Manel Cruz com os seus Ornatos Violeta | mais fotos clicar aqui
Ao regressar àqueles quatro dias que vivi em Vilar de Mouros, em agosto deste ano, continuo a sentir sentimentos contraditórios dentro de mim. Por um lado sinto uma enorme alegria e orgulho por ter tido a oportunidade de experienciar Vilar de Mouros e ter mergulhado naquele ambiente idílico. Por outro, sinto-me triste por Vilar de Mouros ter sido ignorado este ano, pelo público mas também por grande parte da comunicação social. Sei que esta edição não correu da melhor forma, o cancelamento dos Queens of the Stone Age (que nem sequer está em causa) acabou por condicionar a construção de um cartaz que ombreasse com as últimas edições do CA Vilar de Mouros.

Ambiente no interior do recinto | mais fotos clicar aqui
Ainda que não tivessem conseguido dois ou três headliners que deslumbrassem, conseguiram preparar um cartaz digno, com bandas lendárias que têm o nome escrito na história do universo rock. E, acreditem, tivemos atuações incríveis, só ao alcance dos mestres e que nos fizeram viajar ao longo das últimas quatro décadas da música rock! Depois de uma distância de mais de três semanas de festival, e numa opinião muito pessoal, não compreendo a razão da falta de empatia que se sentiu este ano com este evento mítico. Apesar de tudo, isto (continua) a ser Vilar de Mouros!
Dia 1 – quarta-feira, 21 de agosto
Cheguei a Vilar de Mouros cedo, ainda não tinham aberto as portas ao público. Quando chegamos ali, sentimos que entramos num local diferente, sentimos que ali já ocorreram momentos marcantes, marcos importantes na história da música e dos festivais em Portugal e é com um sorriso no rosto poder fazer parte desta história bonita. Sente-se também uma apreensão, quem por ali circula sente que não será uma edição com tanta gente como noutras edições passadas, muitas pessoas desistiram e nas redes sociais havia demasiado ruído e muita gente furiosa. Nem todos os dias são os melhores dias da nossa vida, mas só depende de nós, se o próximo dia será bom ou mau.

Fogo Frio, a banda da casa a abrir o festival | mais fotos clicar aqui
Este primeiro dia foi totalmente gratuito, uma novidade bem apreciada, e dedicado à música nacional. A abrir as hostilidades, esteve uma banda da casa, os Fogo Frio, uma nova banda de rock de Caminha e que se estreou ali mesmo, no palco principal do CA Vilar de Mouros. Verdade seja dita, nem se percebeu que era o primeiro grande concerto deste projeto, já que a prestação esteve a um bom nível, com muita entrega, energia e um som a condizer com o sol que brilhava ainda alto!
Os artistas que lhes seguiram, não precisam de grandes apresentações. São nomes bem firmados no panorama musical nacional, com carreiras sólidas e êxitos que todos nós sabemos de cor e salteado.

The Legendary Tigerman um dos nomes mais recorrentes nos grandes festivais nacionais | mais fotos clicar aqui
The Legendary Tigerman, proporciona sempre um estrondoso concerto, Paulo Furtado é uma lenda viva do rock n’ roll nacional que deixa a sua pele em palco, sempre! Atuou durante o crepúsculo e a acompanhar a magia da sua música veio a noite para embelezar o ambiente!
Seguiram-se os GNR que apenas precisam de ligar a eletricidade e libertar as canções que todos conhecem e cantam do princípio ao fim do concerto. O carismático Reininho reina sempre e dá aquele toque especial àquelas palavras saborosas.

Rui Reininho, o incrível vocalista dos GNR | mais fotos clicar aqui
O projeto Amália Hoje foi talvez o momento mais calmo e suave da noite, para não utilizar a palavra murcho. Um projeto que nasceu para celebrar a música de Amália e foi isso que levaram ao palco do CA Vilar de Mouros, a música eterna de Amália que atuou na mítica primeira edição deste festival, em 1971.

Sónia Tavares a dar voz ao imaginário de Amália Rodrigues | mais fotos clicar aqui
A fechar este primeiro dia do festival, que teve uma assistência bem composta, outro nome bem conhecido de todos, os Delfins. A celebrarem os 40 anos de existência, os Delfins protagonizaram, para minha surpresa, o momento alto deste primeiro dia. Acredito piamente que Vilar de Mouros é mesmo uma máquina do tempo e os Delfins usaram-na e não só regressaram ao passado, como trouxeram para o presente a rebeldia e energia de outros tempos, para criarem uma atuação com requinte, estética e, pasme-se, enérgica! Conquistaram o público, Vilar de Mouros e até os mais céticos, como eu.

Miguel Ângelo, Fernando Cunha e Rui Fadigas dos Delfins | mais fotos clicar aqui
Dia 2 – quinta-feira, 22 de agosto
Os planos para o arranque do segundo dia da edição 2024 do CA Vilar de Mouros eram bem diferentes do dia anterior. Se ontem viajamos entre a pop e o rock, neste as previsões eram para aumentar a distorção, erguer as mãos com chifres e iniciar as atividades de mosh pit. Este plano era para a primeira parte, na segunda voltaríamos ao rock!
Ficou a cargo da banda de culto R.A.M.P. a abertura das hostilidades deste segundo dia. Os seixalenses têm uma carreira construída a pulso e são uma referência no universo do trash metal em Portugal. Rui Duarte, o eterno vocalista da banda, transpira confiança e a idade não passa por ele, é o motor daquele veículo demolidor! Apesar da plateia não ser muito grande, quem ali estava não era “turista”, estava ali sim para curtir até às últimas consequências aquele momento duro e cru!

RAMP na abertura da jornada 2 | mais fotos clicar aqui
O dia segue, ainda com o sol a brilhar e um dos elementos da banda que ocupa o palco, já ali tinha estado estado na noite anterior. Falo de Fernando Ribeiro, cantou com os Amália Hoje no dia inicial com uma veste bem diferente, neste segundo dia atuou com o seu o seu projeto de sempre, os Moonspell. A multidão foi crescendo, o mosh pit intensificou-se e os Moonspell mostraram o porquê de serem a banda portuguesa de metal gótico de maior sucesso. Potência, paixão e lealdade pela música e pelos Moonspell foram o segredo do sucesso desta forte atuação.

Max Cavalera com os seus Soulfly | mais fotos clicar aqui
Continuando numa entoada mais pesada e com a multidão a crescer, é agora a vez dos Soulfly, projeto criado pelo lendário Max Cavalera. Tanto Max como os Soulfly escusam de muitas apresentações, tal a sua popularidade junto dos fãs e as suas atuações conseguem sempre juntar muita gente disponível para criar a energia e espiritualidade que esta banda gosta de sugar. Um momento com intensidade elevado e constantes mosh pits!
Se dúvidas houvesse de que os Xutos & Pontapés não conseguiriam converter uma plateia claramente metaleira em seus aliados, essas ficaram desfeitas na segunda noite do CA Vilar de Mouros. Os Xutos são uma força da natureza que contagia quem deles se aproxima e foi mais uma noite em que toda a gente, todos mesmo, cantaram a plenos pulmões as canções eternas dos Xutos. É bem verdade, “que falta sempre alguma coisa”, tal como disse Tim, mas onde quer que esteja o Zé Pedro, esteve toda a noite com o seu sorriso rasgado estampado no rosto!

Tim e Cabeleira dos Xutos & Pontapés | mais fotos clicar aqui
A fechar a noite em perfeição, tivemos os britânicos The Cult. Infelizmente, nunca tinha-me cruzado com os The Cult ao vivo e estava ansioso por este momento. É uma banda que teve bastante sucesso na segunda metade da década de 1980 e primeira de 1990 e teve uma influência relevante na minha história musical. Liderados pelo carismático vocalista Ian Astbury, começaram com uma atuação forte, com um público mais contemplativo do que interativo. Assim que o concerto foi avançando e os pedidos insistentes de partilha de energia de Ian, o ambiente começou a melhorar acabando em êxtase assim que a banda toca “She Sells Sanctuary”. Daqueles que já posso riscar da lista e que, ainda assim, quero repetir.
Dia 3 – sexta-feira, 23 de agosto
Ao terceiro dia, aventurei-me pelas margens do rio Coura, a ponte românica e toda a envolvente que circunda o recinto do festival. Pelo passeio, fui encontrando festivaleiros que, por ali, aproveitavam aqueles dias soalheiros. “No ano passado, a esta hora, já quase não se podia andar aqui, tal era a quantidade de gente. Este ano, está mais paradito”, partilhava comigo um festivaleiro que almoçava na margem do rio com um grupo de amigos. Contou-me ainda que todos os anos marcam presença em Vilar de Mouros, independentemente do cartaz, a magia e o ambiente que se vive neste lugar é diferente, é um lugar onde se sentem bem, confortáveis, felizes e, desde que haja saúde, ali estarão, todos os anos. Mais à frente, outros diziam-me que tiravam todos os anos uns dias de férias por esta altura para poderem usufruir de uns belos dias de sol, rio, natureza, convívio e muita música. Poucos, mas bons!

Ambiente no exterior do recinto | mais fotos clicar aqui
Voltando ao recinto e onde a ação musical decorre, o dia começava com mais um projeto da região, os Sulfur Giant. Esta é uma jovem banda de rock psicadélico/stoner oriunda de Viana dos Castelo com um álbum editado em 2016 na bagagem e depois do entusiasmante regresso a este palco gigante, podem ter aberto as portas de um futuro risonho. Ficaremos atentos!
Os senhores que se seguiram já por aqui haviam atuado e por cá regressaram. Com uma carreira bem firmada no panorama nacional, os Capitão Fausto trouxeram a banda sonora perfeita para este final de tarde de verão. As pessoas foram se juntado ao palco, saboreando os últimos raios de sol e a música que embala corações que saía dos altifalantes.

Sebastian Pringle dos Crystal Fighters | mais fotos clicar aqui
A noite trouxe mais gente ao recinto e os Crystal Fighters trouxeram a cor e o ritmo que faltava. O projeto britânico/espanhol tem tido uma presença assídua em território nacional, incluindo no CA Vilar de Mouros, e percebe-se que se sentem bem-vindos e em casa. Canções com refrões orelhudos e contagiantes “obrigam” a respeitável multidão a dançar e a saltar com um sorriso bem largo no rosto.
Este terceiro dia teve uma clara diminuição de público relativamente aos anteriores, ainda assim, quem tem Ornatos Violeta tem tudo! Foram um dos nomes que ajudaram a compor o recinto, a puxarem todos lá para a frente e a cantarem bem alto cada canção. Manel Cruz, o carismático líder da banda portuense, sabe bem como cativar a plateia e foi jogando todos os trunfos, canção a canção, refrão a refrão. Um daqueles momentos bons, para mais tarde recordar.

Os incontornáveis Ornatos Violeta | mais fotos clicar aqui
A fechar o terceiro dia, uma estreia em palcos nacionais, os sul-africanos Die Antwood. O início do concerto, foi toda uma encenação a criar suspense em que ali se encontrava, o palco todo de laranja, letras garrafais com o nome da banda, um som de arrepiar a espinha, e ninguém em palco. Assim que a dupla surge é o delírio em massa. Estava dado o mote para um concerto, no mínimo, explosivo. Uma estreia em cheio!
Dia 4 – sábado, 24 de agosto
Para o último dia estava reservado mais um serão de bom revivalismo com algumas velhas guardas do rock que comprovaram o velho ditado que diz, “o rock é como o vinho do Porto, quanto mais velho, melhor!”
Das cinzas, ou vapores, dos inconfundíveis Morphine nasceram os Vapors of Morphine. Após a desaparecimento do carismático Mark Sandman, os restantes membros, decidiram seguir em frente e, juntamente com o guitarrista Jeremy Lyons, criaram este projeto que mantém a linha de sonoridade daquele projeto. Em Vilar de Mouros, o saxofonista Dana Colley, o único membro fundador em palco, comandou este trio por uma viagem entre as nostálgicas canções dos Morphine e as novas criações do projeto. Belíssimo momento!

Um dos nomes mais criativos dos últimos 25 anos na música nacional: David Fonseca | mais fotos clicar aqui
Regressamos à música feita em Portugal através de um dos seus nomes incontornáveis, David Fonseca. O músico leiriense é, como diria Herman José, um verdadeiro artista. Ele compõe, canta, produz e cria espetáculos que impressionam, sempre com uma ideia e conceito cativante e belo. Neste CA Vilar de Mouros, onde já é repetente, partilhou amor e protagonizou um dos momentos altos da edição 2024 deste evento. David acerta sempre!
Já se sentia, pelo cansaço acumulado, que o fim desta edição do CA Vilar de Mouros estava perto. No entanto, ainda há muito boa música para ouvir. Um trio de bandas britânicas ficaram reservadas para fecharem com chave de ouro Vilar de Mouros 2024. Todas elas que marcaram gerações e possuidoras de grandes êxitos!
Os primeiros a atuar desse trio, foram The Waterboys, banda que criou muitos dos sucessos dos anos 1980, canções que atravessaram gerações e continuam a fazer-nos suspirar. Mestres do rock, verdadeiras lendas e, talvez, a atuação maior desta edição do CA Vilar de Mouros. E sim, tocaram “The Whole Of The Moon” para gáudio de todos nós!

O vocalista e guitarrista escocês Mike Scott dos The Waterboys | mais fotos clicar aqui
Na senda do rock britânico, agora um pouco mais sujo que os anteriores, tivemos The Libertines. A sujidade nem sempre é nefasta, quando aliada a garra e paixão pode transformar-se em algo sublime e The Libertines sabem-no muito bem. Uma atuação coesa, com a agressividade certa e a mostrarem que estão aí para durar.
A fechar este último dia e a edição 2024 do Vilar de Mouros, a cereja no topo do bolo britânico, The Darkness. Os responsáveis por trazerem o glam e o hard rock para os anos 2000, deram um espetáculo que ninguém quis perder uma pitada. Ninguém sequer pestanejou durante esta atuação. Entre saltos, solos infindáveis ou fazer o pino em palco, tudo serviu para Justin Hawkins e companhia, mostrarem a irreverência desta banda. The Darkness levaram a energia ao máximo e fecharam da melhor forma o CA Vilar de Mouros em 2024!

Justin Hawkins dos The Darkness | mais fotos clicar aqui
Como disse no início, o CA Vilar de Mouros teve concertos incríveis, onde o presente se juntou ao passado, viajamos aos dias de ontem e vivemo-los hoje. Vilar de Mouros é uma belíssima aldeia portuguesa, onde se realiza o mais antigo festival da península ibérica!
O festival regressa nos dias 21, 22 e 23 de agosto de 2025!
Isto é Vilar de Mouros!
Dia 1 – Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Fogo Frio
The Legendary Tigerman
GNR
Amália Hoje
Delfins

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RAMP
Moonspell
Soulfly
Xutos & Pontapés
The Cult

Dia 3 – Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Sulfur Giant
Capitão Fausto
Crystal Fighters
Ornatos Violeta
Die Antwoord

Dia 4 – Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Vapors of Morphine
David Fonseca
The Waterboys
The Libertines
The Darkness

Texto: Jorge Resende
Fotografia: Jorge Resende @ arroba75 (Instagram)
