
A irreverência de Manel Cruz // © Hugo Sousa – gnration
“O aniversário do gnration volta a ser celebrado à moda antiga”, assim foi descrito e publicitado nas redes sociais o regresso ao gnration open day em formato presencial.
Aconteceu no passado sábado, dia 30 de abril, e viveu-se um ambiente muito idêntico a anos pré-pandemia.
Neste nono aniversário aquele espaço, outrora um quartel da GNR, voltou a celebrar o
seu aniversário com o habitual dia de atividades de entrada gratuita, somente
limitada à lotação fixada para os diversos espaços. Exposições e concertos de
artistas lusitanos e outros de várias nacionalidades estrangeiras marcaram o dia.
No que diz respeito ao que mais me interessa, vou abordar alguns dos concertos a que
assisti em Braga, neste que foi o meu regresso àquela casa de cultura e de
exploração das artes digitais. O programa musical teve inicio às 16 horas porém
a minha chegada à cidade dos arcebispos só aconteceu pouco antes do concerto
dos 17h. A essa hora, no palco caleidoscópio ao ar livre, teve inicio a apresentação do Ensemble Caleidoscópio. Já tinha assistido ao concerto de estreia deste projeto no Westway LAB em Guimarães. Esta apresentação bracarense foi a segunda vez que este grupo de 8 jovens minhotos tocou em conjunto de forma pública. Eles tiveram como orientador o conhecido artista multi-instrumentista Bruno Pernadas, ele que subiu ao palco para tocar vibrofone no tema que encerrou o concerto.

Catarina Gomes, uma das 8 pessoas dos Ensemble Caleidoscópio // © Hugo Sousa – gnration
Apesar do tempo bem quente, a fazer lembrar uma bela tarde de verão, esteve um bom
número de pessoas a assistir a essa performance. Embora afastadas da frente do palco a tentarem ficar em locais mais recatados, sem estarem a sofrer com o clima. Com o palco de frente para o sol os músicos foram protegidos por toldos e mesmo sem terem as condições mais confortáveis portaram-se bem e a atuação foi agradável, dentro do que tinha acontecido na Cidade-Berço pouco mais de duas semanas antes.
Rita Sampaio, teve a sua maior exposição pública como vocalista dos Grandfather’s House, realizou uma residência artística no gnration e aí criou o seu novo projeto
a solo Isa Leen. A première foi vista neste dia pelas 18h na sala blackbox. Regressei a este espaço mais de 2 anos depois da última vez. Vieram-me à memória boas sensações e
lembranças de excelentes concertos que lá vi como por exemplo de Cass Mccombs, dos Acid Mothers Temple ou de The Legendary Tigerman.
A entrada no ambiente escuro e fumarento da blackbox era já de si um momento de
preparação para o que aí vinha. Um pequeno atraso, terá eventualmente sido
propositado, para permitir às pessoas habituarem-se às condições. O concerto de
Isa Leen foi um misto de instalaçãocom performance musical no qual LED’s retangulares na vertical estiveram a funcionar sincronizados com as batidas. Logo nos primeiros minutos deram um fortíssimo impacto visual nos quais só se via a silhueta da Rita Sampaio. Os efeitos luminosos estiveram a cargo de Diogo Mendes.
Rita não esteve em palco sozinha, se bem que o foco total estava nela, teve o
suporte da DJ Catarina Silva numa espécie de plano de fundo.

Rita Sampaio como Isa Leen // © Hugo Sousa – gnration
Os temas apresentados são inéditos, as letras eram sobretudo em inglês, teve
também espaço para cantar em português e a voz esteve muitas vezes com reverb. Neste
projeto afasta-se do seu passado experienciando a criação de um som onde “bebe”
claramente da influência de géneros musicais como o Hip-Hop, do R&B e da
eletrónica.
Pelas dezenas de pessoas que foram saindo da sala no decurso do concerto,
definitivamente não agradou a todos os que tiverem curiosidade de ver e ouvir.
Achei uma estreia auspiciosa e que marca, categoricamente e mais uma vez, um novo
caminho de Rita Sampaio. Ela que tem somente 25 anos e já leva uma carreira musical de 10 anos.
A parte diurna foi concorrida porém teve uma menor afluência relativamente a 2018
e 2019. Já a parte noturna foi um “mar de gente”. Logo no reatar dos concertos
com Erika de Casier às 22 horas, o recinto já estava muito bem preenchido e que ainda ficou bem reforçado por volta da meia-noite para o concerto dos Pluto.
Erika de Casier, nascida em Portugal e com nacionalidade dinamarquesa já que foi para a Dinamarca com idade muito tenra, esteve em Braga pela primeira vez como a própria o confessou na parte inicial da sua performance. ‘Sensational’ o primeiro álbum que artista lançou com a conhecida editora 4AD foi o motivo que a trouxe a Portugal porém o seu trabalho discográfico ‘Essentials’ teve igualmente um generoso destaque.

Erika de Casier // © Hugo Sousa – gnration
Logo na abertura interpretou “Drama”, curiosamente a primeira faixa deste mais recente álbum, editado em maio de 2021. Ao terceiro tema, no caso “Busy”, começou a ouvir-se vindo da rua o som de um alarme. Foi um bocadinho irritante ter esse som de fundo… No final do tema a própria artista apercebeu-se e após uma ligeira pausa o alarme deixou de soar para gáudio de toda a gente. O concerto prosseguiu com “Insult Me”. Temas como “Good Time” e “Polite” não faltaram. A influência principal do R&B está claramente presente no seu som que é surpreendentemente aprazível e até naturalmente dançável.
Alguns temas de ‘Essentials’, disco de 2019, tais como “What U Wanna Do”, “Little Bit”, “Rainy”, “The Flow” e “Puppy Love” foram tocadas. “Puppy Love” foi inclusive a última interpretada. Erika de Casier esteve muito bem acompanhada por 3 músicos em palco, nesta atuação ocorrida ao ar livre. Uma performance suave, muito agradável e que aqueceu de forma bem simpática a noite que ia ficando um pouco fresca.

Ko Shin Moon em palco // © Hugo Sousa – gnration
A parte surpreendente da noite aconteceu no Piso 2 com os Ko Shin Moon. Esta dupla francesa, composta por Axel Moon e Niko Shin, mostraram-se muito felizes pela presença em Braga. O ambiente aqueceu e bem com o som deles, construído com claríssimas inspirações indianas e arábicas. Um cruzamento entre os sons mais modernos das batidas eletrónicas e dos sintetizadores com o som de instrumentos tradicionais
orientais de cordas. Original e totalmente dançável como foi fácil de comprovar
nesta noite na blackbox.
Uma espécie de aura mítica à volta de Manel Cruz, apresente-se ele, em nome próprio com banda e/ou a solo ou ainda com os seus coletivos históricos Ornatos Violeta e
Pluto é sempre sentida no ambiente no pré, durante e pós concertos. Mais uma vez, nesta apresentação bracarense assim foi.
A praça estava repleta à meia-noite e dezoito minutos, altura em que o concerto dos
Pluto teve o seu começo. Em palco Manel Cruz (voz e guitarra), Peixe (guitarra), Ruca Lacerda (bateria) e Eduardo Silva (baixo) não deixaram os seus ímpetos rockeiros por mãos alheias. Eles que regressaram aos palcos no passado mês de janeiro para tocarem na famosa festa de aniversário de Luís Salgado, programador do Maus Hábitos.

Pluto a agradecerem ao público // © Hugo Sousa – gnration
“Só mais um começo” foi a primeira a ser tocada. Ainda estavam a “aquecer motores” quando surgiram problemas técnicos com a guitarra de Manel Cruz no início da interpretação de “A Vida dos Outros”. Alguns minutos depois lá voltou tudo ao ritmo crescente, os ânimos da banda e do público não ficaram minimamente afetados.
O único álbum da discografia ‘Bom Dia’, foi obviamente explorado, do qual não faltaram temas como “Entre Nós”, “Sexo Mono” ou “O 2 Vem Sempre Depois”. Pelo meio houve tempo para temas novos como foi o caso de “Quadrado” e para Manel Cruz
ficar em tronco nu, algo que já é uma sua imagem de marca…
Não foi recusado o pedido do público e regressaram para o encore. Finalizaram esta
performance segura e animada com “Algo Teu” e “Líderes e Filhos”.
A minha noite findou aí porém a festa teve continuação os Stereoacid, acompanhados de João Lopes e Mingote no Café-Concerto Rum By Mavy.
Para mim foi mais uma vivência positiva nestes gnration open day e após esta minha terceira presença ficou mais reforçada a sensação de que é um evento ao qual terei sempre muito gosto em poder estar presente. Para a organização terá ficado a certeza que este dia é imprescindível para uma ligação mais estreita entre o espaço e a população
minhota.
Agradeço a cedência das fotos por parte do gnration em particular ao Ilídio Marques. Mais fotos podem ser visualizadas nas redes sociais do gnration.

Texto: Edgar Silva
Fotografia: © Hugo Sousa – gnration
