Margarida Campelo e a imensa alegria no supermercado das suas canções | Reportagem Completa

Margarida Campelo na sua estreia a solo em Braga // © Hugo Sousa – gnration
Essencialmente o nome e a pessoa de Margarida Campelo entrou no meu léxico musical por ser parte integrante da banda de Bruno Pernadas. Foi por causa disso que a vi várias vezes ao vivo como teclista e vocalista deste músico lisboeta. Aí habituei-me a ver uma artista concentrada, competente e um pouco exuberante. Assim o é, assumindo ela própria as despesas como artista com o seu próprio repertório. Assisti a isso no concerto do gnration em Braga ocorrido na passada sexta-feira à noite, dia 7 de dezembro. Sobre este concerto já lá regressamos novamente.
Margarida Campelo tem 35 anos e já uma longa vida profissional no cenário musical português. Ela já integrou vários projetos, o mais proeminente foi na banda de Bruno Pernadas, já tocou também com outros projetos bem conhecidos como: Cassete Pirata, Real Combo Lisbonense, Joana Espadinha, Julie & the Carjackers e Minta & the Brook Trout. Portanto experiência é coisa que tem num volume bastante volumoso, já com cerca de 15 anos de carreira. Por isso não é mesmo nada de estranhar que ela tenha arriscado em editar as suas próprias canções, em boa hora o fez. Margarida Campelo é cantora, compositora e multi-instrumentista.

Margarida Campelo por entre a sua parafernália de instrumentos // © Hugo Sousa – gnration
Editado em março de 2023 ‘Supermarket Joy’ conta com 13 originais e uma versão, tratando-se de uma das edições discográficas mais relevantes deste ano. Um álbum que teve o dedo clínico do mestre Bruno Pernadas na produção e participante como guitarrista. Contou igualmente com a preciosa ajuda de Ana Cláudia, Beatriz Pessoa e Francisca Cortesão nas letras. Um trabalho dedicado emocionalmente à sua mãe Isabel Campelo, pessoa que a induziu a percorrer alguns dos estilos musicais dos quais nos dias de hoje “bebe” influências para a sua vigente carreira a solo.
Esta inspiração musical manifesta-se num som com características óbvias de puro pop. O tom diferenciador surge quando à “panela de condimentos” são-lhe adicionados a dance music, o R&B e uns fortes rebites de jazz experimental.

Raquel Pimpão contribuiu no teclado e com a sua voz // © Hugo Sousa – gnration
Este trabalho discográfico foi o foco total deste concerto em Braga na Blackbox do gnration. Esta foi a primeira vez que tocou em nome próprio na Cidade dos Arcebispos. Veio acompanhada por banda, contou com o incrível suporte de Raquel Pimpão (teclado/voz), artista conhecida artisticamente como Femme Falafel; de João Correia (bateria), artista conhecido pelo seu projeto Tape Junk e por António Quintino (baixo). Este último colabora com diversos projetos e artistas: com os Cassete Pirata, com Tó Trips, com Samuel Úria só para citar alguns.
A sala principal do gnration registou uma audiência em número razoável, nesta estreia a solo, a artista lisboeta merecia uma casa bem mais composta. Esgotada mesmo. O público era composto maioritariamente por pessoas em faixas etárias acima dos 30 anos. Um dado curioso, sem dúvida.

Margarida Campelo sempre bastante dedicada à sua performance // © Hugo Sousa – gnration
Margarida surgiu em palco com um visual 100% aprumado e devidamente cuidado. Cabelo curtinho arranjado ao milímetro e com um vestido de gala cheio de lantejoulas. Ao centro do palco, rodeada pelos seus parceiros, fica com o merecido foco todo em si. O efeito funciona como afirmativamente tem de ser.
Com alguns momentos de improvisação, as primeiras quatro faixas tocadas seguiram o alinhamento do disco: “Maegaki”, “Physali Fit I”, “Physali Fit II” e “Deusa”. Foram o aquecimento ideal, quer para a banda como para o público.
Margarida esteve sempre com alto-astral, sorridente, bem-disposta e comunicativa. Partilhou sobre o processo de ‘Supermarket Joy’, revelou que tinha canções guardadas no computador há já vários anos e que inicialmente o disco estava pensado para ser totalmente em inglês. Com os temas feitos, faltavam as letras. À última hora fez-se luz e eis que surgiram letras irreverentes e muito catchy escritas em português com a significativa e criativa ajuda das suas amigas, referidas já neste texto.

Margarida Campelo em companhia de excelentes músicos // © Hugo Sousa – gnration
Ao 5º e 6º temas surgem os singles “Faz Faísca e Chavascal” e “Mapa Astral”, bastante estimados pelo público que não regateou o apreço traduzido por palmas bem vivas.
A balada em inglês “Love Will Never Be Enough“ não ficou de fora por ser demasiada bonita quebrando com a regra das letras em português foi interpretada assim como ‘Love Ballad’. Esta última uma versão dos norte-americanos L.T.D. datada originalmente de 1976.
Na entrada para “Aura de Panda” o aquecimento aconteceu entre a Margarida e as pessoas presentes, o público fez um bonito coro num mini ensaio antes de a banda tocar a música. Este foi um dos momentos áureos da atuação, performance esta muito bonita e desfrutada com a devida reverência por todos.

João Correia na bateria // © Hugo Sousa – gnration
As partilhas de Margarida não paravam, uma delas versou sobre a escolha do título ‘Supermarket Joy’. Ela adora supermercados, um lugar onde é feliz. Contou uma história em que foi apanhada a dançar ao escolher fruta. O Lidl está certamente em dívida de royalties com ela pelo número de vezes que referiu aquela empresa.
A outra revelação foi o esquecimento da letra na interpretação de um medley, numa atuação no Festival da Canção em 2017. A gravidade da situação ficou gravada para a posterioridade pois aconteceu em pleno direto televisivo. Foram histórias como esta que geraram gargalhadas e um nível híper elevado de alto-astral por entre todas as pessoas que decidiram marcar presença nesta sexta-feira friorenta e chuvosa. Em abono da verdade, não se pode considerar um esforço a escolha desta sexta-feira, valeu totalmente o preço do bilhete.

António Quintino no baixo e voz // © Hugo Sousa – gnration
Para encore ficaram guardadas duas canções, na primeira Margarida Campelo mostrou-se a solo com um tema novo sem título ainda decidido. Provavelmente ficará apelidada de “Beijo de Cabeça”. Para encerramento das “compras“ e antes de fazer o checkout houve ainda tempo para nova incursão no tema “Faz Faísca e Chavascal”.
Esta minha incursão ao centro de Braga revelou-se plenamente certeira. Foi um enorme gosto ouvir estas canções de ‘Supermarket Joy’. Trata-se de um dos melhores álbuns de 2023 e a audição na sua versão ao vivo só reforçou essa ideia.

Margarida Campelo em companhia de excelentes músicos // © Hugo Sousa – gnration
Texto: Edgar Silva
Fotografia: © Hugo Sousa – gnration
