Marina em Cena: Um ritual de autenticidade da música brasileira

Marina Sena na estreia no Coliseu do Porto | mais fotos clicar aqui

Marina Sena, uma das principais vozes brasileiras da atualidade, apresentou-se no Coliseu do Porto no dia 24 de outubro para deixar registado o seu legado de originalidade, magnetismo e intensidade.

A cantora veio ao velho continente com a digressão ‘Coisas Naturais’, que leva o mesmo título de seu último álbum. Lançado em março de 2025, o álbum, como o nome sugere, evoca um certo retorno às raízes e remete à conexão interna e externa. Ao mergulhar nas crenças e nos sentimentos de Marina, o ouvinte é convidado a fazer o mesmo consigo. ‘Coisas Naturais’ é quase visceral, uma porta de entrada para a psique de Marina. Em termos freudianos, vemos e ouvimos nitidamente sua pulsão de vida em quase todas as canções e, como visto no último sábado, também em sua performance em palco.

Quando cheguei ao Coliseu do Porto, chamavam a atenção as filas e a quantidade de gente que foi prestigiá-la. Mesmo não sendo sua primeira vez em Portugal, o público que parecia já lhe ser fiel compareceu e fez-se notar. A noite já estava mais fresca, mas o frio não impediu que fãs da cantora fossem com roupas e adornos que remetiam à estética do álbum — certamente os looks haviam sido pensados e preparados para a ocasião. Era tanta gente a entrar que até suspeito que os trinta minutos de atraso tenham sido motivados por quem ainda chegava no horário previsto para o início. A sala foi enchendo aos poucos, até sobrarem poucos lugares. Uma playlist um tanto quanto diversa acompanhava a entrada do público, e era notável como a agitação da plateia aumentava. Talvez até por isso o volume da música tenha ficado cada vez mais alto.

Fãs muito fiéis apareceram para ouvir ‘Coisas Naturais’ | mais fotos clicar aqui

Eram quase 22h quando finalmente as luzes começaram a baixar e o ecrã anunciou o título “Coisas Naturais”. Na ansiedade que antecedia a entrada de Marina, a plateia gritava, vibrava e começava a sacar seus telemóveis para capturar o exato momento do início da performance. Antes de ela entrar, o público bradava “Marina! Marina!”, e confesso que é um tanto quanto engraçado ouvir o teu próprio nome a ser chamado por uma multidão. Quando a cantora surgiu em palco, ainda com as luzes baixas, os gritos tomaram conta da sala. Assim que Marina assumiu sua posição e o jogo de luzes começou, notou-se, em meio à euforia do público, a caracterização e a performance alusivas ao título do álbum. Seus movimentos, de certa forma repetitivos, acentuavam curvas e tinham um tom quase ritualístico. Mesmo sem nada exagerado, a performance já capturava a atenção de quem estava ali – a conexão começou a ser criada.

Marina iniciou o concerto com a canção “Meu Domínio”, num arranque de intensidade complexa: sua performance, sua voz, o entrosamento da banda e a intensidade com que os músicos tocavam cativaram a audiência. Era quase como assistir a um ritual e ver algum tipo de mágica acontecer. A faixa não está presente em nenhum dos álbuns já lançados pela cantora: foi incorporada à digressão do álbum atual e, ao que tudo indica, estará no próximo projeto de Marina. Sinto que a noite começou como um convite a experienciar o espetáculo pelos sentimentos — já era possível notar que acontecia algo difícil de explicar, mas fácil de sentir.

Marina Sena muito apelativa e expressiva | mais fotos clicar aqui

O concerto seguiu com “Numa Ilha” e “Coisas Naturais”, as duas primeiras canções do álbum. Conectadas à sua temática principal, as letras fazem alusão a elementos naturais em partes como “a sensação é de entrar no mar/o movimento igual a um rio que deságua” e “me levando para entrar no mar a noite adentro/se essa lua fosse minha, eu te levava amor/para orbitar a Terra enquanto me ama”. O público cantava em coro e, já nessa altura, quase ninguém permanecia sentado ou mesmo parado. Todos foram envolvidos por esse ritual e pela atmosfera magnética. Em sintonia com a proposta inicial do álbum, já era fácil perceber o quão cru e orgânico era todo o conjunto da ópera.

Na sequência, foi a vez de “Me Toca”, pertencente ao primeiro álbum solo de Marina. Foi também quando ela tirou o adorno da cabeça, desceu da plataforma onde estava e iniciou a primeira interação direta com a plateia. De forma contagiante e com um semblante enérgico, deu boa noite ao público, saudou-o e disse que queria muito conhecer-nos. A partir daí, passou a passear pelo palco, explorar os espaços e interagir com a banda e, cada vez mais, com sua audiência. À medida que músicas como “Pelejei” e “Combo da Sorte” energizavam a sala, a conexão entre a artista e quem estava ali aumentava — ou melhor, solidificava-se.

Um concerto com uma componente visual fortíssima | mais fotos clicar aqui

Marina Sena mostra-se uma artista completa: tem a voz e o magnetismo, potencializados por sua performance visceral e autêntica, emoldurada pela banda assertiva e pelo jogo de luzes que cativavam de vez a audiência. Nada ali pareceu forçado; é mesmo uma coisa natural da cantora. Esses elementos, naturais e não naturais, reforçavam a impressão de que Marina era alguma espécie de divindade, feiticeira ou entidade. Não tão simples de explicar, mas fácil de sentir. Para além da festa, havia um clima de celebração, admiração e apreciação.

Enquanto o setlist seguia com músicas como “Lua Cheia”, um novo elemento foi inserido no espetáculo: uma câmara, cujas imagens eram projetadas no ecrã ao fundo do palco. A impressão era de que a proposta colocava a audiência no lugar dela: Marina interagia com a lente — ou melhor, connosco — enquanto era acompanhada em seus movimentos pelo palco. O público sentia-se instigado pela novidade. Em certo ponto, as luzes voltaram a baixar e a cantora saiu de cena, enquanto a banda continuava a tocar algo que remetia a um som tropical. Ao regressar ao som de “Doçura”, retomou a performance para a plateia e a câmara, sustentando a intensidade e o vínculo estabelecidos até então. Antes de começar “Dano Sarrada”, vimos no ecrã principal um zoom num outro elemento: um homem que surgiu para atuar junto a Marina. Aos poucos, o enquadramento se abria num zoom out e começávamos a entender que a letra da canção fazia justamente esse convite ao olhar — romântico talvez — que a transformava numa star. Em determinado momento, ele se apoderou da câmara e tornou-se o dono desse olhar, compartilhado com o resto da audiência. Esses dois novos elementos permaneceram ao longo do concerto, aparecendo de maneiras diferentes — uma ideia que achei genial, já que aproximava ainda mais a plateia da cantora e, de certa forma, tornava o espetáculo interativo.

Noite de gala de Marina Sena | mais fotos clicar aqui

Com “Sensei”, a canção seguinte, o homem que havia surgido em cena continuou a interagir com Marina. Em “Pra Ficar Comigo”, foi ele quem ganhou destaque com a dança: um ballet contemporâneo misturado talvez com jazz, de movimentos que pareciam caóticos — como se dessem forma a algum sentimento interno. Pela primeira vez no concerto, tive a impressão de que Marina ficava em segundo plano. Enquanto ele dançava, deixava as pessoas extasiadas e completava a experiência que vínhamos vivendo até ali.

Depois da performance dinâmica, os ânimos se acalmaram com “Anjo”. Cantada quase em coro, a canção evidenciava o traço mais marcante da voz de Marina: o agudo leve e vibrante. Numa vibe à la Rita Lee, ainda dançante, ela voltou a passear pelo palco. Ao final, soltou um grito que lembrava uma guitarra arranhada e, enquanto o instrumento solava, foi até a percussão e encerrou tocando atabaque. A câmara, já não mais operada pelo dançarino, acompanhava seus movimentos. Nessa mesma energia, o repertório seguiu com “Carta de Maria”, feita em parceria com o cantor brasileiro Rubel. Os versos “eu nasci para viver/não para me salvar” e “o quanto que a gente é besta de esconder/tudo que é pecado, tudo que é fora de contrato” reforçam essa pulsão de vida que parece revelar, novamente em termos freudianos, um ID intensamente presente na cantora. É a sede de viver, construir e criar, sem amarras, preconceitos e prisões.

Os fãs presentearam a cantora brasileira com muita vibração | mais fotos clicar aqui

Após essa canção, Marina voltou a dirigir-se ao público e agradeceu a presença de todos. A plateia parecia estar com a energia além do limite: quando a cantora perguntou se havia brasileiros ali, houve uma grande reação; ao perguntar pelos portugueses, recebeu uma resposta igualmente alvoroçada. A data do concerto na Invicta foi um tanto quanto particular, tendo em vista que, no dia seguinte, seriam as eleições presidenciais do país de origem da cantora. Ela aproveitou a plataforma e o momento para ressaltar a importância de todos irem votar de forma consciente, visando um governo que ajudasse o Brasil a continuar se transformando da maneira que merece. De forma não ensaiada, Marina pediu que o “elemento câmara” focasse na bandeira de um dos partidos na disputa, que havia sido estendida. Toda a gente ali presente parecia concordar com seu posicionamento político e pareceu elevar mais ainda os ânimos.

Uma estreia feliz da brasileira no Coliseu portuense | mais fotos clicar aqui

O concerto seguiu com a tão famosa “Por Supuesto”, principal canção que deu destaque à sua carreira solo, seguida de “Voltei Pra Mim”, do mesmo álbum, e “Mágico”. Com a pista e as tribunas cheias, todos continuavam de pé, animados e a dançar. Após um breve momento de escuridão, Marina saiu e voltou ao palco descalça, a interpretar — ou incorporar — alguma divindade ou entidade. Seus movimentos e sua performance instigavam toda a gente e, quando o público reconheceu a próxima música, o Coliseu quase veio abaixo. Durante “Carnaval”, o lugar virou um legítimo cenário dessa festa: serpentinas estouravam sobre o público, a agitação ia às alturas e referências à cultura popular brasileira apareceram em cena. Eu diria que a máscara e a dança do bailarino evocavam o papangu, folião mascarado tradicional do Carnaval de Bezerros, Pernambuco, região Nordeste do Brasil. Já o objeto que ele segurava parecia aludir ao pau de fita: um mastro com fitas coloridas presas ao longo do comprimento, também presentes no carnaval do Nordeste. De forma teatral e cenográfica, Marina trouxe um pouco dessa celebração, de que aparentemente todos ali presentes gostavam e se identificavam.

A artista está com muitos motivos para sorrir, está em alta | mais fotos clicar aqui

Por fim, Marina encerrou o repertório com “Desmistificar”, sem deixar a energia baixar. Ao longo da canção, interagia com o bailarino numa dança intensa e dinâmica. Novamente, parecia que estávamos a presenciar um ritual: ela “ordenava” que saíssemos do chão e nós, obedecendo, saltávamos. O concerto terminou como começou — instigante, com a energia de todos os presentes ainda mais elevada.

Marina Sena não deixou dúvidas de que é uma artista que vem, com êxito, construindo um legado e se colocando na história da música brasileira. De forma extremamente autêntica, fez do palco um espaço onde seu universo ganhou corpo e encontrou o público. Entre a voz, a dança e as referências à cultura popular, o que poderia ser apenas uma apresentação tornou-se uma experiência coletiva — um convite que aceitamos cantando, dançando e deixando-nos levar. Sinto que foi aí que a proposta de Coisas Naturais se revelou por inteiro: não apenas nas canções ou na estética, mas na conexão que se criou entre ela e nós. No Coliseu do Porto, Marina não se limitou a mostrar a sua sede de viver e criar; fez com que, por uma noite, participássemos dela.

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Marina Sena deu um concerto inesquecível | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Marina Florence Siqueira @ mahflorence (Instagram)

Fotografia:
– Leonor Costa @ leocsvisuals (Instagram)

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