
Os Talking Heads dificilmente poderiam ser apelidados de uma banda jazz, porém, dentro do seu estilo bem próprio, David Byrne foi “cool” e brilhante para arrebatar o recinto do festival em Cascais. Um concerto memorável de um artista multifacetado que carrega amor em cada gesto. Teve lugar no passado dia 14 de julho, uma terça-feira, no Ageas Cooljazz.
Mas antes do veterano norte-americano largar a sua bicicleta e subir ao palco houve mais música. A estrear o palco Cascais Jazz Sessions tivemos os portuenses Bardino, que perante um modesto mas bem atento público despejaram a sua mistura bem interessante de jazz, electrónica, rock e tudo o que couber. Já com quatro álbuns na algibeira, foram uma escolha mais do que acertada para suavizar de forma eclética o início de noite ainda solarengo que acompanhou o arranque do dia.

E as honras de aquecer o Palco Ageas foram entregues a Bia Maria, que há muito que deixou de ser uma das mais promissoras artistas da música nacional, sendo já um dos valores mais fortes da pop alternativa contemporânea. Acompanhada de Luar na guitarra e Samuel Louro na bateria, Bia Maria não só aqueceu o palco: encantou com as suas canções doces, com um pé na música tradicional portuguesa e o outro em terrenos mais eletrónicos e modernos. Se por um lado a sua presença em palco é tímida, a sua actuação transpira sinceridade e a confiança de quem sabe muito bem o que está a fazer. Fã confessa de Byrne, agradeceu a oportunidade e saiu seguramente de Cascais com uma nova leva de ouvintes, fazendo o apelo de que toda a gente pode cantar, como explícita no tema “Qualquer um Pode Cantar”, do seu disco homónimo.

Com uma gravação voz-off a apresentar o músico e a leccionar as regras de conduta para a viagem sonora que se seguia, David Byrne e a sua extensa trupe de músicos finalmente subiu ao palco pouco depois das 22h30. A banda atuava como um único organismo, com os mesmos macacões em azul “Klein”, de modo que por vezes não era simples identificar onde parava David, equipado com o seu microfone “à Madonna” era totalmente móvel para permitir dançar por todo o palco. A ausência de bateria surpreendentemente cria uma experiência de coletividade, na qual Byrne não se coloca como um líder em seu próprio show, mas como parte da coreografia que vem sendo aprimorada desde a experiência com o musical da Broadway “American Utopia”.
Com o tema “Heaven”, de Talking Heads, retirado de ‘Fear of Music’ de 1979, a iniciar a descolagem para o universo de David Byrne, rapidamente se entendeu que estávamos diante de um verdadeiro espetáculo audiovisual. A projecção espacial na qual os músicos se imaginam, e nos fazem imaginá-los, como astronautas na superfície da lua, vendo aos poucos a Terra se revelar. Arranque perfeito, portanto. Sem pressa de apressar a sua lista de canções, de forma grata, David mostrou um pouco das fotos que tirou por Lisboa, incluindo a célebre bicla que o acompanhou até ao recinto, e até arriscou um simpático português.

O concerto seguiu-se em um misto equilibrado entre obras mais recentes, como “Everybody Laughs”, do álbum ‘Who is the Sky’, de 2025, “Strange Overtones”, um dos temas mais populares da sua colaboração com Brian Eno, ambas composições da carreira solo do artista, e clássicos com conotação de histórias. Byrne relembra a conversa que deu origem a um dos sucessos do álbum ‘Little Creatures’, “And She Was”. Uma menina, colega do secundário e, segundo ele, muito feliz, faz com que intrigado pergunte o segredo de tamanho contentamento. Ela revela a pacata rotina de deitar-se todos os dias na relva da abandonada zona industrial de Maryland para olhar o céu. E, claro, tomar LSD.
Foi um concerto homogéneo no qual o público notadamente se divertiu e dançou, conforme instruções claras do compositor. No entanto, notadamente as peças vindas da carreira com Talking Heads suscitam mais reações calorosas por parte do público, com destaque para o delicioso pós-apocalíptico “(Nothing but) Flowers”, de ‘Naked’, último álbum de estúdio gravado em 1988 pela banda. Destaque também para um daqueles temas que só por si chegariam para eternizar uma banda com “This Must Be the Place (Naive Melody)”, de ‘Speaking in Tongues’ (sério, há coisa mais linda do que “I’m just an animal looking for a home/and share the same space for a minute or two/and you love me ‘til my heart stops”?).

Por falar em público, falemos um pouco da disposição dos lugares no Palco Ageas. Combinando com a fama do concelho que Cascais goza, era difícil escapar ao leve sentimento que este é um festival feito a pensar num público mais maduro e, digamos, mais elitista. Talvez cerca de um quarto do verde relvado destinado ao público era ocupado por cadeiras, incluindo o já habitual Golden Circle mesmo em frente ao palco, o que acaba por segregar bastante o público, deixando os portadores do bilhete mais simples a uma distância considerável do mesmo.
Tempo para regressar a 2025 com “What is the reason for it?”, tema bem vistoso no qual David partilha os créditos vocais com Hayley Williams dos Paramore, e recuar 24 anos para resgatar “Like Humans Do”, de ‘Look Into the Eyeball’, tema bizarramente celebrizado pela sua inclusão no Windows Media Player do Windows XP. E já que falamos de Windows e de tecnologia do início de 2000, há uma vibe estética e artística fortemente sedimentada nessa época, sejam as cores vibrantes a relembrar a famosa campanha de marketing do iPod de 2003, sejam as canções do próprio autor a lembrar um certo optimismo e amor pelo próximo, que foram ficando escassas no meio quanto mais nos aproximamos do abismo existencial que é atravessar 2026. Após “When We Are Singing” também do ano passado, Byrne aproveitou “Independence Day” de ‘Rei Momo’, seu segundo álbum a solo de 1989, para ser mais político e falar de recentes expressões de liberdade, citando como exemplo os cânticos de 25 de Abril italianos durante a pandemia, para sublinhar que apesar de o mundo estar mergulhado em tanta podridão reacionária, que ainda existem muitos resistentes.

Já o relógio marcava sensivelmente as 23h30 e o início do sprint final, que como tiro de partida teve o bamboleante hino à loucura que é “Slippery People”, do já referido ‘Speaking in Tongues’, o tocante “Air” de ‘Fear of Music’, que David fez questão de referir que foi influenciada por um amigo ceifado pela sida, e que antecedeu talvez o tema mais esperado da noite: “Psycho Killer”, primeiro single dos Talking Heads e que David Byrne e restantes cabeças assinaram a ferro e fogo nos anais da pop e do rock, cujas ondas sonoras ainda hoje são presença assídua em qualquer bar rock. Para recuperar do abanão do pescoço causado, mais uma alusão à violência dos nossos tempos, com “Life During Wartime”, também de ‘Fear of Music’, exibindo imagens da atuação grotesca dos agentes da ICE da sua terra natal, antecedendo um dos pontos (ou talvez o ponto mais alto?) da noite com uma magnífica interpretação de “Once in a Lifetime”, banda sonora perfeita para uma qualquer crise de meia-idade.
Mais uma pequena introdução histórica ao penúltimo tema da noite, “Everybody ‘s Coming to My Houseouse”, composta para o ‘David Byrne’s American Distopia’, e que envolveu conhecer uma pessoa conservadora da igreja Baptista que o fez entender através da música que, apesar de todas as nossas diferenças, somos todos pessoas. De notar também a simplicidade do palco neste tema, com apenas uma luz de candeeiro central a iluminar a banda bem junta no centro do palco, referência ao histórico ‘Stop Making Sense’.

A fechar o concerto de 1h30 de duração, remate certeiro com outro dos singles mais icónicos da banda de David, “Burning Down the House”, do não menos icónico ‘Speaking with Tongues’, onde o contraste do palco todo a vermelho sangue e o azul elétrico dos músicos dificilmente poderia estar mais bonito, com os créditos apresentados em uma toada bastante cinematográfica. Um final bem adequado a um artista que continua, do alto dos seus 74 anos, a procurar unir as pessoas. Talvez seja um acto infrutífero, no entanto inspirador e, talvez uma das poucas formas de “viver durante tempos de guerra”. Meia-noite em ponto terminou um dos concertos mais bonitos que passaram este ano em solo português, e só resta rezar para que a saúde e vontade permitam a Byrne voltar a um sítio que também passou a ser dele.

Texto:
– Tiago Magalhães “Megas” @ tiagomegas (Instagram)
– Catarina Bruggemann @ bruggemann (Instagram)