A (in)sustentável leveza da chuva e da lama! – O dia 3 do NOS Primavera Sound 2018

 The War On Drugs – Créditos ©Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Ao terceiro e final dia da edição de 2018 do NOS Primavera Sound
tivemos de vestir o impermeável da coragem indómita para acompanharmos os
nossos artistas favoritos debaixo de abundante chuva, de caminhos enlameados e
escorregadios. Alguns terão refrescado no túnel das memórias edições do Festival
Vodafone Paredes de Coura com mau tempo nas quais também a vontade terá sido
posta à prova…

Para amenizar os “estragos” o sponsor principal a NOS lá ofereceu impermeáveis brancos logo ao inicio da tarde assim que as portas abriram e que saíram como pãezinhos quentes. Como óbvio, a procura foi bem superior à oferta… Ainda assim vimos festivaleiros preparados dos pés à cabeça e com um sorriso (nada “amarelo”) na cara. A verdade é que muitos não acharam piada a este duelo com os elementos… Mesmo assim vestiram “as luvas de boxe” e entraram no “ringue” com a disposição de não serem derrotados por KO técnico…

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Encosta do Palco NOS – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound


Nota essencial: fizemos um roteiro bem específico para cada dia, escolhendo as bandas a ver baseando-nos nos gostos da equipa e naquilo que são as linhas mestras do HeadLiner:
Indie, Rock e Alternativo.


Luís Severo

Luís Severo aproveitou o “prime-time” do NOS Primavera Sound para fazer a sua estreia em formato banda. Bernardo Álvares, Diogo Rodrigues e Manuel Palha (este último membro dos Capitão Fausto) foram os músicos que embarcaram nesta aventura. Em boa hora dizemos nós!

O nosso primeiro encontro com Severo aconteceu já decorria 2018 aquando da nossa cobertura do festival Walk & Dance realizado em Freamunde. Aí vimos uma performance marcante do artista na qual esteve só acompanhado pela sua guitarra clássica e da sua voz. Sem uma setlist definida à partida.

Mesmo debaixo de chuva e logo na abertura às 17h no Palco SEAT teve esse privilégio: o de fazer o arranque do último dia do evento. Agora com banda as características alteram-se, no entanto, a mística do artista permaneceu intacta assim como o encanto das suas canções folk-pop. Vislumbramos-lhe sorrisos e boa disposição por partilhar o palco com os seus parceiros e desde logo pede desculpas por estar lá em cima no palco protegido da intempérie… Diz que assim tem de ser pois lida com equipamentos eléctricos.

Foram-se juntando pessoas junto ao palco conforme a actuação decorria e lá na frente fãs de Luís Severo cantarolavam as canções e desfrutavam ao máximo. “Boa Companhia”, aquela canção que provavelmente a maioria das pessoas facilmente reconhece foi acompanhada com alegria. Um contentamento meio romântico debaixo da chuva que ia caindo…

Belako

“Nuestros hermanos” Belako vindos de Mungia do País Basco foram a nossa escolha seguinte. ‘Render Me Numb, Trivial Violence’ editado a 23 de fevereiro de 2018 é o álbum que os trás ao Porto. A capa deste disco foi o “pano de fundo” da banda durante a
sua actuação. Josu (guitarra, teclados, baixo e voz), Cris (voz e teclas), Lore (baixo, teclados e voz) e Lander (bateria e vozes) são 4 jovens destemidos. A idade nem sempre é um posto, isso mesmo foi o que demonstraram de forma natural.

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Criz Lizarraga dos Belako – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Claramente inspirados em bandas como Joy Division, Sonic Youth ou Nirvana o som destes espanhóis vai mais além. Cris Lizarraga mostra-se propositadamente com um vestuário provocante, nas costas da sua camisola com mangas vermelhas lê-se “Support Your Local Bad Bitch”. Deixamos a tradução a vosso encargo… Essa pose punk não se fica somente pela indumentária e em palco demonstra créditos, alias, todos os 4 músicos dão muito boa conta do recado.

O post punk está lá mas é só uma das doses da equação. Laivos de grunge, indie rock e até electrónica estão também incluídos e que no seu total perfazem um som apetecível. Estamos completamente na nossa “praia”, devemos confessar!

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Belako em palco – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

A vocalista comunicou com o público num português correcto e bem perceptível debaixo daquela famosa pronúncia espanhola. Admiramos bastante a sua disposição pois os espanhóis quando nos visitam costumam ter sempre a “mania” de falarem normalmente em espanhol.

Apresentou-nos uma “canção contra a violência machista”. Também revelou “Obrigada por nos receberem tão bem”, mais um sinal que todos os artistas ficam encantados com as suas passagens por Portugal seja de onde for a sua proveniência.

Aqueceram e bem os ânimos da generosa audiência que tiveram por diante no Palco NOS e saíram com o sentimento de dever cumprindo. Do lado de cá fica a mesma sensação.

A maior surpresa: Vagabon

Laetitia Tamko, nascida nos Camarões mudou de vida na adolescência quando foi viver para Nova Iorque. Aí nessa grande metrópole encontra o seu caminho pelo Indie Rock  e forja o seu projecto musical Vagabon.

“Sou Vagabon de Nova Iorque” assim se revela em palco no qual vai tocado a solo ou acompanhada por outros 2 músicos. ‘Infinite Worlds’ é o disco de estreia que a traz à Europa e que sido alvo de grandes elogios. Daí a nossa curiosidade por esta artista e pela sua criação musicais. Tivemos no Palco Pitchfork mais uma surpresa extremamente agradável.

Proporcionou-nos a apresentação de uma nova canção pois já encontra-se a preparar um novo álbum. Poderá ter sido um prémio dado que esteve no Porto durante alguns dias, a sua primeira vez por cá, tendo amado a comida e a bebida.

“The Embers” foi o tema que nos revelou Vagabon e pelo qual decidimos colocar o seu concerto no nosso roteiro. Uma decisão sábia e totalmente certeira!

Public Service Broadcasting

Às 20:30h voltamos ao Palco Seat para outro dos momentos que acreditávamos seria bastante cativante. Já ouvimos a banda londrina Public Service Broadcasting há algum tempo e só agora nos deparamos com a imperdível oportunidade de os ver e ouvir ao vivo. Realmente revelou-se ser mesmo imperdível. Como diz alguém por entre a audiência “isto é música em estado puro”. Pelo que nos apercebemos estariam numa conversa e numa comparação com os sons que nos chegavam do Palco Bits, a “tenda” da música electrónica que fez a sua estreia no festival este ano.

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Public Service Broadcasting em palco Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Voltando ao concerto do trio
britânico… Depararam-se com alguns problemas técnicos durante os primeiros
minutos de concerto, nada que lhes demovesse a vontade em proporcionarem um
excelente momento musical. Ainda que com algum esforço, passados as questões
técnicas, partimos numa viagem temporal (tal como muitos dos vídeos que eram
projectados atrás da banda num ecrã gigante) e que nos fez estar “ligados” ao
som dos PSB desde bem cedo.

Tal como fez a voz dos Belako, também J. Willgoose Esq. dos PSB optou
por comunicar na língua de camões. Com sucesso se bem que mais comedido do que
a espanhola.

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J. Willgoose Esq. dos Public Service Broadcasting –  Créditos ©Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Habituaram-nos a um cruzamento de rock com electrónica algo que fazem com mestria. O comprovaram (mais uma vez) em 2017 com ‘Every Valley’, o mais recente lançamento discográfico.

Não foi só de fãs portugueses, perfilaram-se perante o Palco Seat muitos britânicos e alguns deles já bem bebidos. De todos os concertos que tivemos a oportunidade de constatar neste dia 3 do NOS Primavera Sound, este dos PSB terá sido o mais animado.

Wolf Parade

Inicialmente não estava nas nossas cogitações espreitar o concerto dos canadianos Wolf Parade. Optamos por voltar ao Palco Seat depois de uns minutos de descanso e resguardo e na antecâmara da actuação de Nick Cave & The Bad Seeds. Tiveram esse azar na cronologia… Começarem a tocar às 21:45h, apenas a 20 minutos do legendário australiano.

Foram apenas 15 minutos aqueles que dispensamos à banda oriunda do Canadá. Serviram para uma introdução minimamente interessante a esta formação (já com muitos anos de actividade) e que produz um som indie rock.

Nick Cave & The Bad Seeds

Antes de mais considerações devemos confessar que somos seguidores atentos da carreira de Nick Cave e admiradores das suas capacidades porém não nos enquadramos propriamente na massiva falange de seguidores que o australiano tem um pouco por todo o mundo. Para os quais Nick é uma espécie de Deus na terra e profundos conhecedores da discografia do artista. Entre os cerca de 30 mil neste sábado dia 9 de junho no Parque da Cidade do Porto estiveram muitos que se enquadram nesta descrição disseram
presente.

Inacreditável a moldura
humana que se formou anfiteatro abaixo até ao Palco NOS debaixo de um temporal que a espaços foi dando tréguas e
que atingiu o seu pico máximo por volta das 22h. O status quo envolvente conferiu a este concerto uma elevada pitada
de romantismo e entrega.

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Nick Cave em em palco – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Nick Cave acompanhado pelos seus The Bad Seeds entregou-se de alma e corpo ao momento como lhe é hábito. Com aquela intensidade própria que só o próprio consegue demonstrar desde que lhe conhecemos esta faceta de “animal de palco”. Resumindo tudo numa expressão cliché: Nick Cave “é como o vinho do Porto: quanto mais velho, melhor!”.

Muito mais poderíamos escrever sobre a performance de Nick que teve até direito a uma plataforma propositadamente instalada no gradeamento para poder interagir à vontade com os seus fãs. Vários foram os momentos íntimos e interactivos numa audiência com
gente jovem e jovens nos seus quarentas e cinquentas. Em “Into my arms” a comunhão foi perfeita e em uníssono. Em “Tupelo” a canção sobre uma tempestade foi mais do que uma ironia no momento certo. Percebemos que os fãs interiorizaram a vivência e criaram novas memórias com Nick Cave. Parafraseando os norte-americanos… Terá sido uma situação de “win, win”. Ambos (artista e publico) saíram triunfadores!

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Nick Cave junto do público – Créditos ©Hugo Lima // NOS Primavera Sound

A estrela do dia: The War On Drugs

Para uma banda (ou artista) começar a tocar antes de Nick Cave & The Bad Seeds pode ser difícil pois a maioria das atenções (e pessoas) estarão noutro lado, também tocar findado o concerto do “monstro” musical pode ser um desafio de consideráveis proporções…

Confessamos desde já que The War On Drugs era o nosso maior ponto de interesse para este último dia do NOS Primavera Sound. Finalmente os nossos caminhos estavam sincronizados com Adam Granduciel e companheiros, um desejo já com algum tempo concretizado em 2018. Daí a expectativa era diferente relativamente a outros nomes do cartaz.

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Adam Granduciel dos The War On Drugs – Créditos ©Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Não foi só a chuva que se instalou perante o Palco Seat. Quer as bancadas, quer o asfalto estavam repletos de gente. A banda oriunda de Philadelphia nos Estados Unidos da
America chegou ao Porto tendo na bagagem o disco ‘A Deeper Understanding’, um dos discos lançados o ano passado e merecedor de rasgados elogios pela imprensa e público em geral. Daí o foco e a expectativa estar à partida bastante elevada.

Realmente foram canções deste último trabalho tocadas de modo indelével e que levaram a um estado quase de êxtase muitos dos fãs presentes debaixo de uma persistente
chuva. Logo ao segundo tema surge-nos “Holding On” numa execução incrível assim como aconteceu em “Strangest Thing”.

Os The War On Drugs são conhecidos por terem uma toda melancólica e terem explosões rock intensas como em “Red Eyes”, outro dos temas tocados.

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Em palco os The War On Drugs – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Se podemos considerar o concerto Nick Cave & The Bad Seeds como épico e memorável, a mesma descrição pode ser produzida para esta performance dos The War On Drugs. Ficamos mesmo imbuídos como muitos outros estavam no final. Com uma saudável euforia completamente terapêutica!

Mogwai

A noite prossegue com um regresso ao Palco NOS para o portentoso post-rock
instrumental dos escoceses Mogwai. A banda estava de regresso a Portugal e feliz por cá estar assim o declarou Stuart Braithwaite.

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Em palco os Mogwai – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Tivemos um concerto bastante competente e seguro por parte da banda britânica que serviu para relaxarmos de todas as emoções vividas até aí. Não o dizemos com desprimor,
bem pelo contrário. A pujante força das guitarras em doses de mestre permitiu-nos fechar os olhos e deixar-nos levar a outros estados mais compenetrados.

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Cat Myers dos Mogwai – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Atrás da banda estavam uns painéis a reflectirem cores sólidas num efeito básico porém bastante eficaz. Permitiu termos o foco na performance dos músicos e no som produzido pelos Mogwai.

O que menos gostamos: Arca

A curiosidade levou-nos a performance de música electrónica do produtor
venezuelano Alejandro Ghersi. Gostamos de arriscar em artistas dos quais pouco ainda conhecemos. Às vezes corre bem, por vezes é mesmo para imediatamente esquecer. Desta vez, ao contrário de todas as restantes apostas no NOS Primavera Sound, esta foi um acto falhado ao qual desistimos ao fim de 15 minutos. Tal não estraga, de modo algum, a toda a extraordinária vivência musical ao longo de 3 dias.

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Alejandro Ghersi conhecido como Arca – Créditos © Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Texto:
Edgar Silva

Fotos:
Hugo Lima // NOS Primavera Sound

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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