Sigur Rós no Coliseu: Sensorial Ritual em tom camaleónico de orquestra

Sigur Rós com a preciosa ajuda da Orquestra Sinfonietta de Lisboa | mais fotos clicar aqui

A mítica banda islandesa Sigur Rós atuou no Coliseu Porto Ageas no passado dia 13 de setembro, um domingo, numa performance que atingiu lotação esgotada. Até os derradeiros ingressos, disponibilizados à última hora, desapareciam da bilheteira online.

O elevado interesse foi imediato, registou-se logo com anúncio dos concertos em Portugal em março, o que fez com que a venda dos lugares, todos sentados, acontecesse de forma muito rápida. Nem o elevado preçário afastou os fãs. Esta atual tournée é única, com poucas datas, já que o trio islandês é acompanhado em palco por orquestras nacionais. No nosso país a escolha recaiu na Orquestra Sinfonietta de Lisboa e no Coro Ricercare.

Robert à esquerda seguido de Jónsi, Kjartan e Ólafur minutos antes de entrarem em palco | foto © Sigur Rós (instagram)

Quando cheguei perto do Coliseu do Porto a fila era já algo longa no sentido da porta 6, de acesso aos patamares superiores, enquanto as restantes portas estavam com filas curtas. A entrada foi libertada poucos minutos depois das 20h e o fluxo foi dinâmico, sendo que, por volta das 21 horas os lugares já estavam praticamente todos preenchidos. A ideia da organização era essa mesma, que tudo estivesse pronto por volta dessa hora. Às 21:04h foi o momento em que começaram a dar entrada os elementos da orquestra e no seguimento começaram a fazer o aquecimento com os respetivos instrumentos. Três minutos mais tarde as luzes baixaram e o trio, com a companhia do maestro Robert Ames, deram entrada em cena.

Como tinha na expectativa, um público maioritariamente de faixas etárias menos jovens, com idades acima dos 30. Devo dar ênfase à notória presença de pessoas com idades entre os 50 e 60 anos. Ainda assim foi bonito ver um cruzamento de gerações, os Sigur Rós já existem há 32 anos e com o passar do tempo foram deixando a sua marca bem vincada na cena mundial do post rock.

Visão do palco momentos antes de começar o Set 2 | mais fotos clicar aqui

Atualmente em formato trio com o vocalista principal Jón Þór “Jónsi” Birgisson, o baixista Georg Hólm e o teclista Kjartan Sveinsson foram o foco, eles que optaram por alguma discrição no meio das dezenas de excelentes músicos da Orquestra Sinfonietta de Lisboa. Nota de rodapé: desde 2022 estes três músicos têm tocado com orquestras de todo o mundo dando “uma expressão de beleza quase além da compreensão”. Nunca tinha visto os Sigur Rós ao vivo. Dado o conhecimento e tendo surgido a oportunidade de fazer reportagem desta noite, devo dizer que felizmente fui em frente. A performance foi divinal. Uma noite de um Ritual Sensorial em que a música dos Sigur Rós eleva-se a patamares de uma plenitude que é necessária vivenciar presencialmente.

Jón foi o elemento mais destacado dos três, quer pelo timbre da sua voz quer por empenhar um arco para tocar com a sua guitarra. Ele foi uma delícia dentro de todo o encantamento da belíssima cenografia em que umas luzinhas espalhadas pelo palco iam sendo iluminadas e que mutavam de cor. Escolha visual impactante e que permitiu destacar os mais variados e imensos elementos presentes. Ajudaram também para os músicos poderem seguir as suas pautas de forma confortável.

Zona central que a banda e o maestro estiveram durante a performance | mais fotos clicar aqui

À terceira interpretação surgiu “Fljótavík” e as primeiras palmas mas expressivas fizeram-se sentir. O quinto tema foi “Von”, já o sexto foi “Andvari”, ambas portentosas e de belíssimo efeito. Por esta altura dava para sentir a vibração e que as pessoas encontravam-se já emocionadas e rendidas.

No arranque para “Starálfur” alguns ousaram a captar o momento para as redes sociais e para a posterioridade. Raramente vi smartphones no ar. As pessoas até cumpriram com as diversas indicações dos assistentes de sala o que permitiu, no ambiente mais escurecido e intimista, vivenciar toda a experiência com mais emotividade.

Momento em que Jónsi saiu de cena dando lugar a uma voz feminina | foto © Daniel Caridade

Uma voz feminina, provavelmente pertencente ao Coro Ricercare, surgiu em “Varðeldur”, o último tema do Set 1, em que Jónsi saiu do palco e deixou a intérprete terminar o tema. O intervalo entre sets começou às 21:59h e terminou às 22:25h, uma pausa um bocado mais longa do que eu esperava.

Na abertura do Set 2 a primeira faixa foi “Untitled #1 – Vaka”, um tema muito aplaudido no final e que fez perceber que o longo intervalo não tinha feito refrear os ânimos. O intervalo até foi positivo, a sala estava um pouco quente e abafada, sentido com mais intensidade em certos locais do Coliseu. Estava num camarote por isso tive uma perspetiva quase a 360º da sala. Água e leques foram necessidades prementes com o decorrer da noite, o concerto só terminou pertinho das 23:30h.

Zona central que a banda e o maestro estiveram durante a performance | mais fotos clicar aqui

O Coro Ricercare entrou às 23:02h, na fase final, bem a tempo de fazer um brilharete. Verificou-se durante “Ára bátur”, a interpretação foi fabulosa com o auxílio do coro a revelar-se um mimo. A incrível e lendária “Hoppípolla” surgiu na sequência, antes do encerramento com “Avalon”.

A despedida na frente do palco foi realizada por duas vezes e notou-se que o público pretendia mais… Se há altura em que um encore fazia mais do que sentido para ser aquela “cereja no topo do bolo” era ali, naquele momento. As luzes ligaram-se de vez e todos os elementos foram abandonando o palco. Em todo o caso creio que ninguém terá saído desapontado, bem pelo contrário.

Destaque para Jónsi com a sua guitarra e arco | foto © Daniel Caridade

O alinhamento, dividido em dois sets, percorreu a vasta discografia dos Sigur Rós em que houve lugar para temas do mais recente ‘Átta’, um registo discográfico já pensado para ser tocado com orquestra.

Foi tocante e deverás emocionante, adorei toda a experiência, amplificada pelas condições de excelência que o Coliseu Porto Ageas proporciona. A sala está em remodelações, estas mutações vão facultar que a sala portuense esteja totalmente adequada para os desafios e vindouros permitindo que continue num patamar distinto.

Reportagem fotográfica Completa:  clicar aqui

Nota sobre as fotos do headLiner:
a organização só permitiu fotografar as duas primeiras músicas do segundo ato do fundo da sala sendo que as máquinas tinham de estar em modo silencioso.

Visão mais ampla da plateia durante Sigur Rós | mais fotos clicar aqui

Texto:
–  Edgar Silva

Fotografia:
– Aitor Amorim @ torstudio (Instagram)
– Daniel Caridade – fotos de fã disponibilizadas no site dos Sigur Rós

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.