Skin dos Skunk Anansie em palco | Mais fotos clicar aqui
Em 2019, o festival EDP Vilar de Mouros festejou o 50º aniversário, continuando a revalidar o título de festival mais antigo da Península Ibérica.
Um festival que todos os anos tem conseguido obter um número razoável de audiência – ainda distante de competir com os maiores festivais nacionais -, apresentava como objetivo para esta edição um aumento significativo na audiência diária. Para tal apostou num aumento do recinto, na inclusão de um segundo palco – passando a contar com 6 artistas distribuídos igualmente por 2 palcos – e num cartaz com nomes de relevo internacional que o público português já sentia falta: The Offspring, Skunk Anansie, Prophets of Rage, Gogol Bordello, The Cult, Manic Street Preachers, entre outros. Um cartaz que apela a uma geração mais “velha” do que os seus “rivais” nacionais.
Tudo apontava para que o objetivo da organização do festival se pudesse concretizar. E assim foi. Mas nem tudo foi um conto de fadas.
É a minha segunda vez neste festival. Estive presente num dos dias da edição passada: o dia que trouxe Incubus a Vilar de Mouros. Confesso que a minha presença se deveu quase exclusivamente a eles.
Lembro-me perfeitamente da “moça” que ficou ao pé de mim no concerto deles. Berrou todas as músicas de início a fim. É das experiências em festivais que mais me marcou. Foi esta a lembrança que levei de Vilar de Mouros: um festival em que as pessoas vão única e exclusivamente pela música e pelo seu gosto pela mesma onde são capazes de realmente sentir o que a música transmite – ao contrário do que temos visto recentemente em festivais com maior nome. Mesmo indo sozinho, nunca me senti sozinho.
Foi com esta memória que me desloquei para o recinto no primeiro dia.
Dia 1 – fotos: clicar aqui
Um primeiro dia que mais parecia um dia 0. Os artistas não merecem, mas a verdade é que este primeiro dia soube a ‘aquecimento’, muito à custa do que nos esperaria no segundo e terceiro dia.
Os nomes que mais me chamavam à atenção eram Anna Calvi e The Cult. Mas não esquecer Manic Street Preachers. E foi assim que aguardei com alguma ânsia o concerto de Anna Calvi no palco EDP.
A artista britânica apresentou-se com a sua guitarra e com uma iluminação de palco baseada em contraluz e em tons vermelhos: a cor do seu último álbum – Hunter. Apesar de ser uma artista de uma geração diferente do público-alvo do festival, o público mostrou-se muito recetivo à mesma. O silêncio era notável quando toda a banda silenciava e destacava-se a voz da artista. E que vozeirão. E isto não sou eu que digo. Era o que se ouvia por entre o público que fazia questão de se manifestar em jeito de congratular Anna Calvi. Um concerto muito agradável, no qual estou certo que a artista arrecadou muitos novos fãs.

Anna Calvi em palco | Mais fotos clicar aqui
Em seguida tivemos Therapy? no palco MEO. Os irlandeses apresentaram-se em palco com o seu rock/metal alternativo e o seu sentido de humor: “Pedimos desculpa não estar a falar em português, mas somos da Irlanda. Nem o nosso inglês é bom.” – dizia o porta-voz da banda, Andy Carins. E assim foram conquistando a plateia e causando umas valentes gargalhadas. Um estilo mais pesado do que havíamos visto anteriormente e uma
performance que cumpriu.
Era então altura de um dos nomes mais aguardados: Manic Street Preachers. E assim foi. Por volta das 23h50, a banda formada no País de Gales apresentou-se no palco EDP. Estava ainda no fosso a fotografar a banda quando já sentia toda a energia que o público transmitia aos artistas. E estando ali entre o público e a banda, acreditem que deve ser dos sítios onde mais se sente. Eram muitos os que faziam questão de cantar com a banda. Eram ainda mais os que faziam questão de a aplaudir. Sentia-se o impacto desta energia no trio. Uma boa performance de um conjunto que, confesso, pouco conhecia, mas que me despertou algum interesse.

James Dean Bradfield dos Manic Street Preachers em palco | Mais fotos clicar aqui
Chegava então a hora do grande nome do primeiro dia – The Cult. Ainda nem a banda britânica tinha entrado em palco e já se perdia a conta à quantidade de telemóveis erguidos entre a plateia. Quem não adora ver um concerto através de um ecrã de um telemóvel que atire a primeira pedra. Mas eventualmente o conjunto de hard-rock lá subiu ao palco e os telemóveis foram baixando a pouco e pouco, permitindo a todos saborear o rock dos anos 80 e 90 que estes senhores bem sabem executar. Um concerto e uma performance sólida de uma banda que dispensa apresentações. Terminaram o concerto com “Love Removal Machine”, um dos seus temas mais populares. O porta-voz do grupo, Ian Astbury, despediu-se do público com uma piada referente à casa de Madonna e deixou o público a pedir por mais. Mas tal não aconteceu.
Fotos do 1º dia: clicar aqui

Dia 2 – fotos: clicar aqui
Este sim, o dia que eu mais aguardava neste festival, devido a duas bandas: The Offspring e Skunk Anansie. Os primeiros porque foram uma daquelas marcas da minha adolescência e que ouvia muito há coisa de 10 anos. Os segundos porque são uma das bandas que ouvia naqueles álbum de compilações que tinha (e ainda tenho) lá por casa.
Mas, para mim, o dia começou mal: (1) o trânsito parado logo na saída da autoestrada; (2) o agente da GNR a negar-me o acesso ao parque para a imprensa alegando, e passo a citar, “Como é que eu sei que o senhor está ao serviço?”, mesmo estando eu a mostrar a pulseira e credencial (e note-se que consegui aceder ao mesmo parque no dia anterior e no dia seguinte). Todo um envolvente de eventos que me fez apanhar ainda mais trânsito para chegar ao parque de estacionamento e ser obrigado a estacionar no parque 8, ainda bem distante do recinto. Tudo isto conjugado fez com que eu perdesse o concerto de Clan of Xymox, o primeiro do dia, quase na totalidade.
A partir daqui o dia só podia melhorar. E assim foi.

Visão da entrada do recinto | Mais fotos clicar aqui
O palco EDP abriu com Nitzer Ebb. E que erro que foi. Em parte entende-se que a organização tenha preferido deixar os cabeças de cartaz encerrar o palco principal, mas a sonoridade da banda britânica não se adequa à hora a que atuou – 21h40. A sua sonoridade classificada como Electronic Body Music ou Post-Industrial ou Synth-Pop (ou o que quiserem chamar) seria bem mais adequada como uma forma de aquecimento para o after-hours. Não deixou, no entanto, de atrair uma boa quantidade de público sempre disposto a um bom pé de dança. Como ouvi por entre a audiência e gostei: “É como se Nine Inch Nails se tivesse lembrado que já não gosta de rock e fugiu para o pop”.
22h50 – The Sisters of Mercy. A banda britânica de rock gótico tinha uma verdadeira legião de fãs que se apresentou no recinto a rigor. Confesso que, não sendo grande fã do estilo, optei por aproveitar o tempo deste concerto para jantar – é daquelas escolhas que se tem que fazer em festivais. No entanto, do pouco que vi, ficaram-me na memória os problemas de som e uma quantidade de público conquistado aquém das expetativas criadas para esta banda.
Voltando ao palco EDP, um dos grandes artistas da noite – Skunk Anansie. É impossível não ser contagiado pela energia de Skin. Desde o primeiro segundo a mostrar o que é ter presença em palco. E nem o palco chegou. Desceu para cantar junto, pelo meio e ainda em pé por cima do público – deixando-se cair e sendo levada em jeito de crowdsurfing novamente para o palco! Toda esta proximidade da vocalista com os fãs era enaltecida com o poderio instrumental de toda a banda. Um power absurdo que não é capaz de se sentir nos álbums. E a voz de Skin? Volto a repetir: a voz de Skin! Uns meros segundos após sair do crowdsurfing a cantora lança um “berro” estupidamente afinado capaz de chegar até ao país vizinho. De frisar ainda as mensagens contra o Brexit, fascismo, racismo e homofobia que a lider da banda britânica fez questão de deixar. Totalmente
suportadas pelo público, como seria expectável.

Skin dos Skunk Anansie em palco | Mais fotos clicar aqui
Agora sim, a banda mais esperada pela audiência – The Offspring. A mais que famosa banda americana de punk rock apresenta-se como grande cabeça de cartaz do festival à 1h45 deste segundo dia. Já comentei que acho tardia a hora de atuação dos cabeças de cartaz? É a minha opinião. Mas o público, mesmo que a partilhasse, não arredou pé. Logicamente, a imensa maioria estava unicamente a aguardar por isto.
E foi com ‘Americana’, a música que abre o respetivo álbum, que a banda abriu o espetáculo. E foi desde a primeira guitarrada que o público começou aos saltos e com os mosh-pits que seriam de esperar – não por alguns, que vi fugir mal começou o concerto.
O vocalista, Dexter, frisou, em jeito de brincadeira, estar surpreendido com os milhões de mosh-pits espalhados pelo recinto. Um concerto que agradou e encheu de nostalgia os corações de toda a audiência. Desde o início ao fim era possível ver e sentir a poeira levantada no ar causada por todos os saltos (e não só) da plateia. Só acalmou durante o início da música “Gone Away” em que Dexter cantou até ao segundo refrão apenas acompanhado por um piano. A banda seguiu o alinhamento dos últimos espetáculo e deixou para o encore talvez os seus temas mais poderosos: “You’re Gonna Go Far, Kid” e “Self-Esteem”. “Vocês sabem o que falta, não sabem?” – questionou Dexter ao público antes do segundo tema do encore. É óbvio que todos sabiam o que faltava. E o caos instalou-se após a repetição dos famosos “Laaaa, laaaa, la, la, laaaa”. Foi o pico da poeira neste dia do festival. Um momento que vou guardar para a vida e que certamente ficará na história deste festival. É notável o peso da idade no espetáculo da banda, principalmente na voz de Dexter. Mas a banda ainda é capaz de dar uma lição à sua moda do punk-rock.

É de notar que, já mesmo no concerto da banda britânica The House of Love, a plateia estava extremamente bem composta. Superando (e arriscaria mesmo dizer “dobrando”) a plateia que se encontrava no recinto no dia anterior a esta hora – 20h35. Merecido ou não, acabou por ser um bom prémio para a banda liderada por Guy Chadwick que teve a oportunidade de mostrar o seu rock alternativo a uma excelente plateia.
No meio disto tudo, as coisas más: lotação diária esgotada, algo raro neste festival. Mas isto não é uma coisa boa? – perguntam vocês. Seria sim, se o recinto tivesse os serviços suficientes para a audiência que recebeu neste dia – cerca de 18 500 pessoas – que supera em vários milhares a audiência recebida em dias de lotação esgotada em edições passadas.
Estamos a falar de filas enormes na restauração (30 a 40min para conseguir uma refeição), filas nas zonas de bebidas (10min para conseguir uma bebida nos bares mais vazios), filas para multibanco (só existia um multibanco), filas para casa de banho, filas para tudo. Fiquei com a sensação que a organização não estaria a contar com uma enchente a este nível. Fico muito feliz por o festival ter atingido esta dimensão, mas fica aqui uma lembrança que crescendo o festival, os serviços “básicos” devem também crescer.
Mas friso que estes pontos negativos não superam, de todo, os pontos positivos que foram as atuações de Skunk Anansie e The Offspring. E assim fui para casa: a achar que Vilar de Mouros já me tinha dado o melhor que podia dar nesta edição. Nem eu imaginava o quão enganado estava.
Fotos do 2º dia: clicar aqui

Texto e Fotografia:
João Machado
