
Matt Berninger e Aaron Dessner dos The National | mais fotos clicar aqui
Sábado, 8 de junho, dia #3 do Primavera Sound Porto e jornada final da edição de 2024. A grande expetativa, depois de ter conseguido repor minhas as energias, era perceber se o Palco Vodafone estaria devidamente operacional. Ao início da tarde deste sábado a organização, ao lançar uma tabela atualizada com os horários, deu-nos a boa notícia de que o palco estaria disponível e, ao mesmo tempo, outra má: o cancelamento de Ethel Cain por doença. Foi substituída pelo luso The Legendary Tigerman, não tinha atuado no dia anterior devido ao encerramento do Palco Vodafone.
A previsão climatérica não previa grande chuva para grande parte deste sábado, algo que acabou gorado pois choveu torrencialmente em grande porção das primeiras duas horas de concertos. Hoje em dia o tempo muda radicalmente e de forma extremamente rápida por isso temos de ter a capacidade de nos adaptarmos instantaneamente às condições de cada ocasião. Foi o que fiz.
Entrei no recinto do Primavera Sound Porto já muito perto das 16:30h e na minha agenda estava o concerto do Tiago Bettencourt que começava 5 minutos depois. Felizmente a calmaria no trânsito e a facilidade de estacionamento permitiram chegar a horas. Nem sempre é fácil.

Tiago Bettencourt em palco | mais fotos clicar aqui
Tiago Bettencourt é um artista de 44 anos já com vinte anos de carreira. Deu primeiro das vistas, na parte inicial deste século, fazendo parte da banda Toranja. Ainda têm memória disso? Daquele hit chamado “Carta” ?
A solo já lançou vários trabalhos discográficos e tem conseguido manter-se sempre em alta através da construção de um excelente repertório. Neste concerto no Parque da Cidade percorreu vários álbuns e tocou diversos temas bem conhecidos. Há que dizer: Tiago Bettencourt inaugurou o Palco Super Bock, neste último dia, em formato banda e em grande estilo!
Bettencourt foi, obviamente, bem acompanhado por músicos de reconhecida qualidade: Pedro Branco (guitarra), João Lencastre (bateria), João Hasselberg (guitarra) e João Bernardo (teclado).Todos eles fizeram jus à qualidade do trabalho de Tiago.

João Hasselberg em palco | mais fotos clicar aqui
O público desfrutou da atuação e de músicas como “Só Mais Uma Volta”, “Caminho de Volta” ou “Se Me Deixasses Ser” até ao momento em que a chuva começou a cair bem mais intensamente. Foi resistindo até aonde pôde, pena pois o concerto estava a ser bem entretido.
Desisti, aguentei até ao máximo que pude, para procurar abrigo pois não estava ainda devidamente equipado com o impermeável. Enquanto lá estive apreciei bastante e ainda ouvi outros temas incríveis como, por exemplo, “Trégua” e “Fachada”.
Já mais seco e melhor equipado para a invernia primaveral esperei pelo abrandamento da chuva, ia caindo de forma veementemente. A agenda levava-me aos Expresso Transatlântico e queria muito mesmo vê-los novamente depois da primeira vez ocorrida no Vodafone Paredes de Coura em 2023.

Gaspar Varela numa atuação memorável | Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Estavam a chegar as 17:40h e a chuva persistia. Ponderava comigo mesmo se iria arriscar ver o concerto ou ficar abrigado na tenda da imprensa. Felizmente é uma faculdade que nos assiste, nós que estávamos a fazer cobertura jornalística. Temos sempre boas condições para podermos fazer o nosso trabalho devidamente por excelência da organização a quem, desde já, agradecemos as facilidades.
Vesti o impermeável e a capa de temerário e lá segui rumo ao Palco Plenitude cheio de confiança e expetativa por uma atuação admirável. Realmente foi isso que pude presenciar, tal como muitas boas centenas de outros temerários. Todos resolvemos enfrentar a chuva de princípio até final.

Expresso Transatlântico numa atuação memorável | Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Gaspar Varela (guitarra portuguesa), Sebastião Varela (guitarra elétrica) e Rafael Matos (bateria) são os elementos do trio base e ao vivo contam com Tiago Martins (baixo), Zé Cruz (teclado e trompete) e um outro elemento na percussão.
No seguimento da abertura com “Primeira Rodada”, interpretaram “Porque Nada Tem Um Fim”, tema que ganhou há dias videoclipe gravado na Serra Da Estrela.
Fizeram questão de frisar, no arranque para “O Gangster” que é um tema dedicado aos Dead Combo. Até ao final, no qual improvisaram um bocado, tocaram temas como “Ressaca Bailada” e “Alfama, Texas”. Sempre em ritmo de expresso em alta velocidade a dança e o bailarico ia tomando conta de todos os corpos encharcados presentes na assistência.

Gaspar Varela em modo crowdsurf | Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Teve concerto de excelência por parte dos Expresso Transatlântico porém foi além disso,aqueles 45 minutos foram uma enorme comemoração. Foi um verdadeiro baile molhado, quase um concurso de t-shirt molhada. Perante a bonita e empenhada atuação dos Expresso Transatlântico com os irmãos Varela a tomarem a lide da situação sempre a puxarem pelo público. Estes não regatearam esforços e em simbiose fizemos um festão.
Para encerramento da pista de baile, Gaspar Varela desceu até à plateia, tirou a sua sweat sem mangas e fez crowdsurf. Um encerramento potente deixando a audiência a pedir mais. Quando assim é…
Após serpentear as poças de água na imensidão da plateia do Palco Porto posicionei-me para o concerto das Mannequin Pussy. Finalmente em Portugal depois dos concertos cancelados em novembro do ano passado no Maus Hábitos e na ZDB.

Mannequin Pussy em palco | mais fotos clicar aqui
Esta formação é composta por Marisa “Missy” Dabice (voz principal e guitarrista), Maxine Steen (guitarrista), Colins “Bear” Regisford (baixista) e Kaleen Reading (baterista).
Que figurona esta Marisa “Missy” Dabice, vocalista das Mannequin Pussy! Não pediu licença e trouxe toda a sua pujança, chegou mesmo para levar tudo à sua frente! A sua irreverência e falta de pudor deixaram-na à vontade, inclusive, para dar as suas opiniões de forma provocatória, nos intervalos dos temas. Ela que foi rodopiando de um lado para o outro enquanto fazia uso da sua voz em modo de “grito contra o mundo”. As ovações para “Missy” e por consequência para a banda foram plenamente merecidas pela sua brutal e contagiante energia punk rock.

Marisa “Missy” Dabice numa performance incansável | mais fotos clicar aqui
Esta vocalista conseguiu pôr imenso pessoal a gritar “pussy” a seu pedido, tudo com uma carga sexual inerente e cativada pela própria Marisa. Findada a atuação os últimos props foram dirigidos à banda desta maneira.
“Nothing Like”, “Control” e “Loud Bark” foram alguns dos temas os Mannequin Pussy escolheram e tocaram neste Primavera Sound Porto.
“I Got Heaven”, a faixa que dá título ao álbum mais recente, lançado em 1 de março último, foi tocada e efetivamente foi muito bom ouvir ao vivo alguns dos temas que fazem parte deste registo. No ecrã gigante, estava uma imagem com o nome da banda a fazer citação a este disco.

Marisa “Missy” Dabice, um furacão punk | mais fotos clicar aqui
“Romantic” foi o tema escolhido para fechar esta incrível estreia com toda a pujança. Valeu totalmente a comparência ao Palco Porto para esta atuação iniciada pelas 18:40h.
Em fase simultânea da Shellac Listening Party e atuação da cantora, compositora, multi-instrumentista e jovem produtora Soluna decidi que era a altura ideal para retemperar forças e jantar. O arranque de noite prometia ser fortíssimo.
Primeiro uns minutinhos com os Lisabö, formação que utiliza duas baterias para máximo impacto no som do post-rock.

Lisabö em palco | mais fotos clicar aqui
A plateia do Palco Super Bock estava bastante bem preenchida e notou-se a presença de muitos espanhóis para assistir ao concerto da banda proveniente País Basco espanhol. As câmaras não filmaram o concerto, os ecrãs laterais estavam desligados e o ecrã principal tinha uma imagem com a bandeira da Palestina.
The Legendary Tigerman, não tinha atuado no dia anterior devido ao encerramento do Palco Vodafone, emergiu neste sábado ao final da tarde no Palco Porto para preencher a slot deixada vaga pela norte-americana Hayden Anhedönia.

Paulo Furtado sempre magnifico | mais fotos clicar aqui
The Legendary Tigerman em versão trio com Paulo Furtado (voz e guitarra), Sara Badalo (voz e teclados) e Mike Ghost (bateria) deram uma lição de rock & roll ímpar como Furtado nos tem habituado com o seu projeto ao longo da sua incrível carreira.
Uma viagem pela sua discografia com passagens por discos menos recentes como o seu ‘Femina’ ou ‘Misfit’. Num registo bem diferente dos últimos concertos nos quais tem vindo a mostrar o seu mais recente álbum ‘ZEITGEIST’ cujas influências eletrónicas são bem notórias.
Por exemplo, do ‘Femina’ interpretaram “She’s a Hellcat”, na versão original com a voz de Peaches, neste registo portuense contou com um belo desempenho vocal de Sara Badalo. Como em outras faixas, diga-se em abono da verde.

Sara Badalo no seu estilo inconfundível | mais fotos clicar aqui
Já em “Motorcycle Boy”, durante a execução do tema, o videoclipe gravado no Japão foi passado no ecrã principal. Assim foi este concerto à boa maneira de The Legendary Tigerman, sempre muito agitado e dinâmico.
Um concerto bastante concorrido sendo que normalmente The Legendary Tigerman não defrauda as expetativas. Paulo Furtado é mesmo um rocker à moda antiga e merece muitos elogios.
Enchente das antigas na encosta mais reconhecida do Parque da Cidade do Porto para assistir aos Pulp, a banda de Jarvis Cocker, a mítica banda que vem dos tempos dos anos 80.

Jarvis Cocker dos Pulp numa atuação memorável | Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Jarvis é um antecedente do britpop porém atualmente encarna na sua pele muitos dos seus elementos misturando-a com a sua particular persona em palco. Para complementar alia ao ramalhete o seu timbre vocal bem especial. Realmente é um “animal” de palco “rockeiro” bastante experiente.
O cenário estava especificamente montado para a banda britânica com uma escadaria iluminada do tipo Led de todas as cores, durante o espetáculo provavelmente foram usadas mais cores do que aquelas que há no arco-íris… Foi mais um elemento visualmente fortíssimo a contribuir para o desempenho brutal dos Pulp. Certo é que luzes mais viradas para fora do palco dificultaram a vida para conseguir ver os músicos em palco, excetuando Jarvis. Isto de um ponto mais afastado da estrutura, como pude comprovar de vários ângulos.
Jarvis Cocker soube, a todos os momentos, cativar a audiência com os seus interlúdios comunicativos e até arriscou a falar um pouquinho de português. Para quem não é fluente na nossa língua safou-se de forma bastante positiva. Ele que confessou gostar muito do Parque da Cidade.

Jarvis Cocker e os Pulp numa atuação incrível | Foto oficial Primavera Sound Porto @ Hugo Lima – www.fb.me/hugolimaphotography
Antes de ser interpretado o tema “Do You Remember the First Time?” o frontman de 60 anos Jarvis questionou os fãs quem é que tinha estado na 1ª vez da banda em Portugal no festival Festival Imperial. Alguns respondiam que sim e Cocker retorquia,“tu és muito novo, não tens idade para lá ter estado”. Este Festival Imperial aconteceu em 1998 no apelidado “rockódromo das antas” e não 1996 como Jarvis erroneamente referiu.
Os Pulp executaram vários dos seus temas mais reconhecidos como “Babies”, “This Is Hardcore” ou “Something Changed”. A mítica “Common People” foi a última de três tocadas no encore.
Nota extremamente positiva para a segunda atuação de sempre dos Pulp em Portugal.
Vigésimo segundo, sim, já foram 22 concertos em Portugal contando já com o realizado neste Primavera Sound Porto de 2024. Ainda nem 12 meses passaram depois de atuações em Lisboa e no Porto e os The National já por cá estiveram outra vez. Para mim, foi a 3ª vez, anteriormente vi-os ao vivo no Festival Manta em Guimarães corria o ano de 2008 e no Vodafone Paredes de Coura em 2018.

Aaron Dessner dos The National | mais fotos clicar aqui
Algumas pessoas poderão pensar que são já excessivas atuações no nosso país porém posso garantir, do meu ponto de vista e pelo que me tenho apercebido, que esta fortíssima ligação umbilical entre o nosso país, os fãs portugueses e os The National está mais forte que nunca e irá durar infinitamente…
A prova disto foi sentida e vivida com intenso fervor na última atuação no Palco Porto nesta edição de 2024 do Primavera do Porto proporcionada por estes maravilhosos The National.
O ambiente começou fervilhar minutos antes das 23:30h quando surgiram imagens, no principal ecrã gigante, dos elementos da banda no backstage em modo de espera. Entrada essa feita ao som de “Slippery People” dos Talking Heads.

Matt Berninger dos The National | mais fotos clicar aqui
Antes de “Don’t Swallow the Cap” (4ª tema interpretado), o vocalista pergunta, de modo exclamativo “Sabem o quão bonita é a vossa cidade?”. Há uma enorme admiração por parte dos elementos dos The National pela cidade do Porto a qual têm visitado recorrentemente ao longo dos anos. Efetivamente estavam felizes pelo regresso.
Os fãs desta formação norte-americana cuja carreira teve início em 1999 já se estendem por várias gerações. Nesta atuação foi encantador ver pais com os seus filhos, alguns dos quais em idade adolescente e também eles conhecedores das canções. Ainda assim uma generosa parte da assistência estava em faixas etárias 30/40 e 40/50 anos.

Ambiente na primeira fila dos The National | mais fotos clicar aqui
À quinta canção, “Bloodbuzz Ohio”, surgiu o primeiro momento de coro em comunhão total. Para logo na seguinte, “The System Only Dreams in Total Darkness”, ser a primeira loucura da noite de interação aonde o irrequieto Matt Berninger desceu até junto do gradeamento e cumprimentar os fãs. Algo que aconteceu várias vezes, inclusive, em duas ocasiões saiu da zona do gradeamento para gáudio e espanto absoluto de todos.
Matt Berninger é um frontman bem particular e extrovertido. Vive os concertos de uma forma sui generis e não tem qualquer ponta de receio de “se dar aos fãs”. Aaron, Bryan, Bryce, Scott e Matt agradeceram diversas vezes pelo tanto carinho que sempre recebem em Portugal.

Matt Berninger dos The National | mais fotos clicar aqui
“We love Porto. We love Primavera” lá iam exclamando os membros da banda norte-americana. Certamente muitos terão pensado “nós também vos amamos”. O sentimento é genuinamente reciproco.
As faixas mais orelhudas e míticas como “I Need My Girl”, “Mistaken For Strangers” ou “Apartment Story” foram encaixadas numa fase bem pensada da setlist, quase a meio.
Em “Alien” uma canção sobre Chewbacca, como Matt disse de forma meio divertida. Se o público não estava ainda em “ponto de rebuçado” ficou após “Day I Die” e “Rylan”. A fase final do concerto estava a chegar e foi uma brutalidade ainda maior. “Graceless” e “Fake Empire” aceleraram os corações e em “Light Years” os telemóveis iluminaram o céu.

Bryan Dessner dos The National | mais fotos clicar aqui
No arranque para “Mr. November” houve um forte momento de cariz político com o elogio a Joe Biden e um impetuoso “Fuck Trump” de protesto contra o anterior presidente norte-americano. Fosse este concerto transmitido em direto na televisão norte-americana, ao invés da RTP2, provavelmente não teria tanta liberdade…
Para fecho de 2 horas de um fabuloso concerto ficou guardado um rendido e emocionante desempenho de “About Today” acompanhado por um coro precioso de vozes emanadas de todos os pontos da plateia.
About today what could I say? Só apetece dizer… Tempo volta atrás para as 23:30h deste sábado 8 de junho de 2024.

Matt Berninger dos The National | mais fotos clicar aqui
Mais uma vez o mau tempo assolou o Primavera Sound Porto porém houve mais nuvens negras além destas sobretudo aquelas que rodearam o encerramento do Palco Vodafone na sexta-feira. Já os cancelamentos por motivos logísticos das bandas ou por razões de saúde não se podem imputar à organização. Há que ter bom senso e dois dedos de testa a separar as situações.
Esta 11ª edição do Primavera Sound Porto contou com mais de 100 mil registos de entrada no Parque da Cidade.
Agora há que olhar com muita positividade, houve diversos momentos extraordinários como os concertos dos The National, dos Expresso Transatlântico, dos Pulp ou das The Last Dinner Party, por exemplo. Houve igualmente outros momentos muito bons como Lana Del Rey, Amyl and The Sniffers, American Football ou Tropical Fuck Storm.
Já há datas para o Primavera Sound Porto em 2025 vai acontecer nos dias: 12, 13 e 14 de junho.
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui

Ambiente em Mannequin Pussy | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
– Nuno Coelho
– Hugo Lima @ Primavera Sound Porto [fotos oficiais]
www.fb.me/hugolimaphotography
