Shhh… Silêncio que Andy Shauf vai tocar

Andy Shauf, cantautor oriundo de Saskatchewan no Canadá | mais fotos clicar aqui

Noite fria, escura e de chuva que se fez sentir na passada segunda-feira, dia 30 de setembro, cenário perfeito para uma véspera de Halloween. Sob o céu apocalítico ergue-se perante nós o bonito edifício do M.Ou.Co com uma bela fachada de linhas bem definidas, minimalista a refletir de certo modo o concerto que iríamos assistir de Andy Shauf na sala subterrânea daquele hotel.

Entrando na sala de espetáculos de um dos espaços mais bonitos da cidade invicta, já resguardados do temporal que se vivia fora daquelas quatro paredes, já se ia ouvindo o dedilhar da convidada do cantor canadiano, a francesa Aure. Apenas com 1 EP editado apenas este ano, ‘Suddenly’, a artista apresenta em palco uma simplicidade delicada, fazendo sobressair a sua voz grave trazendo uma camada de emotividade a cada música que canta. Foi do outro lado do atlântico, no México, que a cantautora francesa começou o seu percurso musical. Então, na altura em que começou a escrever as suas músicas, a artista quis ser entendida pelos locais começou a escrever em espanhol. A versatilidade de Aure estendia-se até à língua inglesa como foi possível ouvir em ‘Suddenly’ ou ‘The Line’, não fugindo à sua língua materna o francês, como foi possível ouvir em ‘Dans la Plaine’. A artista conta-nos que sempre quis cantar noutros idiomas pois acredita que cada língua tem a sua própria narrativa, e a verdade é que em cada música que nos vai (en)cantando, essa narrativa era percetível apenas sentido a emoção com que Aure ia debitando as palavras. Foi uma noite dedicada á voz e guitarra, e na verdade não poderia ter começado de melhor forma.

Talvez pelo tempo que se fazia sentir lá fora, não sei, talvez, mas é certo que a sala para este primeiro concerto não fez jus ao que o artista tinha para nos dar. Isso começou a mudar com o concerto de Andy Shauf a aproximar-se com o relógio quase a bater nas 21:00h.

Andy Shauf teve na audiência muitos músicos lusitanos | mais fotos clicar aqui

No palco apenas munido de uma cadeira, uma pequena mesa e uma guitarra, fez desaparecer aquele ambiente chuvoso do exterior criando um momento bem quente e reconfortante dentro da acolhedora sala do M.Ou.Co.. As pessoas que anteriormente se distanciavam umas das outras de forma inconsciente, com o aproximar dos minutos iam cada vez se juntando mais perto do palco criando uma onda de calor humano.

As pessoas iam chegando às pingas formando uma plateia bem confortável para uma segunda-feira chuvosa. Pouco passava da hora marcada quando o canadiano Andy Shauf subiu ao palco arrancando as primeiras manifestações de amor da noite. O artista mesmo antes de soltar qualquer nota, logo se desresponsabilizou pela sua voz pois sentia-se um pouco doente. Logo a abrir, em “Jenny Come Home”, a voz inconfundível de Andy mostrou-se com pequenas dificuldades, tendo mesmo de parar para a hidratar com o chá que tinha trazido e pousado na tal pequena mesa. A verdade é que tal episódio não se repetiu, com o cantor a trazer o seu melhor falsete, imaculado, afinado e de certo modo irónico.

Andy Shauf no seu regresso a Portugal | mais fotos clicar aqui

O primeiro momento de burburinho que se fez sentir à nossa volta veio logo na segunda música com “Wasted on You”, primeira faixa do seu mais recente disco editado este ano, ‘Norm’ e uma das razões fortes que nos trouxe a este concerto, após a passagem do artista no festival de Paredes de Coura no longínquo ano de 2016. Trazendo para este concerto uma roupagem diferente às suas músicas, fazendo-se munir apenas da sua guitarra, tornou toda a noite um momento íntimo. Seguiu-se “Hallowen Store” do mesmo disco, viajando depois para 2020, até ao disco ‘The Neon Skyline’ com “Clove Cigarette”.

Muitas vezes com um tom de voz baixo, um dedilhar muito delicado, suave e quase inaudível, era possível ouvir-se o silêncio ensurdecedor que se fazia sentir na sala, parecendo por vezes que o artista nos sussurrava ao ouvido músicas como “Norm”, “Judy”, “Neon Skyline” ou “Paradise Cinema”. Dávamo-nos muitas vezes por nós de olhos fechados, quase como se tivéssemos a sós com Andy Shauf na sua sala de estar.

Andy Shauf no seu regresso a Portugal | mais fotos clicar aqui

Olhamos para o relógio de pulso e já tinham passado quase 60 minutos de concerto. Mesmo sabendo que o artista vinha apresentar-se a solo, tivemos o receio que ao vivo certos momentos poder-se-iam perder pela nudez de instrumentos, e que algumas músicas de certo modo poderiam perder toda musicalidade que Andy Shauf traz em estúdio, mas não. Toda essa musicalidade foi transmitida pela voz única do artista canadiano e pela simplicidade e harmonias inconfundíveis das suas músicas.

Setlist:

  • Jenny Come Home
  • Wasted on You
  • Halloween Store
  • Clove Cigarette
  • Norm
  • Judy
  • Neon Skyline
  • Paradise Cinema
  • Telephone
  • Covered in Dust
  • To You
  • Quite Like You
  • Satan
  • Changer

Encore

  •  Martha Sways

A organização deste concerto esteve a cargo da SON Estrella Galicia em parceria com o Mouco.

O conceito da SON Estrella Galicia alia música à marca de cerveja espanhola. Chegou a Portugal em 2021 depois de estabelecida uma parceria com o Mouco para a realização de concertos exclusivos. O primeiro evento teve concertos, na noite de 11 de novembro de 2021, dos dinamarqueses Efterklang e dos portugueses First Breath After Coma.

Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui

Andy Shauf num concerto proporcionado pela SON Estrella Galicia | mais fotos clicar aqui

Texto:
Luís Silva

Fotografia:
Nuno Coelho

Luís Aires Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Num quarto de uma residência universitária em Guimarães, criei em 2012 os primeiros acordes do headLiner. Nasceu da vontade de dar espaço a uma cena musical mais underground. Aqui, o BPM e os decibéis são secundários. Interessa-me a música em todo o seu espectro. Eu fico por aqui a ouvir e a escrever algumas palavras — umas com mais sentido do que outras.