Filipe Sambado a “distribuir beijinhos” | mais fotos clicar aqui
O L’Agosto, em 2025, regressou às suas origens, ao Museu de Alberto Sampaio. Este é, sem dúvida, o habitat natural deste festival. O mesmo teve lugar nos dias 1 e 2 de Agosto, fazendo jus ao nome da “marca”.
1 de agosto, sexta-feira
Para entrada, no primeiro dia, o festival serviu-nos André Henriques. Ele que na semana anterior fez de Guimarães a sua segunda casa, primeiro com Linda Martini no Rock no Rio Febras e, desta feita, a solo no L’Agosto.
André Henriques é, neste momento, um dos grandes compositores da nossa língua. Letras com o arrojo certo e com os relatos quotidianos que, facilmente, conseguimos aplicar em inúmeras situações do nosso dia-a-dia.

André Henriques com o seu projeto a solo | mais fotos clicar aqui
Mais do que a calibragem certa na criação dos seus temas, André, confidenciou que as músicas podem surgir de forma inesperada e natural, como foi o caso da letra do “Muro” que foi desbloqueada pelo seu pedreiro que lhe pediu uma lista com os materiais a comprar.
Um concerto intimista, mas que conteve investidas mais enérgicas em certos temas. Apresentou-se em tripla e, como habitual, fez-se acompanhar dos irmãos João Abelaira e Miguel Abelaira. Esta formação consegue entregar as melodias na dose certa.
Sempre com a sua delicadeza e forma ímpar de cantar, o concerto deambulou entre o ‘Cajarana’ e o seu mais recente trabalho ‘Leveza’. Temas breves, que se vestem de fato e gravata num formalismo elegante e numa simplicidade instrumental que tem tanto de simples como de complexa. Resta saber se o André Henriques para a semana volta a Guimarães, se voltar, será sempre bem recebido.
O único handicap do concerto foi o facto de a “De Tudo o Que Fugi” não ter feito parte do alinhamento.

Miguel Abelaira na bateria| mais fotos clicar aqui
De seguida, foi a vez do Filipe Sambado subir a palco. Curiosamente, apresentou-se com a mesma tática, numa estrutura de três pessoas.
Este foi, muito possivelmente, o concerto que mais me surpreendeu pela positiva na primeira noite do festival. A tripla: Joana Komorebi (bateria), Vera Vera-Cruz (baixo) e Filipe Sambado. De salientar, que nesta tripla ligada à corrente, o técnico de som era Miguel Gomes, conhecido das lides musicais por Chinaskee.
Este espetáculo foi tocado quase em modo non-stop, as músicas emparelhadas umas nas outras e, ao jeito da gíria de futebol: sem deixar cair e de primeira, fizeram deste concerto algo bastante consistente e intenso. Foram tocados temas como “Caderninho”, “Deixem Lá” e/ou “Beijinhos”. Ou seja, tivemos um pouco de todas as fases do Sambado. A “rouquidão” da guitarra e o grão do instrumental em certos temas contribuíram para que este concerto se afirmasse por si só.
Tudo culminou numa prestação que trouxe tonalidades expressivas e efusivas. É possível “rockar” a três, puxar pelos instrumentos, puxar pelas colunas e puxar dos copos para sermos servidos e brindados pelo sumo que o Sambado nos consegue dar. Muito bom!

Vera Vera-Cruz no baixo | mais fotos clicar aqui
A última banda da noite acabou por mudar ligeiramente a tática, coisas de Mourinho. Desta feita, os Party Dozen, apresentaram-se em duo e são eles: Jonathan Boulet e Kirsty Tickle.
Pela primeira vez em Portugal e, consequentemente, a fechar a tour europeia, o duo australiano, emergiu com uma tremenda hiperatividade sonora. O álbum acabado de sair, em 2024, ‘Crime In Australia’, teve muito palco no palco.
Uma fusão meio improvável, onde a bateria e o saxofone se uniram num contexto que entrou em erupção aliando-se a sons com migalhas eletrónicas por decifrar e previamente programados e controlados pelo baterista. Por falar nele, o Jonathan Boulet provou ser um baterista bastante engenhoso e com um pulmão que se prolonga até às mãos. Terá de ser alvo de estudo por parte da ciência. Por falar em pulmão, a Kirsty Tickle também provou ser da mesma casta. Todas as canções incluíam “coreografias” pouco ensaiadas e com muitas piscinas de um lado do palco para o outro e ela esteve incrível e incansável nesse aspeto, como se estivesse conectada a uma powerbank infindável de recursos. O power esteve todo lá. O microfone no interior do saxofone fornece um eco de escadas de prédio bastante criativo e distintivo. Não se trata dos vocais no seu estado mais puro e bruto, trata-se de usar os vocais de forma inusitada original.

Kirsty Tickle no saxofone | mais fotos clicar aqui
Todavia, e apesar de toda a filosofia interessante no núcleo do projeto, senti uma certa monotonia performativa. Existiram músicas onde as nuances me pareceram um pouco repetitivas e, como tal, não posso dizer que me encheu as medidas. Porém, é esta a beleza da música, a diversidade e as coisas que vamos encontrando e que se vão encaixando nos nossos gostos ou não. Não posso deixar de enaltecer a simpatia aparente do duo e, sobretudo, referir que os Party Dozen, independentemente das preferências, Partyram aquilo tudo.
Para fechar esta primeira noite, o L’Agosto ofereceu-nos o Riot. Conhecido no mundo da música por fazer parte dos Buraka Som Sistema. Com batidas calorosas e envolventes, Riot foi uma ótima escolha para um ótimo primeiro dia de festival.
2 de agosto, sábado
O segundo e último dia do festival iniciou-se com Carlos Bica, em modo Quarteto. Com ele, subiram também a palco: Gonçalo Neto, Eduardo Cardinho e José Soares.
Com o álbum ‘11:11’ na bagagem, o concerto permitiu a submersão do público ao disco, e não só, numa reinvenção do jazz a cores e à frente da lagosta que gosta, e muito, de boa música.

Carlos Bica no contrabaixo | mais fotos clicar aqui
As raízes do jazz permanecem intactas, contudo a exploração do estilo expande-se quando Carlos Bica e o seu Quarteto transformam o estilo em algo mais contemporâneo e atual. Quase como se o jazz sofresse uma atualização de software, uma daquelas que apreciamos.
Para início de noite, este concerto possibilitou um ambiente bastante relaxado, onde as pessoas estavam dispersas pelo chão constituído por relva a desfrutar do que ia acontecendo. Apesar do clima introspetivo inerente ao jazz, este espetáculo teve a mesma energia duma bica e isso é positivo.
Uma ótima experiência e é, também, este tipo de apostas pouco prováveis que fazem do L’Agosto um festival amplamente alternativo e diversificado. Dar a conhecer e fundir estilos num cartaz com ousadia. Contudo, o concerto prolongou-se um pouco para além do estipulado e isso gerou um certo atraso na restante programação.

Carlos Bica Quarteto | mais fotos clicar aqui
Logo de seguida, foi a vez dos Evols, e que vez. Conhecidos com unanimidade pelo seu shoegaze, é seguro afirmar que aquilo a que assistimos foi um autêntico “showgaze”.
Uma formidável tempestade de guitarras que tocam em uníssono os mesmos riffs, balanceando todos os ritmos para algo verdadeiramente psicadélico.
A estrutura da banda manteve-se igual a si mesma, com uma ligeira alteração no baixo. Os Evols, neste concerto, apresentaram-se com o Pedro Jimmy Feio, nesse mesmo instrumento. No baixo não tiveram o contributo Rafael Ferreira, tal como era habitual.

França Gomes dos Evols | mais fotos clicar aqui
Os vila-condenses têm previsto o lançamento do seu quarto disco, ‘The Ephemeral’, ainda este ano. Com isso, manterão o ciclo de cinco anos entre cada lançamento, nesta que é um carácter muito própria.
O volume das cordas eletrificadas são mesmo o cunho desta banda que é feita para se ouvir num volume bem alto, sem vertigens.
A presença do grupo em palco com todas as suas cores fez com que os mesmos fossem brindados com o já tradicional fogo-de-artifício, em tom de celebração de algo verdadeiramente mágico. As cores elevaram-se e levitaram do palco para a estratosfera e isso demonstra o quão, igualmente estratosféricos, estes rapazes conseguem ser.
Acho que os Evols são daquelas bandas que não têm o devido valor no panorama nacional mas, o que é certo, é que eles não erram no que fazem. Na minha ótica, o melhor concerto deste segundo dia.
Foi pena não terem tocado a “Cops” que estava prevista no alinhamento inicial. Todavia, perante o horário compreendeu-se o porquê de terem abdicado da mesma.

Pedro Jimmy Feio, uma novidade nos Evols | mais fotos clicar aqui
O último concerto da noite surge pelas mãos de Tó Trips & Fake Latinos. Tó Trips veio substituir Tó Trips, (Club Makumba). O Tó tem uma personalidade tão autêntica que, mesmo mudando de projeto, todo ambiente musical e, sobretudo, as tonalidades da sua guitarra têm o poderio de permanecerem intactas e isso diz muito do grande guitarrista que ele é.
É muito fácil perceber quando uma guitarra é tocado pelo Tó Trips e esse é, inequivocamente, dos melhores elogios que se pode dar a um guitarrista e é por isso que o dou. Sou muito generoso e humilde. As cordas dele são já uma imagem de marca nacional. Com Fake Latinos, composto por: António Quintino (contrabaixo), um baterista a substituir Alexandre Frazão, o elemento de raiz deste projeto e Helena Espvall (violoncelo).

Tó Trips e António Quintino | mais fotos clicar aqui
Juntos, partilham do álbum ‘Dissidente’, lançado no primeiro trimestre deste ano. Uma mistura jazzística e guitarristíca onde os ritmos e melodias ganham autonomia e voam numa orquestra mundana. Existe sempre algum enigma na génese da ideia musical, um mistério que se vai destapando aos poucos como se estivéssemos a ouvir a banda sonora de um filme que se está a realizar à nossa frente. Sublime!
Tó Trips esteve, não só no segundo dia, como no primeiro, a ver os concertos da bancada junto do público. Essa envolvência é de destacar e louvar.

Tó Trips sempre concentradíssimo | mais fotos clicar aqui
Para fechar a noite e festival, foi a vez de Fejká. De nome próprio Brian Zajak, esteve durante 10 anos na editora de Christian Löffer, a Ki Records. Christian Löffler, esse, que também já figurou outrora no L’Agosto. Fejká tem por base a vibe techno, porém a sua exploração sonora expande-se como se de uma onda de se tratasse e a mesma arrastasse consigo de tudo um pouco. A variação entre inúmeros ritmos e moods possibilitam um show bastante heterogéneo e dançável. Uma prestação bastante assinalável onde a eletrónica assumiu o papel tradicional de carro vassoura.
Em suma, foi uma edição bastante bem conseguida pelo seu equilíbrio do L’Agosto. Ótimo casting de cartaz, o sítio é ideal para o conceito e público do festival. O L’Agosto foi Verão! De salientar ainda, os nomes que passaram pelo Warm-Up e After Party’s do festival, no CAAA: tédio FC, Almorfia, DJ’s Lavagantes, DJ Salitre e Sniel.
Reportagem fotográfica dia 1: Clicar Aqui

Kirsty Tickle a cantar para dentro do saxofone | mais fotos clicar aqui
Reportagem fotográfica dia 2: Clicar Aqui

Fogo de artíficio durante Evols | mais fotos clicar aqui
Texto: Rui Torres
Fotografia: Rui Torres @ cadernetamusical_ (Instagram)

