
Na
passada noite de sábado, dia 24 de março, quebrámos um hiato na nossa ausência
de concertos no Theatro Circo em
Braga. Tal, só por si, é uma ocasião digna de registo pois a sala bracarense é
um espanto arquitectónico, um edifício com condições optimizadas e com todas as
valias para espectáculos das mais diferentes vertentes culturais.
Regressamos para assistirmos a um concerto de The Legendary Tigerman, o projecto actual de Paulo Furtado. Outrora integrante das bandas Wraygunn e Tédio Boys tendo tido pelo meio outros projectos, como por exemplo, musicar ao vivo a banda sonora de um
filme. Caso do filme “Estrada de Palha”, dirigido pelo realizador Rodrigo
Areias que tivemos oportunidade de assistir, num projecto que teve em conjunto
com Rita Redshoes.
Este concerto em Braga foi integrado numa tournée de
10 datas em Portugal entre fevereiro e março. Começou a 22 de fevereiro em
Braga e a data bracarense foi a penúltima, terminando a 29 de março em Coimbra.
O motivo é o novo álbum apelidado de ‘Misfit’, editado no passado dia 19 de janeiro de 2018
composto e gravado nos Estados Unidos da América. Este foi o primeiro álbum
feito em formato banda. Paulo Furtado abandonou o formato ‘one man
band’. Outras considerações ao “prato forte” da noite mais
adiante…
Agora vamos dedicar algumas palavras à performance da
primeira parte. Esteve a cargo de Afonso
Rodrigues, artista que faz parte dos Sean Riley & the Slowriders, o seu projecto âncora. O artista esteve igualmente a acompanhar Paulo Furtado por
terras do Tio Sam, altura em que surgiu a ideia e o desafio para Afonso Rodrigues, o
de escrever o seu primeiro álbum a solo. ’Califórnia’ é o título desse trabalho
e será editado já no próximo mês.

Afonso Rodrigues surgiu a solo em palco munido apenas da sua guitarra e
durante cerca de 30 minutos apresentou algumas novidades. Teve uma actuação que
consideramos agradável e bem acolhida pelo público sem este se ter mostrado
muito efusivo. Apesar desta consideração devemos dizer que não nos fascinou.
Admitimos que tal poderá dever-se a já termos o nosso “chip” completamente
focado no que viria a seguir… Certamente estaremos atentos à carreira a solo de
Afonso Rodrigues e
igualmente atentos aos Sean Riley & the Slowriders.
22h23 marca o momento em que Paulo Furtado entra com os seus
companheiros em palco. O artista faz-se acompanhar por João Cabrita (saxofone), João Segadães (bateria) e de Filipe Rocha (baixista).
Partimos então para uma viagem intensa e com a expectativa em alta para esta
apresentação.
Levando à letra o seu ‘Misfit’ (leia-se desajustado), o homem tigre surge em palco vestido completamente
de branco em claro contraste com o resto da banda em tons de preto. Mais do que
uma opção de moda, trata-se de uma clara afirmação pessoal.
Obviamente ‘Misfit’ era o grande motivo da noite e logo de início são
apresentados 3 temas desse álbum: “Black Hole”, “The Saddest Girl On Earth” e
“Child of Lust”. Pelo meio o álbum ‘True’ de 2014 e ‘Naked Blues’ de 2002 foram abordados, sendo deste último tocada a faixa
homónima. “These boots Are Made For Walking” e “Dance Craze” não faltaram na
setlist assim como “Fix Of Rock’N’Roll”, o atual tema forte deste “Misfit”.

Causou alguma confusão a Paulo Furtado a distância para a
plateia e para o facto de estarem todos de pé. Não foi de modas e incitou as
pessoas a levantarem-se e a verem o concerto de pé, “não faz sentido estarem sentados”. Afinal, dizemos nós, tem toda a
lógica. Trata-se de um concerto rock e não de uma sessão de cinema pipoqueira.
O público da plateia (sobretudo da plateia) fez-lhe imediatamente a vontade.
The Legendary Tigerman demonstrou-se sempre comunicativo e com uma atitude
abertamente rockeira. De tal modo que chega inclusive a convidar as pessoas a
juntarem-se a ele em palco… Algo que não acontece num primeiro momento, ficou
apenas reservado para o final. O público esse, notou-se conhecedor e fã do
repertório de The Legendary Tigerman tendo estado desde o primeiro momento imbuído em cada
acorde e a cada canção. Foi, sem dúvida, um público interativo, a aproveitar
todos os momentos.
Tivemos direito a uma canção que fala de um miúdo
apaixonado: “I Finally Belong To Someone”. Noutro momento a “façam
tudo o que vos apetecer nesta canção”. Aí surgiu um elogio do baterista “sempre que venho a Braga isto parece a
capital do rock”.

Paulo Furtado
com o seu alter-ego The Legendary Tigerman mostrou-se um rockeiro implacável e proeminente, com as
suas mãos a manusearem a sua guitarra, com a sua voz e com os seus pés em
passos dançantes vindos de uma qualquer pista norte-americana directamente da
década de 70. Imparável igualmente quando salta do palco, passa a barreira e junta-se
à plateia numa total comunhão com o público e com as palavras de ordem “Rock &
Roll” no seu “21st Century Rock”.
Às 23h48 saída do palco de todos os elementos e em
momento de êxtase regressam um minuto mais tarde Paulo Furtado, João Cabrita e Afonso Rodrigues. Para término da noite duas canções mais intimistas, uma delas
interpretada pelo convidado da primeira parte, e finalmente a altura em que
algum público abandonou os seus lugares subindo ao palco. Sentaram-se e
acompanharam os músicos num bonito e mais suave registo.

Ninguém terá, com toda a certeza, ficado desiludido
com esta enérgica performance de The
Legendary Tigerman. Uma grande noite de rock & roll para relembrar e
para repetir numa futura ocasião.
Fotos: Hélder Oliveira
Texto: Edgar Silva
