Uma vénia ao regresso dos cavaleiros Dinamarqueses

image

Curiosamente, o nome Efterklang chegou-me aos ouvidos por um outro projeto dos quatro elementos, os Liima. Digo curiosamente, não só porque este apenas foi formado em 2014, em contraste com o ano de formação dos Efterklang, 2000, mas também porque a popularidade deste primeiro grupo é muito maior do que a dos os Liima – mais de 80 000 vs 14 000 gostos no Facebook.

Passava pouco das 21:30, hora precisa para o início do concerto dos portugueses First Breath After Coma sem atrasos, quando entrei pelo majestoso e já icónico símbolo da cidade do Porto, o Hard Club. Um dos primeiros membros a ser avistado foi Rasmus Stolberg, baixista da banda dinamarquesa, no merchandise a fazer os últimos preparativos para uma noite que acabaria por se tornar épica.

Na sala 1, já ia tocando uma das bandas mais em ascendência de Portugal, a qual é impossível de nos fartarmos de ver ao vivo apesar das inúmeras vezes que a vejamos. Os First Breath After Coma são uma das minhas bandas favoritas em terras de Camões, e, por isso, não podia ter pedido melhor 1ª parte. Em cima do palco estavam os 5 elementos exatamente em linha (ficando ainda mais perto do público) e acabando por me fazer imergir no mundo de ‘NU’, último álbum a ser editado pela banda de Leira. A faixa tocada de lés a lés, como Roberto Caetano, frontman da banda, esclareceu logo de início, soltou alguns aplausos, mas também alguns tons mais descontentes daqueles que queriam ouvir
os primórdios da banda.

image

Ver esta banda ao vivo é sempre intenso. Toda a paixão que cada elemento incute no seu dedilhar, no seu teclar, ou na sua voz, contagia cada um de nós, e isto fica ainda mais intenso com um jogo de luzes a perfurar aquelas silhuetas em contraluz, puxando-nos para cima do palco também.

É certo que foi a primeira vez que apanhei o ‘NU’ ao vivo, e é verdade que este álbum me deixou mais reticente com tudo o que conhecia da banda leiriense, mas isto ao vivo ganha uma dimensão, uma profundidade musical diferente. Arrastou-me, fez-me acompanhar e dançar ao movimento dos corpos dos 5 elementos em cada música, seguindo os BPMs meticulosamente como aconteceu em “Change”, “Heavy” ou em “Feathers and Wax”, esta última fazendo-me lembrar as malhas da banda Ratatat.

‘Nu’ é mais cru, é mais duro, e isso é transmitido ao vivo. Com muito reverb na voz, quase como um grito de revolta dado por muitos, com os strobes que iam violentamente cegando o público, e com a luz que entrava diretamente na retina, apenas se viam umas criaturas a dar tudo e a suar em cima do palco, e isso deixava-me feliz.

Depois do imenso turbilhão que até agora se tinha feito sentir por cima do palco, em “I Don’t Want Nobody” (faixa que termina o mais recente trabalho discográfico da banda e que concluiu o concerto do passado dia 24), o silêncio invadiu toda aquela sala, não se ouvia nada… E, em foco, estava Rui Gaspar, que dava voz a esta última. Todos os outros elementos se iam escondendo por dentro da escuridão, terminando o concerto por baixo de uma enorme chuva de aplausos.

image

Quando as luzes voltaram à sala 1 do HC, voltou a realidade com elas. As pessoas que se encontravam mais dispersas na sala foram-se juntando à frente, porque agora vinham os cavaleiros da Dinamarca.

Praticamente na hora combinada pelo Gig Club, os “7” elementos dos Efterklang (que em português, para os mais curiosos, significa reverberação) iam entrando pelo palco adentro
enchendo quase por completo aquela plataforma. Porquê as aspas? Porque a banda na verdade é formada por 3 elementos, Mads Brauer, Casper Clausen e Rasmus Stolberg, mas em atuações ao vivo a banda leva mais elementos: Siv Øyunn na bateria, Christian Balvig na guitarra, Tatu Rönkkö e ainda Indrė Jurgelevičiūtė no kantele (instrumento folclore finlandês).

Com todos os elementos já nos devidos lugares, era inevitável reparar no sorriso mais sincero e bonito que alguma vez tinha visto. Era de Casper Clausen, vocalista da banda.
Até acho que já escrevi sobre este sorriso numa reportagem sobre os Liima em Guimarães (reportagem aqui). Tudo isto para dizer que realmente era algo que não passa despercebido, não houvesse uma pessoa atrás de nós a dizer: “ele tem um riso demasiado pacífico”, e tinha.

image

No 1º capítulo do concerto (sim, teve mais do que uma parte) a banda tocou somente músicas do seu mais recente álbum, e um dos melhores deste ano de 2019: ‘Altid Sammen’. “Verden Forsvinder” deu o pontapé de saída, e aí foi tudo cantado na língua escandinava. Poderíamos até não estar a perceber nada, é verdade, mas sentíamos cada nota que era tocada, e isso foi sentido no olhar de quem nos rodeava.

Após Casper ter recordado a 1ª vez da banda naquele espaço, “foi há 6 anos atrás naquela sala ao lado” – a falar da sala 2 do HC – veio um dos momentos mais tocantes daquela primeira parte. “Vi er uendeling”, música pura e simples que leva toda a capacidade
vocal do vocalista ao de cima, e que, ao vivo, em nada perdeu.

Seguiram-se então “Unden ansight”, “I dine ojne” e “Havet lofter sig”, até ao maior momento de comunhão entre a banda e o público. “Hold mine hænder” começa a ser ouvida por entre o piano melancólico e repetitivo, quase a hipnotizar-me e levar-me com ele, até que Casper começa a cantar, e tudo volta à realidade. Sem medos, ele avança até à primeira linha da audiência e começa a cantar e a proferir cada palavra, como se estivéssemos a perceber. Mas sabem que mais? Isso não importou, pois, a certo momento, nós, o público, começámos a repetir cada palavra que dizia. Soou tão bem que emocionámos cada elemento daquela banda: “foi um dos momentos mais bonitos que já vi”,
“está aqui algum coro do Porto?”, “parece que estávamos ali no estádio do Porto”, dizia o frontman da banda dinamarquesa.

image

A banda fez assim a primeira “saída em falso”, por entre muitos aplausos e gritos. Foi o fim do 1ª capítulo.

Porque falamos em capítulos, perguntam vocês? Apercebi-me disso quando a banda voltou a entrar em palco e o vocalista disse “bem, agora vamos tocar umas mais antigas”. Assim que Casper disse isto, apercebi-me logo do que aí vinha. Eu e todas as pessoas presentes, que demostraram mais uma vez todo o amor pela banda.

“Alike”, faixa retirada de um dos álbuns mais badalados da banda, ‘Magic Chairs’, foi o
pontapé de saída do que seriam momentos de magia. Casper começou a aquecer, e já o seu casaco estava no chão, quando à frente dele se encontrava uma plateia a dançar, em contraste com o que o concerto teria sido até ali.

Seguiu-se um dos melhores momentos para mim, e possivelmente para todos os presentes. Bastou-me ouvir os primeiros acordes do piano para saber o que estava a chegar. A minha pele arrepiou-se e “Modern Drift” soltou-se pela sala adentro sem pedir licença. Depois, foi só deixar-nos ir pelo cantar em uníssono da banda e das centenas de pessoas que foram ao Hard Club naquela quinta-feira.

image

Quando achei que o concerto não poderia ganhar mais, eis que surge a minha favorita: “Cutting Ice To Snow”, faixa que termina o álbum ‘Parades’ de 2003. Casper pediu silêncio
nesta, e não é que na sala TODA, não se soltou um pio? Estávamos todos lá para aquilo, para nos entregarmos aos cavaleiros da Dinamarca e o silêncio ensurdecedor tomou-nos de assalto. Apenas ficámos ali especados a olhar para tal humilde figura.

Estávamos a revisitar os maiores êxitos da banda. Estávamos numa odisseia pelos álbuns dos Efterklang e o que se seguiu na lista foi ‘Piramida’ de 2013, e a sua lindíssima “Sedna”.  “Amanhã faz 15 anos que saiu o nosso primeiro álbum, e vamos festejá-lo ao tocar “Monopolist”“, disse o vocalista da banda, em referência ao álbum ‘Tripper’, em mais um dos muitos momentos comunicativos que teve, atravessando assim mais um trabalho discográfico da banda.

Tinha terminado o 2º capítulo, uma viagem pelos clássicos da banda, todos cantados em inglês, contrastando bem com o que teria sido o 1º capítulo desta história – músicas
apenas do seu ‘Altid Sammen’ e todas cantadas na língua materna da banda.

image

Após anunciada a chegada do final, com a banda toda alinhada e fazendo uma vénia a todos os presentes, eis que surge mais um encore. Este bem mais curto que o anterior, e apenas fechando a página que o 2º capítulo tinha deixado em aberto.

Eis que então começam as palmas bem ritmadas e o piano em constante loop da “Dreams Today”. Um final épico para um concerto com bem mais de 1h, mas não sem antes Casper
se ter virado mais uma vez para o público e ter rasgado elogios: “Nunca vimos tantas vozes a cantar, fizeram-nos sentir que eramos os U2”, disse em tom de brincadeira.

Este sim, seria o fim de um concerto que foi para além do imaginado. Após o término da banda em 2014, com direito a concerto de despedida e tudo, o grupo dinamarquês está de volta aos palcos melhor que nunca e com um reportório de fazer inveja.

Viajámos com os príncipes da Dinamarca na história de amor que eles próprios desenharam, e adorámos.

Vejam toda a foto-reportagem pela Cláudia Bandeira: aqui

image

Fotografia: Cláudia Bandeira

Texto: Luís Silva

Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.