A dança à chuva dos corações celtas – Dia 1 do Festival Folk Celta 2023 | Reportagem

Budiño em comunhão com o público | mais fotos clicar aqui
Sob a ponte medieval avistam-se corações celtas. A XVI edição do Folk Celta, onde a chuva e o manto de neblina tão típicas da região do Alto Minho inauguraram o espaço do festival de Ponte da Barca, não podia ter começado melhor. O primeiro dia de concertos (passada sexta-feira, 28 de julho) começou com o quarteto de folk atlântico Böj, que apresentou o seu último álbum “Lúa”, editado em 2019.
O quarteto teve ainda como convidado especial o violinista e amigo Cibrán Seixo, que se juntou à banda para tocarem o tema “Júpiter”, uma homenagem ao clássico de Gustav Holst. A plateia dançou ao som dos galegos com a chuva a juntar-se à festa, mas que em nada atrapalhou os espíritos celtas, esta acabou por assistir também ao concerto dando-lhe um toque do imaginário do norte da Europa, deixando o público rendido, dançando hipnotizado pelos sons das flautas de Fausto Escrigas López-Dafonte e Ricardo Mouriño, espicaçadas pelo brilhante violino de Cibrán Seixo e a guitarra de Rúben Gómez.

Böj em palco | mais fotos clicar aqui
Uma mistura perfeita entre canções de embalar corações celtas e batidas de animar os espíritos da dança tradicional, onde o som reconfortante do bodhran (instrumento musical de percussão irlandês) nas mãos de Pablo Vergara nos aqueceu a alma. Foi, por certo, um momento que nos fez viajar por épocas encantadas com bosques verdejantes típicos do norte da península.
Com uma alegria contagiante e um ambiente de festa e palmas, um verdadeiro “alívio para uma dor bocal e outras doenças” como entoou o quarteto, que terminou o concerto com o público a gritar “más, más, más” por entre palmas, dança e guarda-chuvas no ar.
Os mirandeses Galandum Galundaina, pela terceira vez presentes no festival, foram os segundos a atuar e os que muito prometeram…e cumpriram! Debaixo de um véu de guarda-chuvas, um público ansioso esperou pelo grupo mirandês, esta noite com um convidado especial – Leo Santos. Iniciou-se então, uma viagem através do som dos chocalhos dos animais da serra guiados pelo pastor mirandês diretamente para as portas de Ponte da Barca.

A chuva não travou os Galandum Galundaina nem o público | mais fotos clicar aqui
A serra desceu ao rio Lima e do microfone ouve-se “Quanto chove nesta terra!” e deu-se início ao som peculiar da sanfona nas mãos de Paulo Preto. De repente, fala-se mirandês no Alto Minho e juntam-se gerações em uníssono entre passos e compassos ao ritmo dos sons das Terras de Miranda. Em “Fraile Cornudo” uma ala do público entoou a canção do início ao fim num mirandês perfeito e em “Pingacho” a plateia abriu alas para o baile tradicional que continuou em “Canedo” onde os foliões levantaram os braços num vira que vira em roda a girar saltando de braço em braço sempre a cantar. Tocaram êxitos desde o primeiro álbum ‘L’ Purmeiro’, ao último ‘Quadrada’ editado em 2015.
A animação dos rapazes de Miranda do Douro foi contagiante e fez até o mais tímido levantar o pé e dançar. Com mãos no ar, rodas, risos, saltos e gargalhadas, a pandeireta de Alexandre Meirinhos marca o ritmo e o público responde com palmas e sai a melodia da flauta de João Pratas que entoa alegria vibrante, os bombos aquecem os corações e batem forte ressoando nos nossos peitos e o rabel (instrumento de cordas friccionadas da família do violino) de Paulo Meirinhos transporta-nos para o verdadeiro som das tradições por nós abraçadas.

Paulo Preto, um dos 5 elementos dos Galandum Galundaina | mais fotos clicar aqui
Os tambores aquecem o peito e a melodia das flautas fazem-nos voar e numa verdadeira dança fluida, somos mirandeses e canta-se “Júlia” o mais recente single da banda, onde a mistura dos sons mais tradicionais comunga com o toque da guitarra na perfeição.
Não queriam acabar, mas estava quase na hora e numa primeira tentativa despediram-se com “Nos tenemos muchos nabos” com o público a entoar em tom de despedida gritando bem alto o refrão. Por fim, num universo de carneiros, chocalhos e nabos despediram-se, desta vez a sério, com a promessa de um abraço de grupo e com “A Cantiga da Burra” de autoria do músico e cantautor Sebastião Antunes, que se iniciou à capela, a plateia acompanhou e de seguida os instrumentos gritaram, o público acolheu e o chão tremeu.

Alexandre Meirinhos, um dos 5 elementos dos Galandum Galundaina | mais fotos clicar aqui
Pouco passava da meia-noite quando se iniciou o último concerto desta primeira noite de festival. Os sons oníricos de Budiño encantaram um público já bem aquecido que depois de um merecido descanso fora-se aproximando timidamente.
À medida que a flauta encantava e a batida entoava, a plateia foi-se compondo e, mais uma vez, uma onda de boa energia celta foi contagiando as margens do rio Lima. O músico galego, muito bem acompanhado pelos seus quatro músicos afinadíssimos – Inés Salvado, Tania Caamaño, Andrés Boutureira e mais uma vez Cibrán Seixo – teve o grande desafio de atrair um público que já tinha dado toda a energia anteriormente, e conseguiu!

Budiño bem acompanhado em palco | mais fotos clicar aqui
Ele, Xosé Manuel Budiño, em tons de magenta e os restantes músicos todos de branco, com o poder da Gaita-de-foles marcante do músico de origem galega, encantou o público que pode sonhar acordado no final de uma noite de abertura que não podia ter sido melhor. Divulgando o seu mais recente álbum ‘Branca Vela’, editado este ano, o músico recordou aqui os sons e os bailes típicos da sua infância.
A euforia deu lugar ao encantamento e entre sons de introspeção e o fascínio do violino de Cibrán Seixo, surgia de quando em vez a batida frenética do folk celta que fazia mais uma vez o público render-se e ficar “con ganas de bailar”.
Budiño, acompanhado por duas brilhantes cantoras e músicas do conhecido quarteto De Vacas, Inés Salvado e Tania Caamaño, formaram um verdadeiro trio em uníssono que deu voz às palavras do compositor.

Inés Salvado e Tania Caamaño a deliciarem o Alto Minho | mais fotos clicar aqui
Este espetáculo trouxe-nos fantasia, histórias de dragões a aprender a voar, dança em palco, sons tradicionais misturados de uma forma brilhante com o sintetizador de Andrés Boutureira que transformaram o recinto num verdadeiro dance floor céltico. Fechou o concerto com a cantora Tania Caamaño à capela envolvendo o público que rapidamente se despediu em grande a cantar em conjunto e a pedir mais e mais baile, mais e mais corações celtas encantados.
Assim acabou a primeira noite do festival Folk Celta e nós ficamos embalados e preparados para continuar a sonhar por aí em terras do Vale do Lima.
Foto-reportagem completa deste dia: Clicar Aqui

O público sempre bem animado | mais fotos clicar aqui
Texto: Catarina Rocha
Fotografia: Tiago Paiva
