Uma sala, mil órbitas: os Travo e a noite em que fomos abduzidos no Porto

Gonçalo Ferreira, vocalista e guitarrista dos Travo | mais fotos clicar aquiOs Travo fizeram o verão chegar mais cedo a Portugal, aquecendo as experientes paredes do Plano B, na última quinta-feira, dia 30. O último dia de abril encerrou em grande, com os quatro bigodes mais psicadélicos de Braga. E os rapazes levaram a sério os pedidos do público, que ansiava por calor em meio aos ventos fortes da estonteante cidade do Porto.

Mas calma, que esta história merece ser contada com tempo. Voltemos ao início, quando as ruelas das Galerias de Paris já denunciavam que aquela noite não seria banal. Antes mesmo de chegar ao Plano B, ali ao lado, um encontro improvável: um Minion e o Super Mario abraçavam-se, animados, a celebrar o feriado do dia seguinte. A minha gargalhada ao ver a cena durou até à fila que começava a formar-se à porta, já composta por quem vinha ver os Travo.

Ao entrar no salão principal, uma batida disco recebia um público diverso, ansioso por descer as escadas até ao palco. Lá em baixo, o ambiente mudava de pele: soava aquele rock de Seattle, com Nirvana a ecoar nas colunas. Coincidência ou não, os Travo foram a primeira banda portuguesa a gravar uma sessão para a KEXP, reduto da cultura alternativa e uma das primeiras rádios a apresentar o grunge ao mundo.

Perspetiva dos Travo no Plano B | mais fotos clicar aqui

Na playlist que aquecia os motores, surge uma surpresa: “Crazy Town” dos Butterfly. E, de repente, estive numa viagem de mais de 20 anos no tempo. Era uma daquelas músicas que habitavam os CDs infinitos da minha pré-adolescência. No meio dessa memória, entram as quatro figuras mais aguardadas da noite. Do fundo do corredor até ao palco, entre aplausos e o vocalista a entoar os “gritinhos” de Butterfly, a banda instala-se.

Antes da primeira canção, mais precisamente às 22h37, ainda sob aplausos, um brinde entre os músicos antes de começar. E para quem chega agora aos Travo, vale dizer: cada elemento tem um lugar muito próprio e vê-los ao vivo, tão perto do palco, permite perceber isso com nitidez. São bons detalhes, alguns mais óbvios, outros nem tanto.

Começando pelo vocalista Gonçalo Ferreira, à esquerda: impossível não reparar nas sapatilhas, não pelo modelo, mas pelo ritmo frenético com que dançam nos pedais. Uma coreografia quase ritual, que envolve o corpo inteiro, acompanhada pelas expressões inconfundíveis e intensas enquanto canta. A guitarra, tocada alta, acima do umbigo, também chama a atenção – algures entre Johnny Cash e George Harrison. E nem é preciso falar das costeletas para perceber o estilo.

Gonçalo Carneiro, guitarrista dos Travo | mais fotos clicar aqui

Do lado oposto, o também guitarrista e também Gonçalo, mas de apelido Carneiro, assume o papel de comandante da nave. Logo na primeira música, somos sugados para um som denso e intergaláctico. Mais do que psicadelia, há foco e prazer no processo. Entre os riffs (também replicados com a boca) e manipulações digitais, é ele quem ajuda a dar forma à massa sonora que se expande pela sala.

A meio, um detalhe ganha protagonismo: o baixista, ao centro do palco (algo inédito para mim, ao menos, que me lembre). Sob luz direta, David Ferreira impõe-se. Em perfeita sintonia com os demais, é ele quem dita muitos dos movimentos, quase como uma coreografia partilhada. Por vezes sincronizados, por vezes autónomos, os gestos dos três instrumentos de cordas captam o olhar. Logo na segunda música, tocam em uníssono, com uma energia que faz lembrar The Who.

E numa banda onde ninguém passa despercebido, a luz tem também papel central. Mais do que criar ambiente, acompanha o pulso das batidas de Nuno Gonçalves, o baterista. Entre apagões súbitos e explosões de cor, há momentos em que, na escuridão, apenas se vislumbra o brilho dos pratos – cintilantes, vermelhos, azuis – como faróis rítmicos.

Nuno Gonçalves, o baterista dos Travo | mais fotos clicar aqui

Entre músicas, é também Nuno quem fala. Um “boa noite, Porto” a uma casa que já sentia saudades desde o concerto de novembro de 2025, na Casa da Música, ao lado dos MÁQUINA. E lá da bateria anuncia lançamentos por vir: um novo álbum, previsto para este outubro de 2026. O nome ainda está guardado. Por agora ainda é surpresa, mas tive a ousadia de lhes perguntar. (Eu já sei, aguardem!).

Além de diversas novidades, a noite nos rendeu também temas de ‘Astromorph God’ (2023), num equilíbrio entre rock clássico e uma abordagem moderna, eletrónica, cósmica, incisiva e nada ortodoxa.

E no meio disto tudo, salta à vista a mistura geracional. Entre moshs e saltos pouco contidos, cruzam-se All Stars gastas e sapatos bem engraxados de quem saiu diretamente do escritório. Afinal, que melhor forma de antecipar o Dia do Trabalhador? Camisas abotoadas abanam ao ritmo da música, como cabeças que dizem “sim”. Um desses espectadores segurava um vinil dos Travo debaixo do braço. Um detalhe pequeno, mas cheio de significado.

David Ferreira, o baixista dos Travo | mais fotos clicar aqui

Há algo de certo: o som dos Travo encontra ouvidos atentos, nada convencionais, independentemente do estilo de quem o escuta. Tudo encaixa. Diferentes gerações, diferentes formas de viver o concerto. Todas válidas!

No final, perante os pedidos de “mais uma”, Nuno lança o desafio: abrir “uma rodinha, assim, na amizade”. E do meio surge um “muito bom”, antecipando o caos organizado que viria a seguir. A bateria arranca. Pedais entram. Guitarras e baixo tomam conta. É “Turn to the Sun” a fechar. Os músicos trocam olhares, como se também eles dissessem que sim.

Ao lado, quase sou engolida pela “roda de pogo” (no Brasil, chamamos assim). Todos nesse grande círculo onde convivem punks enérgicos e espectadores mais discretos, todos unidos pelo mesmo impulso: celebrar. Do vizinho da minha amiga – um senhor já mais velho – ao artista com t-shirt do Banksy, ou ao jovem na frente do palco a tocar um teclado imaginário no ar, todos, sem exceção, foram levados nesta viagem. Eu incluída. Era psicadelia, sim – mas não só. Era mais. Muito mais!

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Gonçalo Ferreira, vocalista e guitarrista dos Travo | mais fotos clicar aqui

Texto:
– Ane Carolina Pacola @ ane.its.me (Instagram)

Fotografia:
– Simão Costa @ simaocsta (Instagram)

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