Allvenues: A quebrar fronteiras musicais entre o norte de Portugal e a Galiza | Entrevista

image

A plataforma ALLVENUES está a criar um circuito de pequenas salas de concertos entre cidades do norte de Portugal à Galiza. Agora, músicos e agentes de Portugal e Espanha têm a oportunidade de se conhecer, comunicar e cooperar através de uma ferramenta que além de centralizar informação, uniformiza linguagens e traz pontes a duas indústrias previamente independentes.

O ciclo de concertos ALLVENUES dá a oportunidade a músicos ibéricos de se apresentarem dos dois lados da fronteira e às salas e agentes, um espaço privilegiado para colaborar. Entre outubro e novembro, 24 concertos, em 11 salas de 10 cidades, trazem um festim de música que pretende unir o setor português e galego.

O ciclo desdobra-se em 4 circuitos mistos de salas portuguesas e espanholas:

  • No Circuito 1, TULIP (ES) e Tristany (PT) tocam a 7 de outubro no Maus Hábitos (Porto), no Mavy (Braga) no dia 8 e no Riquela (Santiago de Compostela) no dia 9. 
  • No Circuito 2, Conferência Inferno (PT) e crnds (ES) vão ao Karma (Pontevedra) no dia 21 de outubro, ao El Pueblo (Ourense) a 22, e ao Café Avenida (Fafe) no dia 23.
  • Já em novembro, o Circuito 3 conta com Império Pacífico (PT) e ELBA (ES), que estarão no Riquela (Santiago de Compostela) no dia 4, na Sala Radar (Vigo) no dia 5 e no GrETUA (Aveiro) no dia 6. 
  • Este ciclo fecha com o Circuito 4, a decorrer entre 18 e 20 de novembro com Evols (PT) e Mounqup (ES) na Sala Ruído (Ferrol), no Carmo’81 (Viseu) e no Maus Hábitos (Porto). 
image

Estivemos nos Maus Hábitos à conversa com Hugo Cunha, uma das cabeças por detrás deste projeto, e falou-nos um pouco do presente e do futuro da plataforma que, pretende quebrar fronteiras não só culturais mas também musicais.

Entrevista à Allveneus

headLiner: Allveneus foi criado em 2019 pela Macho
Alfa, a La Melona e os Maus Hábitos. Como surgiu esta sinergia?

Allvenues: O projeto nasce da ideia de ser necessário uma
maior ligação entre dois setores que atualmente funcionam de forma
independente, o setor da música em Portugal e o de Espanha. Surge então a
parceria entre essas duas entidades, a A Macho Alfa e a La Melona, que já tinham
desenvolvido projetos em conjunto, nomeadamente algumas apresentações do
Milhões de Festas na Galiza. A Allveneus surge num contexto de um
apoio/financiamento europeu, que era especificamente para apoiar pequenas salas
de concertos, e nós já tendo trabalhado com o Maus Hábitos, pareceu-nos que era,
e que realmente é, a sala de concertos mais relevante no norte de Portugal. A
partir dai desenvolvemos o projeto e em 2019 submetemo-lo e só um ano depois,
em plena pandemia, é que o projeto é apoiado.

headLiner: Criado/pensado em 2019, apanharam nos
primeiros meses logo o confinamento e o lockdown na cultura. Esse período que
efeito teve no lançamento do projeto?

Allvenues: O principal problema, e talvez até vantagem, de
estarmos numa pandemia, foi que de facto o lançamento deste projeto fica
revestido com um cariz de necessidade e de urgência ainda maior para um setor
que esteve obrigado a estar fechado. Por exemplo, o anúncio de concertos foi
feito mesmo antes de sabermos se realmente os poderíamos fazer. Fomos
acompanhando o processo e acreditamos que nos iam deixar fazer isto nesta
altura. É preciso também perceber que o projeto apoia diretamente as salas de
espetáculos, que para além de conferir uma ferramenta de trabalho para que elas
se articulem com os agentes da indústria da música, por outro lado o projeto
nesta fase apoia efetivamente as salas no sentido de produzir e programar este
ciclo de concertos.

image

headLiner: O que esperam alcançar com esta
parceria entre o norte de Portugal e de Espanha? Mobilizar o público português
para circuitos espanhóis e vice-versa? Mostrar artistas portugueses ao público
espanhol e vice-versa?

Allvenues: O principal objetivo é fazer com que as
bandas portuguesas e espanholas consigam facilmente marcar digressões
entre Portugal e Espanha, e que este processo não esteja bloqueado por falta de
conhecimentos entre as salas, dificuldades não só em idioma, mas também
“códigos” específicos do meio que são diferentes dos dois lados. Por vezes, um
mal-entendido num telefonema ou num email pode de facto levar com que as coisas
não andem para a frente e que não seja estabelecido uma relação de confiança.
No fundo este projeto traz uma ferramenta que nivela essas linguagens e essas
formas de estar e que traz para a mesa muitas informações/dados sobre cada uma
das salas, de forma que quando um programador/agente está à procura de uma sala
para a sua banda, saberá imediatamente qual a mais indicada. Por outro lado, ao
passar pelo movimento de bandas dos dois lados, pensamos também que poderá
levar a isso que dizias, as bandas começarem a ser mais conhecidas de um lado e
do outro da fronteira. Numa última instância, e talvez de uma forma esperançosa,
mas era este um dos objetivos, aumentar e potenciar esta pequena economia que
temos aqui de salas de concertos e fazer com que estas dinâmicas entre o norte
de Portugal e da Galiza consigam também ser atrativas como acontece na Europa
Central. Ou seja, queremos aproximar este ambiente periférico e aproximar
contextos ao que se passa em países e circuitos de concertos na Europa Central.

headLiner: Nas vossas redes salientam bem os vossos
números “8 bandas, 24 concertos, 11 salas e 10 cidades”. O que querem mostrar
com estes números? Estão a pensar em aumentar estes números?

Allvenues: O que queremos mostrar nesta fase é que o
projeto é abrangente, não é centrado numa única sala. Ao mostrar o número de
salas, de cidades é mesmo isso, que há um foco descentralizador no espírito do
projeto e que há um foco também de integração e de inclusão territorial. Temos
salas no litoral em Vigo e em Santiago de Compostela, mas também temos salas no
interior como em Ourense ou em Ferrol. É isso mesmo que queremos mostrar aqui,
mostrar às pessoas que o objetivo é que cada uma destas 11 salas seja encarada
ao mesmo nível como os Maus Hábitos. Também queremos mostrar que estes elevados
números de salas passaram por um processo de triagem de curadoria nossa, e no
qual todas ela tem elementos em comum de modo a fazer parte da plataforma para
o bem do circuito. Respondendo agora diretamente à tua pergunta, sim, no futuro
queremos aumentar esta rede e fazer disto uma coisa maior.

image

headLiner: Como é feita a “seleção” dos artistas que
passarão pelos diversos circuitos?

Allvenues: A escolha das bandas no fundo vem do nosso
trabalho como promotores culturais. Nós (A Macho Alfa) desde 2014 que já fazemos
a programação em salas de concertos deste género. As bandas se por um lado
devem representar o público que vai e que se interessa, ou seja, tem de certa
forma serem ecléticos, por outro lado também temos de albergar projetos cuja
estética e os contextos se integram em pequenas salas de concertos. A
programação foi feita em conjunto com estas 3 entidades, sabendo que em
Portugal é a A Macho Alfa encarregou-se pelos nomes portugueses e em Espanha a La
Melona
encarregou-se pelos nomes espanhóis.

headLiner: Depois de um programa formativo através de
workshops, de concertos, o que tem mais na calha para a programação cultural?

Allvenues: Não, neste momento o próximo passo será alargar
esta rede de salas, tentar acompanhar a utilização da plataforma por parte das
salas e dos agentes de forma que eles se habituem a usá-la de forma regular e autónoma.
Haverá ainda uma terceira fase de concertos, que usando a plataforma as salas
vão ser responsáveis por programar e organizar os concertos. O que se propõe
aqui é que as salas trabalhem em rede entre si ao invés de trabalharem num
sistema independente.

image
Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.