Fidju Kitxora a “partir tudo” na estreia em Guimarães | Foto: Westway / Centro Cultural Vila Flor
Entre os recentes dias 9 e 14 de abril aconteceu o Westway LAB, LIVE, MEETING em Guimarães, nova nomenclatura para realçar a vertente tripla do evento, até ao ano passado apenas conhecido Westway LAB. LAB pelo significado da criação original artística, LIVE por causa das performances ao vivo e MEETING devido às conferências e encontros de stakeholders do universo da música. Este ano uma das novidades foi o “piscar o olho” à relação dinâmica, desde sempre essencial, do universo musical com o teatro e o cinema.
A minha tradição com este evento, desde 2018, costuma iniciar-se com a presença no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) para as atuações dos showcases dos artistas que estiveram residência artística nos dias anteriores, cerca de uma semana. Em 2025 a ligação ocorreu na passada quarta-feira, dia 9 de abril, porém de maneira bem diferente. A organização realizou um concerto de abertura, com entrada gratuita, realizado na Igreja de São Francisco. Naquele local religioso bem pertinho do centro de Guimarães e a poucos segundos do famigerado Tio Júlio atuou Tó Trips. Pese embora ter-se realizado às 19:30h, uma hora algo delicada a um dia laboral, a adesão de público foi significativa. Praticamente todos os lugares sentados estavam preenchidos.

Tó Trips na Igreja de São Francisco em Guimarães | Foto: Westway / Centro Cultural Vila Flor
As particularidades desta localização em conjugação com a acústica fenomenal possibilitaram um momento singular. Posso resumir numa expressão, foi um “fado à guitarra”. A performance do artista com os seus exímios acordes nas suas diversas guitarras foram respeitados ao máximo: o silêncio foi nota dominante durante cerca de 1 hora e 15 minutos. Apenas quebrado por palmas. A enorme atenção que o público lhe prestou, não tendo arredado pé, foi um sinal da espetacularidade da atuação.
Curiosamente Tó Trips ganhou o gosto pela guitarra por causa da sua mãe ter começado a tocar este instrumento na igreja. A guitarra andava lá por casa e o artista afeiçoou-se.
De forma natural, algumas das escolhas de Trips incidiram em temas acerca da religião, interpretou “Deus do Vento”, “Processo de uma Aparição” (versa sobre ter fé) e “Para Lá de Marrakesh”.
O álbum ‘Popular Jaguar’ de 2023 foi o foco principal da performance, outros temas interpretados, além dos já citados foram “Amor em Tempos Fodidos” (no qual o artista usou a palavra “lixados” ao referir-se ao tema) ou “Península dos Índios” só para citar mais dois.
Uma performance memorável, a qual apreciei bastante por causa do artista e devido ao seu enquadramento.
À noite passei pelo Café Concerto e assisti às atuações da noite com Luis Contrário + TEII A VISION e Nobre + Grimsøn. Os músicos proporcionaram, nas suas atuações, produções acabadas de serem criadas e tocaram-nas ao vivo pela primeira vez. São momentos sempre giros, sobretudo pela descoberta de artistas completamente desconhecidos: quer de nacionais quer dos forasteiros.

Nobre + Grimsøn numa das 4 atuações dos showcases das residências artísticas | Foto: Westway / Centro Cultural Vila Flor
Por motivos profissionais e pessoais não assisti, como pretendia, às performances dos showcases de quinta-feira, dia 10. A noite teve de ser reservada para recarregar forças e descansar bem para os dias seguintes.
Sexta – Noite 1 do Festival
Tal como gosto de fazer, quando é o início de um evento, foi altura para observar o recinto, a organização e as pessoas. Estava uma noite bastante pacifica no centro da cidade, o Vitória teve jogo em Barcelos às 20:15h, algo que terá certamente ajudado à calmaria.
Em 2025 a organização proporcionou diversas mudanças de palcos. Este ano o Teatro Jordão, à distância de 3 minutos a pé do Centro Cultural Vila Flor, entrou como nova localização e com dois palcos distintos. Dado que existia uma maior deslocação entre palcos os horários foram reajustados, esta foi outra das novidades.
A noite esteve bastante agradável, os dias anteriores estiveram bastante quentes, pese embora a temperatura tenha baixado imenso registava-se ainda um clima bem ameno. Noite primaveril, num dia de chuva miudinha, a saber aqueles doces dias de outono.

Emmy Curl num cenário muito colorido | Foto: João Lemos @ Revista Sound
A primeira atuação nesta noite inicial teve como interveniente Catarina Miranda, conhecida no meio artístico Emmy Curl. Agora com um maior reconhecimento público por ter participado do Festival da Canção este ano. A artista de Vila Real ocupou o Auditório do Teatro Jordão no único concerto realizado neste espaço na primeira noite. Entrou pouco depois das 21:20h, cinco minutos depois da hora prevista. Um atraso até positivo pois as pessoas entravam aos poucos e foi maneira da sala ficar mais composta logo de começo.
Emmy Curl focou a sua performance em ‘Pastoral’, álbum editado em 2024, tendo sido já merecedor de muitos elogios e alguns prémios. Com esta apresentação, a artista quis passar uma “mensagem de esperança para o mundo”, como referiu e por ter sido mãe.
Optou por não falar muito, devido ao tempo limitado, ganhando assim tempo para mostrar os temas mais recentes. “Chegada” foi o tema inicial de uma performance bastante colorida e multo visual com efeitos 3D por trás da workstation de Emmy Curl, na tela que fechava o espaço da boca de cena.

Emmy Curl a estrear o Westway Live em 2025 | Foto: Westway / Centro Cultural Vila Flor
As mais conhecidas deste último disco: “Mudança” e “Mirandum” (a última interpretada) foram momentos bonitos, dois registos essenciais. A ocasião mais interativa da noite aconteceu no arranque para “Botar Água na Vinha” em que Catarina pediu a ajuda do público. Com a sua batuta o público cantarolou“Será o que será, eu só quero botar água na vinha” e ela aproveitou para gravar um loop. Desde modo ficou bem-parecido à introdução da versão de disco deste tema.
Dada a utilização amiúde de efeitos, por diversas vezes, a voz de Emmy Curl ficou disfarçada e, pessoalmente, iria apreciar ouvir mais a sua voz na sua forma natural. Gostaria também, quiçá um dia porventura possa acontecer, ela formar uma banda e não usar tanto os recursos eletrónicos. Dito isto, em balanço final, a performance de Catarina Miranda foi agradável e visualmente impactante.
Em seguida foi vez de descermos até á garagem do Teatro Jordão, zona conhecida por ter salas de ensaios. Este espaço amplo também é utilizado, com alguma frequência, como espaço de concertos. Lana Gasparøtti foi a responsável pela estreia deste local no festival. Apresentou-se em versão trio com Sebastião na bateria e Tiago no baixo. Já Gasparøtti ficou responsável pela voz e teclados. A artista, além do seu trabalho a solo, colabora com vários artistas sendo também reconhecida por fazer parte da banda ao vivo de Pedro Mafama.

Lana Gasparøtti a fazer a sua estreia na Cidade Berço | Foto: João Lemos @ Revista Sound
Palco cheio de fumo na fase inicial, foi-se dissipando um tanto quanto lentamente. Gasparøtti aproveitou esta atuação para apresentar ‘Dimensions’, álbum de debute editado a 1 de março de 2024. A primeira interpretada foi “Goji” e a última “Mar”. Pelo meio escutamos “Feel” e “Something in my way”, o primeiro single de sempre lançado no decurso de 2023.
Aquando do arranque para a interpretação de “Dimensions”, um tema dedicado aos gatinhos, algo referido de forma bem curiosa e fofa por Lana.
As pinceladas das profundas influências de jazz estiveram bem percetíveis através dos acordes do teclado de Lana Gasparøtti. Ela que se mostrou visivelmente contente por estar a participar deste Westway Live tendo rubricado, com o generoso auxilio dos seus parceiros de palco, uma performance refrescante. Tive a minha primeira abordagem do seu repertório ao vivo e teve nota bem positiva.

Após uma pausa de alguns minutos a Nave do Teatro Jordão, assim apelidada pela organização recebeu a segunda atuação da noite naquele espaço pelas 23:21h. O público foi reentrando na garagem assim que se apercebeu que ia iniciar-se a atuação seguinte. Meio de repente apercebemo-nos de Martha Da’Ro aninhada e totalmente envolta no imenso fumo que pairava em palco. Ao seu lado teve o apoio de um teclista.
Da’Ro expressou-se em inglês por ser-lhe mais fácil para si e esteve bastante mexida em palco. A artista belga, com descendência angolana, é conhecida no seu país de origem também como atriz.
A sua vinda a Portugal deveu-se ao seu percurso musical tendo vindo apresentar o seu álbum ‘Philophobia’, o primeiro álbum cuja edição ocorreu em 2023. “Flesh” e “Mr Fear” foram dois dos temas que interpretou perante uma assistência atenta e colaborativa com Martha. As sonoridades da sua discografia assentam numa mistura de um alternativo rhythm and blues, com soul e trip hop. Não ficou registado no meu radar musical para memória futura…

Martha Da’Ro, outra das estreias na Cidade Berço | Foto: Westway / Centro Cultural Vila Flor
No decurso da fase final da performance de Martha Da’Ro decidi rumar pela avenida Dom Afonso Henriques acima até ao Centro Cultural Vila Flor. Necessitava de uma pausa e de refrescar a garganta. Já me tinham dado dicas que deveria não falhar a atuação seguinte.
Efetivamente, a atuação dos Fidju Kitxora terá sido o ponto alto de todo o festival, a meu ver. Por ser um projeto ainda muito recente e por ter poucas referências sobre o mesmo acabei por ser bastante surpreendido, algo que já não acontece amiúde…
Iniciada às 0:23h, já em plena Box do CCVF, os Fidju Kitxora entraram de fininho. Em palco três elementos distribuídos por bateria, caixa de ritmos/samples e guitarra/bateria elétrica. Na plateia estava o quarto e desconcertado elemento, a surpresa inicialmente escondida desta performance.
Com “Medley Terra” de Os Tubarões teve o arranque do concerto. De realçar, desde já, os medleys, samples e gravações sonoras que fazem parte do conjunto sonoro dos Fidju Kitxora. Proporcionam uma pitada adicional e bem condimentada ao seu repertório já de si bastante inovador em que ritmos africanos como o kuduro e o funaná são misturados com mais vigor do que os RPM máximos de uma batedeira da Moulinex. Realmente é muita intensidade junta.
Esta primeira jornada teve uma adesão de público um pouco menor do esperado, no entanto, foi no decurso deste projeto que se registou o pico de assistência.
Uma energia contagiante foi nota dominante desde o primeiro momento e que assentou rapidamente no final de “Lobu na sukuru”, o tema de abertura.
Por entre os muitos pés dançantes e deambulantes lá se ia destacando Manuel Molarinho dos Baleia Baleia Baleia praticamente na frontline. O caso não era mesmo para menos.
O quarto e desconcertado elemento vagueava pela plateia com um colete refletor mal aprumado e uma luzinha na mão apontada ao chão como procurasse algo perdido. Deixou ele também o público desorientado e curioso para ver o que ia sair dali. Era Lukanu Mpasi, um dançarino e performer, a fazer as delícias do público. Os olhares iam-se dividindo entre o palco e o seu ritmo frenético, quando finalmente “acordou” para a dança. Especialmente quando criou uma roda-viva tendo conseguido fazer com que vários elementos do público se juntassem a si com a mesma indómita vontade.
Em cima do palco a alegria e a concentração estavam em níveis elevados. Mpasi também juntou-se a eles em “Karlon Barela” e a intensidade continuou até final por entre temas como “Nadaver”.
Surpreendente, memorável e intenso assim foi o meu impacto inicial com os Fidju Kitxora. Certamente irei seguir a carreira deles e quererei repetir a experiência num futuro próximo.
Até à 1:15h, os atrasos no começo dos concertos (tendo em conta o previsto) variava entre 5 a 7 minutos, algo que não era propriamente um incómodo para o público. Tudo corria de um modo normal e do ponto de vista do espetador, as coisas iam-se desenrolando naturalmente.
À 1:15h terminou a atuação dos Fidju Kitxora e era a hora estimada para o concerto de Pongo. Dado que a Box do CCVF era também o local para o seu concerto previa-se uma transição mais demorada porém devido a problemas técnicos inesperados Pongo e a sua banda só subiram ao palco às 2:10h.
O público que foi esperando e resistindo lá foi aproveitando para sã convivência e para uns copos pelo meio. Felizmente este massivo atraso no arranque para a performance de Engrácia Domingos da Silva, de nome artístico Pongo, não desanimou a própria e os seus parceiros de palco nem quem pacientemente foi esperando pelo momento.
A primeira vez que tive a oportunidade de conhecer ao vivo as potencialidades desta artista, foi o ano passado no Festival Ponte D’Lima e curiosamente também nessa ocasião houve problemas técnicos.
A artista sabia que estava de regresso a Guimarães, confessava que não tinha recordação do ano e nem do sítio. Mesmo assim estava satisfeita pelo regresso. Efetivamente o regresso de Engrácia à Cidade Berço aconteceu 13 anos depois. Em 2012 atuou com os Buraka Som Sistema no Multiusos durante a semana de abertura da Capital Europeia da Cultura.

Pongo de regresso a Guimarães desta vez com o seu projeto a solo | Foto: Westway / Centro Cultural Vila Flor
Além de Pongo, estiveram em palco mais sete elementos, duas das quais dançarinas. Tatiana (baixo), Léo (bateria), Iuri (percussão) são alguns dos outros elementos que se demonstraram valiosos no apoio à vocalista angolana.
“Goolo” e “Pica” foram dois dos temas interpretados durante a fase inicial da performance. Desde cedo Pongo demonstrou-se muito comunicativa e enfática puxando todo o público para si e em nenhum momento deixando-o desligar-se da atuação. O público esperou e aguentou-se firme pelo momento, esteve da única forma possível (pese embora a hora e a longa jornada), mostrou-se forte, impulsivo e a desenrolar todas as “ganas” desfrutando da atuação.
Exemplos da união: em “Kuzola” as lanternas dos smartphones ligaram-se a pedido da artista e em “Dudu” a artista incentivou as parelhas a juntarem-se para dançarem juntos tendo a plateia virado pista de dança. No mítico tema “Wegue Wegue” houve pessoas em palco e o concerto terminou já depois das 3h da madrugada com uma roda-viva emocionante.
Confesso que já estava com saudades destas andanças festivaleiras pese embora já não tenha o mesmo fulgor de outros tempos. O primeiro dia do festival Westway Live foi deveras desafiante para todos, especialmente para a organização.
NOTA: ARTIGO SERÁ ATUALIZADO EM BREVE COM MAIS FOTOS
Texto: Edgar Silva
Fotografia:
– Oficiais do Westway LAB / Centro Cultural Vila Flor
– Revista Sound por João Lemos @ joaooliveiralemos (Instagram)
