavras. Às vezes, até em modo gaguejante, só aconteceu nas primeiras vezes, provavelmente pela voz ainda não ter atingido o seu ponto de ebulição.
‘Madrepérola’ é o registo discográfico mais recente e obviamente abordado devidamente e numa sequência excitante interpretou temas, alguns dos quais já icónicos, como “Gaudi”, “Circunvalação”, “Vayorken”, “Mão Pesada” e “Maria Capaz” o público ficou totalmente “ligado” e desfrutou da excelente performance. Provavelmente terá sido o momento áureo do Westway LAB em 2024.

Luís Montenegro sempre muito concentrado | mais fotos clicar aqui
Pelo meio trouxe-nos “Que Força É Essa Amiga”, um tema recentemente lançado emergido a partir da reescrita do tema “Que Força É Essa”, originalmente escrito por Sérgio Godinho em 1972. Ana Fernandes adaptou-a à sua visão, aos tempos atuais e ao universo feminino.
Ana Matos Fernandes (Capicua) contou com o apoio indispensável de Joana Raquel e Inês Malheiro nos coros ; Diego Sousa (D-One) como DJ; João Rocha (Virtus) como MPC a controlar os beats e Luís Montenegro na guitarra.

Capicua e a sua banda | mais fotos clicar aqui
Para encerramento, eram já quase 2h da manhã, em modo elevado Capicua trouxe-nos “Madrepérola” e senti ter sido a cereja no topo do bolo. Este meu reencontro com esta artista portuense 12 anos após a ter visto a atuar pela primeira vez igualmente em Guimarães e ficou registado na minha memória de modo indelével.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui

Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Jorge Nicolau
