
Rui dos 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui
No seguimento de uma edição assinalada pelo trigésimo aniversário do Vodafone Paredes de Coura realizada em 2023, marcada por alguns excelentes e memoráveis concertos como os dos Explosions in the Sky ou Little Simz, por exemplo, eis que volvidos 364 dias é tempo de regressar ao mítico festival. Em 2024 regista-se a 31ª edição.
Há quem realize peregrinações anuais por motivos religiosos, as minhas razões são musicais e têm como destino a minha “Meca” dos festivais portugueses de música indie e alternativa. Ainda o é apesar de “piscarem o olho” a outros géneros musicais como o Rap, o Hip Hop e o Pop de há umas edições a esta parte.
Tal como em ocasiões prévias segui rumo ao Alto Minho mais cedo, é a norma ao primeiro dia. Desse modo dei início ao périplo repetitivo de quatro dias consecutivos de viagens Guimarães – Paredes de Coura – Guimarães.
“Do palco para toda a vida” é o lema do festival este ano.

Ameno e agradável final de tarde | mais fotos clicar aqui
Poucos minutos antes de entrar no recinto foi conhecido o cancelamento dos Bar Italia. Uma triste novidade de última hora, para mais sabendo-se ter sido por causa de um dos seus elementos ter adoecido e ter sido conduzido para um hospital na cidade do Porto. Deste modo os Glass Beams tocaram mais cedo e promovidos ao palco principal na slot que seria dos britânicos. Já 800 Gondomar entraram no cartaz para o espaço dos australianos citados na frase anterior.
O primeiro concerto é sempre no palco secundário e tal como também é habitual desde logo cedo houve uma boa adesão do público. Um dos bem visíveis melhoramentos ao chegar a essa zona foi a colocação de banquinhos com carregadores na encosta com vista para a tenda.
A estreia, pelas 17:30h, ocorreu com músico, compositor, produtor João Vieira e o seu alter-ego norte-americano de Nova Iorque Wolf Manhattan. Além do seu usual parceiro fantasma teve também um mascarado em palco a curtir as suas canções e que lá foi surgindo de vez em quando, teve também o auxílio de uma banda completa. Destes músicos em palco referência para Rafael Ferreira (dos Glockenwise) na guitarra e Fernando Sousa (parceiro de Vieira nos X-Wife).

Wolf Manhattan bem acompanhado // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Wolf Manhattan além de ter tocado músicas do seu álbum ‘Real Life Is Overrated’, lançado em abril passado, recuperou temas do seu disco homónimo de 2022. Como evidente o destaque maior foi para esse mais recente lançamento do qual interpretou temas como “Consequences” ou “Can’t Always Win”, por exemplo.
Teve uma convidada especial, anunciada via redes sociais, foi a presença de Catarina Falcão, conhecida artisticamente como Monday. Ela que participou em alguns temas, de destacar a colaboração em “Breathe”.

Catarina Falcão em colaboração com Wolf Manhattan // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Ao fim de cerca de 40 minutos fecho com “Sometimes” de uma atuação divertida e que até contou com gritos de lobo depois da interpretação de “Voices In My Head”. A alcateia a mostrar-se “feroz” e a entrar na animação.
A abertura do palco principal, às 18:10h, no Vodafone Paredes de Coura ficou ao encargo dos First Breath After Coma e eles tiveram o compincha David Santos, conhecido nas lides musicais como Noiserv. O ramalhete ficou muito bem preenchido, literalmente, com dezenas de elementos da Banda de Mateus. Ensaiaram todos juntos nos dias antecedentes à presença no festival.

David Santos mais conhecido por Noiserv | mais fotos clicar aqui
First Breath After Coma e Noiserv regressaram ao anfiteatro mais conhecido do país 5 anos depois, participaram na edição de 2019.
Entre músicas dos First Breath After Coma como “Change” (a segunda interpretada) ou “Blup” e “This Is Maybe the Place Where Trains Are Going to Sleep At Night” (a primeira a ser interpretada) ou “Bullets on Parade” de Noiserv foram alternando “cromos” musicais das discografias de ambos os projetos.

O “gangue” todo em palco | mais fotos clicar aqui
Os imensos elementos da Banda de Mateus ficaram atrás dos 6 músicos principais, estes ficaram alinhados na parte frontal do palco. A banda não participou em todos os temas. Registo superior para o acompanhamento fantástico, com especial evidência na belíssima interpretação de “I Don’t Want Nobody”, tema dos First Breath After Coma, soou mesmo bem.
“Don’t Say Hi If You Don’t Have Time For a Nice Goodbye” foi a última, que até demorou a arrancar, escolhida do repertório de Noiserv. Eles que até podiam ter interpretado mais só que o tempo disponível era bem limitado.
Vi algumas pessoas equipadas a rigor, ora com t-shirt do União de Leiria ora tote bag alusiva à cidade leiriense. A mostrarem o orgulho leiriense tal como pela banda.

João Marques dos First Breath After Coma | mais fotos clicar aqui
Logo aqui, com esta performance, tivemos um dos melhores momentos de toda a jornada. Foi uma atuação bem conseguida e belíssima.
Uma abertura no cenário principal espetacular perante um anfiteatro bem preenchido com o público a usufruir de um clima no ponto certo: céu azul, sol a brilhar e sem estar demasiado quente.
No deambular entre palcos, foi então altura, pelas 18:50h regressar ao Palco Yorn. Com os seus sons exóticos os Sababa 5 arrebitaram com o público que preencheu a área disponível defronte deste palco secundário.
A banda formada pelo quarteto formado por Amir Sadot, Eitan Drabkin, Ilan Smilan e Raz Man viveu bastante dos riffs hipnóticos produzidos pelo seu guitarrista Illan. Ele que usou chapéu, como pelos vistos, é-lhe habitual pelo que pude visualizar pelos vídeos que a banda tem online. Eles que são de Tel-Aviv, cidade israelita.

Ilan Smilan dos Sababa 5 | mais fotos clicar aqui
Os temas, na sua maioria instrumentais, captaram a atenção dos ouvidos. Igualmente dos corpos já que passaram a modo deambulante curtindo as sonoridades inspiradas em sons mediterrânicos cuja dinâmica rítmica permite-lhes acrescentar pitadas de rock e funk psicadélico.
Os Glass Beams, um trio oriundo da Austrália, atuaram com vestimentas douradas das quais há a destacar as máscaras de ouro ornamentadas, que usaram a tapar os seus rostos, num final de tarde de lusco-fusco perfeito de verão. O Vodafone Paredes de Coura começa a ganhar ritmo adequado as festividades.

O misticismo dos Glass Beams | mais fotos clicar aqui
Durante algum tempo o anonimato foi igualmente parte do seu misticismo, eles que começaram o seu trabalho colaborativo durante a pandemia. Um dos seus elementos é o músico Rajan Silva, um dos fundadores do projeto, assumido pelo próprio numa entrevista à Rolling Stone India.
Corpos dançantes e a desfrutarem do regalo sonoro hipnótico com influências arábicas e indianas bailaram ao ritmo de “Mahal” ou “Orb”, só para citar alguns dos temas interpretados durante quase 1 hora de performance.
A banda mistura sintetizador, rock, psicadélico, guitarra elétrica, instrumentais orientais e vocais subtis. Uma fusão psicadélica do estilo australiano surf rock com a música tradicional indiana.

Visão do ambiente durante Glass Beams | mais fotos clicar aqui
O seu som fez lembrar outra banda que já passou por Paredes de Coura, falamos pois dos Khruangbin. Tal como os norte-americanos, eles também deram-se realmente bem. Uma estreia bem positiva por terras lusitanas.
Depois da indispensável pausa para jantar e refortalecimento de forças eis que foi tempo, em horário nobre pelas 21:30h, ouvir André Lauren Benjamin. Este é o nome real de André 3000, rapper, cantor, produtor de hip hop e ator norte-americano. Ficou conhecido para o planeta artístico como parte integrante dos Outkast, banda que fez furor nos anos 90.
Lançado em 17 de novembro de 2023 ‘New Blue Sun’ é o álbum de debute a solo e que teve direito a apresentação no festival. Teve um público em regime de sala de estar bastante expectante perante si. Muitas pessoas aproveitaram para se sentarem. À pergunta de André “como se sentem?” eis que uma enorme ovação surge como resposta. Provavelmente foi o modo encontrado pelo artista para retirar alguma reação das pessoas pois o modo expectante manteve-se durante toda a performance. Ele que estava feliz por estar presente naquele “bonito espaço”.

André 3000 na apresentação de ‘New Blue Sun’ // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Um feixe de luz mesmo em frente de André fornecia um impactante registo visual. Ele que deu enorme volta esotérica, na altura, entrou em estúdio para um álbum de hip-hop, o rumo e resultado final foi completamente divergente.
André 3000 disse que iam compondo à medida que iam tocando, ele que fez uso de flauta e xilofone. Já os músicos que o acompanhavam encarregaram-se dos outros instrumentos teclados, percussão, bateria e guitarra.
Não desgostei dos temas que posso descrever como música para relaxamento mental de fim-de-semana afrodisíaco. Penso que o enquadramento da sua performance num festival de verão talvez não seja a mais adequada para uma experiência imersiva neste seu sui generis trabalho discográfico.

Visão do ambiente durante 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui
Fred Ferreira no baixo, Rui Fonseca na bateria e Alô Farooq na guitarra são os 800 Gondomar e entraram no cardápio do Vodafone Paredes de Coura devido à infeliz impossibilidade por doença de última hora de um dos elementos dos Bar Italia. Eles que fizeram questão de mandar as melhoras para a banda britânica. Eles foram chamados para terem o papel de “bombeiro de serviço”. A conotação pode parecer negativa, agora acreditem que a banda de Rio Tinto aproveitou a oportunidade com unhas e dentes.
“Gondomar, Gondomar, Gondomar” ouviu-se nos minutos antecedentes à sua atuação e assim que puseram os seus pés em palco, o trio serviu o seu punk rock tal como sempre o faz: com alto empenho, dedicação e ligação direta ao público. Curiosamente entraram ao som de “Uliana” uma canção com um som curioso e pertença dos Duo di Oliena.
Rui Fonseca teve a particularidade de ter feito crowdsurf logo sem tocar, nos instantes após ter entrado no cenário. Mais um pormenor delicioso e invulgar a registar. Estou ainda para assistir a um concerto destes rapazes sem crowdsurf. Missão impossível com toda a certeza pois os fãs seriam incapazes, é certo.

Alô dos 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui
Como é hábito, o trio tocou e cantou junto dos fãs. São momentos sempre impecáveis e com o seu ponto sentimental.
“Sou Cidadão”, “Ax Gti” e “Mataram o Fábio” são temas imprescindíveis nos concertos desta banda de Rio Tinto e não faltaram na setlist.
Tal como os MДQUIИД. no ano passado, também os 800 Gondomar foram recrutados à última hora e aproveitaram ao máximo a oportunidade. Eles que tinham tocado na noite anterior no ‘Sobe à Vila’.
Foram 60 minutos do melhor punk made in lusitânia. “Faz o Flip”, “Erva Daninha” e “Preguiça” foram as três últimas numa fase em que algum do público já se retirava rumo ao cenário dominante.

Fred dos 800 Gondomar | mais fotos clicar aqui
Muitos fãs do britânico Sampha por entre o público. Era, sem margem para dúvidas, o mais aguardado da noite. Vestido de branco, alternou entre a parte frontal do palco e uma posição fixa quando teve de tocar teclado. Ele que lá foi agradecendo com um “obrigado” em português escorreito tendo entrado no Palco Vodafone alguns minutos depois da hora prevista.
Sampha que tocou teclado e esteve rodeado por músicos intensos que lhe deram suporte nos instrumentos de percussão e teclas.

Sampha em palco rodeado pelos seus parceiros // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
As expetativas não saíram defraudadas de todo um espetáculo de luzes bem coloridas. Vários projetores luminosos estavam em frente à banda estrategicamente posicionados. Já o ecrã gigante tinha uma figura geométrica fixa na qual apenas mudavam as cores.
“Satellite Business 2.0”, “Dancing Circles” e “Blood On Me” já tocadas na reta final de uma atuação de mais de 60 minutos de duração que foi bastante satisfatória e pela qual o público não terá dado o seu tempo por mal empregue.

Sampha em contacto com o público // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
George Clanton teve apoio de baterista e da magia da caixinha eletrónica. Bastante comunicativo sendo por vezes um pouco agressivo nas expressões.
Recorre a bastantes efeitos na sua voz no decurso da sua performance, ele que apresentou temas como “Dumb”, “Justify Your Life”, “Make It Forever” ou “Warmpop”. Muita gente optou por ficar sentada perante o palco principal após o final de Sampha. Com muita gente em circulação e nas zonas da restauração, o concerto de George Clanton, ainda assim, teve um número bastante impressionante de curiosos.

O comunicativo George Clanton // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Entrada dançante dos cinco cantores de apoio ao som “How I Got Over” de Aretha Franklin“. Todos eles demonstram os seus dotes vocais a seguir a “RUN”, um dos primeiros temas interpretados. Já Killer Mike apresentou-se com boa e contagiante energia. Estavam todos vestidos de branco, até o DJ de serviço.
Já não estava o nível de público registado em Sampha, sobretudo na parte mais acima da encosta. Ainda assim deu para sentir uma vibe bem positiva nesta que foi a primeira vez de Killer Mike em Portugal. Ele que tem orgulho em ser artista e isso ser causa que o leva a “locais exóticos”, foi a expressão que utilizou.
Em “TALK’N THAT SHIT!” o público mostrou-se de forma vividamente sonora. Os dados foram bem lançados para esta atuação que teve início à 1:50h. Depois de ter visualizado algum tempo da atuação efetuei o meu regresso a casa. Tinha ainda 1 hora de caminho.
Satisfação e felicidade foram os meus predicados neste regresso ao anfiteatro natural do Taboão e nesta jornada inaugural nem tinha um cartaz tão apetecível, tendo em conta os meus gostos musicais. Os próximos dias prometem ser bem mais intensos.

Estreia incrível de Killer Mike em Portugal // Foto oficial Vodafone Paredes de Coura @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
A primeira noite não registou lotação esgotada porém Vodafone Paredes de Coura teve uma boa afluência de público. A vida no recinto foi cómoda q.b. em todos os aspetos. Claro que no ponto máximo de adesão a movimentação não é tão cómoda como óbvio.
Nota muito positiva para a experiência no usufruto dos WC, foram bastante melhorados e bem mais fácil, do ponto de vista masculino. No restante do recinto alguns pequenos melhoramentos e uma zona de restauração praticamente idêntica ao ano transato.
Tal como o diretor do festival João Carvalho prometera os concertos não se sobrepuseram e, enquanto estive pelo recinto, não verifiquei aglomerados intensos no palco secundário. As pessoas filtraram os seus interesses o que permitiu não sobrelotar a área do palco secundário.
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A frontline durante Sababa 5 | mais fotos clicar aqui
Texto: Edgar Silva
Fotografia: Ana Lourenço @ blackphant (Instagram)
