
Nesta última terça-feira, dia 2 de junho, Joshua Michael Tillman atuou como Father John Misty no Coliseu Ageas Porto tendo sido um regresso à Cidade Invicta depois da presença no Primavera Sound de 2018. Ao longo dos anos, mais especificamente desde 2012, o artista tem vindo frequentemente a Portugal, marcando sobretudo presença em festivais. Por isso, esta oportunidade de o ver em nome próprio afigurava-se mais do que excelente.
Para mim foi a terceira vez que o vi, a primeira dele a solo. A experiência foi exponencialmente melhor do que nos festivais NOS Primavera Sound de 2018 e Vodafone Paredes de Coura de 2019, nessas ocasiões já tinha sido incrível.
Em véspera de greve geral, com transportes públicos a serem afetados de véspera, eis que desloquei-me até ao centro do Porto de carro, normalmente faço a parte do percurso de comboio a partir da Trofa. Um pouco mais dispendioso é certo, felizmente uma chegada tranquila, sem grande trânsito pelo caminho graças à magia do GPS.
Já lá vamos ao desenvolvimento dessa performance do norte-americano…

Agora primeiramente ficam umas palavras para J.MYSTERY, o artista escolhido para fazer a primeira parte pela promotora responsável pelo concerto, a Everything Is New.
J.MYSTERY, é o projeto de Tiago Martins, um cantautor português oriundo de Penafiel. Apresentou-se em formato banda com mais quatro elementos: Gonçalo Salta na bateria, Miguel Campos no teclado, Luís Correia no baixo e Daniel Fonte na guitarra. J.MYSTERY além de utilizar a sua voz também tocou guitarra. Todos vestidos a rigor de negro.
A sala já estava muito bem composta pelo início desta primeira parte, a uma terça-feira, pleno dia laboral. Comunicada para as 20:30h, iniciou-se 3 minutos mais cedo e teve duração de 30 minutos.

Durante esse tempo pudemos apreciar o desempenho vocal de J.Mistery num registo de timbre grosso com uma profundidade sensual e bem agradável ao ouvido. A primeira interpretada foi “Everlasting Love”, um single incluído no EP ‘Grow in the Dark’ lançado em 2024. Deste registo discográfico também mostrou os temas “Better Days” e “Reverie”.
A apresentação foi deveras bastante agradável e o público reagiu de forma positiva a uma atuação que terminou com “Scars On My Heart” e “Change”. Como diria um amigo meu, é um “rock fofinho” com influências claras de pop.

À hora certíssima surgiu em palco Father John Misty com a sua entourage: uma banda completíssima de 7 elementos para tomarem conta de instrumentos como teclados, saxofone, bateria e guitarras. Uma entrada ao som de “Midnight Cowboy”, uma faixa de 1969 dos Ferrante & Teicher.
A razão para o músico norte-americano estar pela Europa para uma curta digressão é a apresentação do seu álbum ‘Mahashmashana’ cuja edição ocorreu em novembro de 2024. Das 8 faixas deste registo discográfico só a faixa “Summer’s Gone” não foi tocada. Uma setlist bem completa, mais extensa do que na noite anterior no concerto de Lisboa.

Com o fundo totalmente vermelho em “I Guess Time Just Makes Fools of Us All” tivemos uma entrada bem suave nestes primeiros 10 minutos. Em seguida surgiu “Mr. Tillman” e efetivamente foi muito bom muito bom voltar a vê-lo. Desta vez em espaço fechado e sem óculos escuros, sua imagem de marca.
Já sem o fundo encarnado, com a iluminação atrás da banda a tomar renovado destaque, com vários jogos de luzes apareceu “Nancy From Now On”. A partir desta terceira faixa o cenário foi bastante cinéfilo com rotação entre vermelhos e azuis com a tal instalação de luzes já referida a ganhar nova dinâmica.

Em “Being You” tivemos um tal silêncio e concentração do público que até deu para estremecer. Já em “Goodbye Mr. Blue” fomos brindados por esta arrepiante balada em que o vozeirão de Father John Misty destacou-se proeminentemente. Foi uma canção com uma pitada de sabor doce da Americana e dos Blues. Curiosamente o músico notabilizou-se como baterista dos Fleet Foxes antes de enveredar por uma carreira a solo.
Sucederam-se “When You’re Smiling and Astride Me” e “Chateau Lobby #4 (In C For Two Virgins)”, nesta última a primeira vez em que houve smartphones no ar de um modo mais significativo.
Tillman deambulou um pouco por toda a parte frontal do palco e fez contacto visual com a frontline por diversas vezes. Ele que não esteve demasiado comunicativo porém fez uma exceção, mais prolongada, para dizer que estava feliz pelo seu regresso e para contar uma história passada no Porto em que teve uma má refeição após estar faminto.

Em resposta a uma pessoa da audiência respondeu que “Não vim de tão longe para te desapontar”, esse fã pedia uma faixa em específico. Realmente o artista norte-americano e a sua competentíssima banda não desapontaram minimamente, bem pelo contrário.
Num recuo a 2022 ao álbum ‘Chloë and the Next 20th Century’ tivemos “Buddy’s Rendezvous” a que se seguiram duas mais recentes, nomeadamente, “Mental Health” e “Josh Tillman and the Accidental Dose”.
“Screamland” foi incrível e quando entra o saxofone a faixa ganha uma dimensão superior. Já durante “The Old Law” o vocalista ajoelha-se várias vezes e sente cada palavra que canta profundamente. “I’m Writing a Novel” e “So I’m Growing Old on Magic Mountain” deram continuidade em nota alta e a atuação em algum momento decaiu de nível.

“Real Love Baby” será, porventura, um dos temas mais conhecidos de Father John Misty e mereceu por parte dos fãs o tratamento correspondente com mais mais smartphones no ar e houve finalmente corpos dançantes. Antes do encore surgiu um dos momentos áureos da noite com “I Love You, Honeybear”.
Joshua, no regresso para este encerramento, fez questão ser muito bom estar de regresso. Esta parte foi a mais rockeira, ficou guardada para o encore de meia hora com 5 faixas interpretadas. A “Pure Comedy” sucedeu-se “The Payoff” e “She Cleans Up”.

A rendição total aconteceu com “Holy Shit” e o suave fecho teve lugar com “Mahashmashana”. A saída de palco por entre efusivas palmas de pé deu-se ao som de “I Hate to See You Go” de Ernest Tubb. Creio que o título deste tema já resume tudo.
Father John Misty e a sua banda proporcionaram durante mais de 2 horas uma performance notável. Muito mérito igualmente para o técnico de som pela forma impecável e incrível qualidade do som produzido, pelo nivelamento de todos os instrumentos utilizados.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui

Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Nuno Coelho @ nunomscoelho (Instagram)
