
PAPAYA | Foto: João Octávio Peixoto
Estávamos no último dia do festival vimaranense Mucho Flow, os monstros musicais que tiveram uma aparição na noite de Halloween, parece que ficaram a pairar pela cidade de Guimarães, revelando-se uma vez mais nas diversas salas que acolheram estas criaturas.
Uma das criaturas que mais queríamos presenciar era Clarissa Connelly, que infelizmente no dia anterior tinha cancelado a sua presença na 11ª presença do Mucho Flow.
Sábado ~ 2 de Novembro
Assim, o bonito palco do Teatro Jordão apenas acolheu Bianca Scout. Entramos na sala escura, sendo praticamente impercetível os degraus que nos levou aos nossos assentos. A artista encontrava-se sozinha na imensa escuridão, apenas acompanhada de uma guitarra carregada de reverb. No centro tinha um set de touchpads e na outra ponta do palco, um piano de cauda.

Bianca Scout | Foto: João Octávio Peixoto
Quem olha para o seu mais recente disco, ‘Pattern Damage’, conseguia desvendar parte do que iria presenciar ali, não fosse Bianca Scout artista formada em dança contemporânea. Para a cima do palco traz toda essa valência cruzando a vertente musical com a vertente artística, oferecendo uma espetáculo avant-garde, imprevisível e delicado. A dark pop da artista foi encantando a sala muito bem composta, e acompanhada pelos seus movimentos que chegaram a entranhar-se público adentro, foi hipnotizando cada corpo presente.
Saímos do Teatro Jordão pesados, um pouco sonolentos até, após a experiência imersiva e de pura tranquila que Bianca Scoutt nos trouxe. À porta do bonito teatro, foram-se juntando centenas de pessoas que iam demonstrando esse mesmo agrado e leveza, outras iam ja descendo até à cave, para assistirem a uma mudança abrupta de registo.

PAPAYA | Foto: João Octávio Peixoto
Quem deu o mote para os altos decibéis, foi o regresso dos PAPAYA. A banda da casa, que regressa para editar o seu novo disco com nome, ‘Nove / IX’. O super trio formado pelo baterista Ricardo Martins, Óscar Silva de Jibóia no baixo, e Bráulio Amado, designer gráfico que tem colaborado com o Mucho Flow, nas vozes e na guitarra. A banda entrou a rasgar, ferindo alguns ouvidos desprotegidos, sendo visível em grande parte da plateia o uso do earplugs, algo que a cultura musical em Portugal está cada vez mais a ambientar-se. A narrativa em português sobreposta pelo punk, noise era definida pelas linhas de baixo certas a bateria incertas e tresloucadas, onde a guitarra coloria a cave com uma casa ainda a meio gás. Talvez porque seria um final de tarde/inicio onde a cena punk ia ser bem audível, muitas das centenas de pessoas que davam forma ao Mucho Flow, iam-se resguardando.
A banda que se seguiu não se contentou com menos e trouxe para cima do palco uma camada musical ainda mais estrondosa. A banda de quatro elementos vinda diretamente do Reino Unido, UNIVERSITY, veio com toda a pujança, fazendo a sua estreia em solo nacional, como não seria de esperar, no Mucho Flow. Ainda sem nenhum disco editado, a banda de hardcore e punk trouxe malhas como “Egypt Tune” ou “Notre Dame Made Out of Flesh”. A energia da banda não foi o suficiente para acender o rastilho de uma sala que se juntou para ouvir os jovens talentosos. Para isso não beneficiou o som estridente e caótico expelido pelas colunas devido à fraca acústica que a cave do Teatro Jordão tem, tornando-se por vezes quase impercetível qualquer palavra debitada Zak Bowker e cada riff tocado.

UNIVERSITY | Foto: João Octávio Peixoto
Fazendo lembrar musicalmente And So i Watch You From a Far com uma pitada de FILDAR, a energia jovem e rebelde bem característicos da cena punk de onde vem, a banda foi colocando estes pequenos percalços que são alheios de lado para uma performance consistente, deixando no ar como seria ver o quarteto num cenário em que os altos decibéis e vozes a arrebatar pelas costuras sejam bem percetíveis, e ai talvez verem uma sala a fervilhar.
Quem conseguiu de facto atiçar o tal rastilho independente da envolvência que tinham, foi a dupla que se seguiu. Não fosse o nome já explicativo por si só, Angry Blackmen fecharam esta dose de distorção ao máximo numa serie de bpms diferentes. O som até parecia mais alto que os concertos anteriores, e mesmo com os earplugs afogados nos nossos ouvidos a raiva expelida na voz e nos beats da dupla de Chicago era palpável. Acabamos de editar o muito bem cotado ‘The Legend of ABM’, o concerto de Quentin Branch e Brian Warren foi em crescendo de forma abrupta contagiando muito rapidamente a multidão que encheu praticamente o espaço de betão armado. Irrequietos, o duo sugou de cada um de nós a energia sendo bem visível ver toda a sala a saltar e e a arrebentar em moche ainda tinha o concerto praticamente começado. Interventivos, agressivos na forma como cuspiam as palavras agarrando pelos colarinhos cada rima que debitavam, as centenas de pessoas iam balançando ao som de músicas como ‘Stanley Kubrik’, ‘Sabotage’ ou ‘GRIND’.

Angry Blackmen | Foto: João Octávio Peixoto
Por entre corpos húmidos e quentes, deparamo-nos com um corpo corpulento bem suado a vir contra nós, percebemos então que a dupla já se encontrava dentro do vulcão em erupção, não impedindo ainda assim de pregar a sua mensagem anti-sistema e reflexões sobre a vivência de ser negro numa das sociedades mais conturbadas. A ligação entre os Angry Blackmen e o público era audível transformando aquele sinergia em gritos vindos de um lado do palco e do outro: “angry” … “blackmen”.
Estamos no final do ano, por isso é certo dizer que tínhamos assistido a um dos melhor e mais intensos concertos de 2024, e nem mesmo a tal acústica deficiente da sala, conseguiu mudar este rumo.
Tinham sido 3 concertos de distorção ao máximo, entre regressos, estreias e confirmações, tínhamos saído da cave do Teatro Jordão de barriga cheia.
Terminamos esta 11ª edição do Mucho Flow já no Centro Cultural de Vila Flor, com 33EMYBW acompanhada pelos visuais alucinogénios de Joey Holder, e um dos nomes mais esperados por muitos, a dupla Snow Strippers que abriu a pista de dança para o que a noite ainda tinha para oferecer.

33EMYBW and Joey Holder | Foto: João Octávio Peixoto
Texto: Luis Silva
Fotografia: João Octávio Peixoto – joctaviop (Instagram) // Fotos Oficiais Mucho Flow
