Two Door Cinema Club: um regresso diferente a Portugal

Alex Trimble dos Two Door Cinema Club em destaque | mais fotos clicar aqui

Após um hiato de um ano e meio longe dos palcos e depois da sua última passagem pela Invicta, em 2023, os Two Door Cinema Club (TDCC) subiram pontualmente ao palco da Super Bock Arena, às 21h30 do dia 3 de junho para celebrar os 15 anos de lançamento do primeiro álbum, ‘Tourist History’.

Ditando a pontualidade e respeitando o alinhamento previsto, os Marquise deram início à noite às 20h30, antecedendo os TDCC. Ainda antes de a banda entrar em palco, era já visível uma montagem pensada para colocar todos os seus membros ao mesmo nível — até o kit de bateria, que evoca um pouco o estilo de Dave Grohl nos tempos de Nirvana, surgia posicionado lado a lado com os microfones e amplificadores dos instrumentos de corda. Bastava observar o palco para encontrar, numa certa perspetiva, um reflexo da própria banda e da sua sonoridade: pouca obviedade, contraste e uma composição que convida à reflexão sobre aquilo que se vê e ouve.

Mafalda Rodrigues dos Marquise | mais fotos clicar aqui

A banda portuense apresentou um repertório de seis canções. Era notável o contraste entre a voz leve, etérea e aguda de Mafalda Rodrigues e o som sujo, por vezes mais pesado, dos restantes instrumentos. Essa sonoridade dá corpo a letras que falam da cidade do Porto — também cenário de outras canções, como “Acordei Mal” —, ao mesmo tempo que percorrem emoções e transitam entre a doçura e a agressividade.

Ao longo do concerto, o contraste tornou-se ainda mais evidente nas misturas e experimentações musicais da banda: ouvia-se post-punk, atravessado por ecos do rock gótico de The Cure, traços de rock alternativo à la Yeah Yeah Yeahs e apontamentos de new wave. O resultado é uma sonoridade interessante e original, reforçada pelo fato de ser cantada em língua portuguesa. Com isso, os Marquise deixaram clara a sua identidade: a originalidade e a abertura à experimentação como alguns dos seus traços mais marcantes. Já perto do fim do concerto, o baterista Matias Ferreira agradeceu a presença de quem esteve a trabalhar na montagem do evento no dia 3 de junho — também marcado por uma greve geral em Portugal — e saudou ainda as pessoas da plateia que aderiram à paralisação.

Miguel Pereira dos Marquise | mais fotos clicar aqui

Após alguns minutos de intervalo entre as bandas, o qual foi aproveitado para finalizar a montagem do palco para os Two Door Cinema Club, a banda principal da noite deu início à sua performance. Com as luzes apagadas e um ambiente quase cinematográfico, a banda trouxe para o palco a sensação de estarmos num cinema antigo. Os ecrãs, as cores e os vídeos ajudaram a dar ainda mais força à performance. Logo no arranque, instalou-se um clima de nostalgia: ouvia-se uma voz, que parecia ser de um dos membros da banda, possivelmente retirada de uma entrevista, seguida de diferentes vozes a apresentá-los, como se estivessem a anunciar o início do concerto. Ao mesmo tempo, os ecrãs mostravam vídeos e imagens que pareciam revisitar diferentes momentos da história do grupo. Ao som de “Cigarretes in the Theatre”, os TDCC com energia deram início ao repertório.

Com o público ainda mais tímido, logo seguiram para “I can Talk” e logo mais e mais pessoas começaram a mexer-se e a dançar mais. Já na canção seguinte, “Come Back Home”, Alex Trimble (vocalista principal) começa a interação com o público. Após os anos longe de Portugal, diz sentir-se feliz em retornar e reencontrar o público português.

Alex Trimble dos Two Door Cinema Club | mais fotos clicar aqui

Apesar de já estarmos quase no verão, a quarta-feira teve um final de dia chuvoso e com algum frio. Talvez por isso, ou talvez pelo próprio ritmo do concerto, a plateia foi aquecendo à medida que o repertório avançava. Em palco, os mais de 15 anos de percurso da banda eram evidentes: todos pareciam seguros, confortáveis e muito à vontade no que estavam a fazer. Também me chamou a atenção a forma como os roadies e a equipa de palco acompanharam toda a atuação. Como os membros da banda trocam de instrumentos várias vezes, essa dinâmica podia facilmente tornar-se confusa, mas tudo decorreu com naturalidade e sem falhas — cada coisa parecia estar exatamente onde devia, no momento certo.

Em “Do You Want It All?” bastaram os primeiros ataques da bateria para o público começar a responder com mais entusiasmo. Ouviram-se gritos de animação e, pouco a pouco, mais pessoas nas arquibancadas começaram a dançar — a partir daí, a energia só cresceu. A banda seguiu então com “This Is the Life” e “New Houses”. Pelo meio, o baixista Kevin Baird arranhou um “obrigado!” e também puxou conversa com a plateia. Disse que aquele era um concerto especial, por ser o primeiro depois de um hiato de um ano e meio, e falou um pouco sobre o primeiro disco da banda, ‘Tourist History’, recordando como ainda eram muito novos, praticamente adolescentes, quando aquelas canções nasceram. Comentou ainda “New Houses” num momento que pareceu aproximar ainda mais banda e público. Talvez por isso, começaram a ver-se bandeiras da Irlanda erguidas na sala. Quando “Something Good Can Work” começou, antes mesmo de entrar a voz, a reação já era de grande entusiasmo. No final da música, a banda saiu ovacionada e deu lugar ao primeiro interlúdio.

Kevin Baird dos Two Door Cinema Club | mais fotos clicar aqui

O uso das luzes e dos ecrãs foi importante ao longo de todo o concerto, ajudando a marcar os diferentes momentos da apresentação. Nos interlúdios, as luzes apagavam-se; em cada canção, surgiam vídeos com cores e conteúdos distintos; e, nos momentos de maior interação com o público, a luz era lançada sobre a plateia. Foi precisamente isso que aconteceu em “Next Year” que, mal o riff começou, ouviram-se logo gritos de animação. A canção, de tom sentimental, fala sobre a frustração de não conseguir estar presente para quem se gosta, sobre a promessa de regressar e, acima de tudo, sobre a esperança da compreensão dessa ausência. Quando a luz cai sobre o público, é difícil não ler esse gesto como uma forma de comunicação silenciosa entre banda e plateia — seja como expressão dessa vontade de voltar e estar de novo connosco, seja como um convite à reflexão sobre a importância de estarmos presentes para quem nos é mais próximo.

Sam Halliday dos Two Door Cinema Club | mais fotos clicar aqui

Já em “Changing of the Seasons”, a ligação entre banda e público parecia plenamente estabelecida — mesmo nos momentos sem voz, os intervalos eram sempre preenchidos por palmas. A banda mostrava-se cada vez mais à vontade em palco, explorando bem o espaço, e até o baterista, mais recuado, procurava também alguma forma de interagir com a plateia. Mais adiante, em “Wonderful Life” e “Are You Ready?”, voltaram a trocar palavras com o público, e Kevin partilhou mais algumas histórias. Recordou a primeira vez que tocaram na Invicta e, nas suas palavras, aquilo tinha sido um “fucking disaster”: subiram ao palco às três da manhã, um horário que, segundo ele, não é propriamente ideal para tocar diante de uma plateia, e acabaram por não dar o melhor concerto. Ainda assim, mostrou-se feliz por ter regressado ao Porto com a oportunidade de, como disse, curar e recompor a relação da banda com a cidade — e, pelo que se viu, conseguiram-no com sucesso.

Visão completa da banda em palco | mais fotos clicar aqui

Após o segundo interlúdio, e já com os ecrãs a anunciarem o “Chapter Two: Finale”, entrámos na reta final do concerto. Sem que a banda precisasse de dar o primeiro passo, vieram logo as palmas e os gritos — o público estava claramente rendido. Esta segunda parte foi marcada por alguns dos maiores êxitos da banda, como “Undercover Martyn”, “Costume Party”, “You’re Not Stubborn” e “Eat That Up, It’s Good for You”, antes do grand finale com “What You Know”.

A energia manteve-se até ao fim: já eram poucas as pessoas que continuavam sentadas, e a banda seguia em constante diálogo com a plateia, que não largava as palmas — mesmo com copos de cerveja nas mãos, naquele momento, parecia mais importante fazer parte daquela troca. Assim que a última música terminou, a banda agradeceu e deixou a promessa de um regresso futuro. Saíram do palco ovacionados e deixaram atrás de si uma sala ainda elétrica, pronta para continuar a noite de véspera de feriado.

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Trio Two Door Cinema Club em destaque | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Marina Florence Siqueira @ mahflorence (Instagram)

Fotografia:
– Aitor Amorim @ torstudio (Instagram)

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