
O triciclo é um ciclo de concertos itinerante que percorre vários espaços do centro histórico de Barcelos com a melhor música nacional e internacional. Os workshops e showcases também se juntam a esta programação trimestral que se assume plural e de caráter educativo. O triciclo é ‘made in’ Barcelos, produzido em parceria com o município local.
Inserido no programa dos primeiros três meses de 2026 teve lugar uma atuação dos Evols no passado sábado, dia 7 de março, ocorrida no Theatro Gil Vicente. Esta é, decididamente, uma sala muito acolhedora e confortável. Definitivamente está no meu roteiro de salas a visitar de vez em quando. Foi a terceira vez que a visitei depois de ter marcado presença em concertos de Mary Ocher e Homem em Catarse no decurso de 2025. Não costumo visitar Barcelos com frequência por isso é um gosto redobrado que sinto sempre que calcorreio as bonitas ruas desta belíssima cidade minhota.

Este projeto Evols tem as suas origens em Vila do Conde, atualmente é um sexteto afirmativamente nortenho, tal como Pedro “Jimmy” Feio fez questão de frisar durante o concerto pois agora tem elementos do Porto, Guimarães, Barcelos e Águas Santas. Este é um projeto que não costuma dar muitos concertos. A oportunidade de vê-los numa sala fechada, com todas as condições acústicas ideias, afigurou-se brilhante. Afirmativamente aproveitei e desfrutei de um belo serão.
Do núcleo fundador dos Evols fazem ainda parte Carlos Lobo (guitarra), Vítor Santos (guitarra e voz) e França Gomes (guitarra) aos quais se juntaram no decurso dos anos: André Simão Reis para a bateria (ele que é membro dos Sensible Soccers) e entrou também Sérgio Bastos (sintetizadores), ele que faz parte do projeto Space Ensemble. Mais recentemente, para a gravação do último registo discográfico, juntou-se à “festa” Pedro “Jimmy” Feio para a função de baixista e de segunda voz, reconhecido facilmente do público geral por fazer parte dos Fugly.

Os Evols são veementes ao vivo. Já o tinha experienciado anteriormente no festival L’Agosto em Guimarães em 2025, no Vodafone Paredes de Coura em 2024 e no Suave Fest em Guimarães em 2021 (a primeira vez que os vi). Claro está, em nome próprio, a vibe da atuação é completamente divergente. Com responsabilidades acrescidas para a banda.
‘The Ephemeral’, editado no ano passado a 24 de outubro de 2025, trata-se do quarto longa duração dos Evols cuja edição esteve ao encargo da Black Train. Um registo discográfico em que se regista uma evolução positiva, seguindo um crescendo de maturação, dando continuidade ao construído até ao álbum ‘III’. A exploração sonora segue caminhos coesos em que os sintetizadores e o saxofone acrescentam camadas díspares com a própria vibração que cada um deles proporcionam.
Uma imagem fixa, associada ao último álbum, estava projetada na tela no fundo do palco. Com o arranque do concerto essa imagem deu lugar a uma intensa componente visual, durante os temas iam mudando. Foram projetados vídeos, uns com imagens reais outros com criações animadas, servindo de complemento aos diversos temas.

Jimmy fez as vozes de elementos que não puderam estar presentes e colaboraram no álbum: casos de Sara Macedo e Teresa Castro conhecida artisticamente como Calcutá, portanto ele foi a segunda voz. Neste concerto não foi possível igualmente escutar as passagens do saxofone, o que foi uma pena. Os riffs do saxofone de Rodrigo Amado estiveram também ausentes.
A mistura eclética de psicadelismo com rock, krautrock, funk e free jazz embutida em ‘The Ephemeral’ vive de maneira bem excitante ao vivo. As faixas todas foram interpretadas de forma esplendorosa. Não há aquele retoque aveludado do som do saxofone, em troca, ouvi com mais acuidade as guitarras. A banda consegue, na mesma, passar a intensidade pretendida sem precisar de reformular dramaticamente nada.

Foi mesmo o “caçula” desta formação nortenha a liderar as incursões vocais. Feio esteve bastante animado em palco e concentrado. Os restantes elementos demonstraram-se firmes e totalmente absortos nos seus desempenhos.
“Cops”, quiçá a faixa mais reconhecida da discografia da banda, foi logo a segunda tocada e soou belissimamente bem. Aliás ao logo de toda a performance essa foi uma tendência que se manteve tema após tema. Do álbum ‘III’ tocaram também “Father Death” e “Jungle”.
Camadas instrumentais bem refinadas e com uma intensidade dramática digna de um filme de autor são a “marca” sonora dos Evols, algo que senti em temas como “Money”, “Actress” ou “Euro Tragedy”. São todas novas canções incluídas em ‘The Ephemeral’. Nota superior para “Euro Tragedy”, uma das minhas preferidas, é a faixa que serviu de apresentação a este último disco, soou mesmo incrível.

A sala não registou lotação esgotada, esteve bem preenchida por um público adulto, sobretudo numa mescla etária os 30s e 50s. Pessoas conhecedoras e que focaram a sua atenção total durante os cerca de 75 minutos de duração desta performance.
Músicos não foram focados diretamente por focos de luz, houve a escolha de luzes mais cambaleantes com cores alternadas a pincelarem o palco. Em conjunto com o fumo criaram um ambiente mais místico e sombreado. Nota curiosa: dos seis elementos, três usaram chapéu.
A transição para o encore foi um pouco curiosa, algumas pessoas já estavam praticamente com as “malas feitas” prontas a abalar. Felizmente ninguém arredou pé, fora da sala, toda a gente reocupou os seus lugares para a última interpretação. “SOL” foi a cereja no “topo do bolo” (faixa rebatizada por Jimmy como “Sunshine”) de uma atuação bastante vigorosa e generosa por parte do sexteto Evols.
Uma oportunidade de os ver ao vivo não deve ser desperdiçada, fica aqui o recado em jeito de aviso.

Fica aqui um agradecimento ao Triciclo, especialmente ao Gonçalo Costa, pela simpatia e cedência das fotos oficiais.
Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Gonçalo Costa @ goncasoexplorador (Instagram)
