
Volvidos outros 364 dias foi novamente tempo de regressar ao mítico festival ao Alto Minho, ao Vodafone Paredes de Coura, evento já reconhecido mundialmente.
Há quem realize peregrinações anuais por motivos religiosos, as minhas razões são musicais e têm como destino a minha “Meca” dos festivais portugueses de música indie e alternativa. Ainda o é apesar de “piscarem o olho” a outros géneros musicais como o Rap, o Hip-Hop e o Pop de há umas edições a esta parte. Trata-se de uma evolução natural de um festival que regista em 2026 a sua 32ª edição. Os tempos mudam, as gerações renovam-se e os gostos da juventude vão também sofrendo algumas mutações. Este é, efetivamente um festival que é muito procurado pelos adolescentes e jovens adultos até aos 30 anos.

Tal como em ocasiões prévias segui rumo à vila minhota banhada pelo Rio Coura mais cedo, tal como é a norma ao primeiro dia. Desse modo dei início ao périplo repetitivo de quatro dias de viagens Guimarães – Paredes de Coura – Guimarães. Uma peregrinação a solo feita pelo segundo ano consecutivo.
Creio que esta edição é a menos forte em termos de headLiners comparando os quatro anos anteriores. Por isso acho natural a organização não ter anunciado passes gerais esgotados com antecedência. Efetivamente a presença de cabeças de cartaz reconhecidamente de impacto fortíssimo ajuda a uma fortíssima vendas antecipada de ingressos.
Dia 1 – quarta-feira, 12 de agosto
A primeira jornada do Vodafone Paredes de Coura foi coroada de êxito com excelentes concertos e uma vivência particularmente sã entre as pessoas. Um festival, mais uma vez, familiar. Pais a proporcionarem às suas crianças para uma experiência festivaleira com tranquilidade e segura.

Frankie Chavez e Peixe juntaram-se em Miramar unidos pela mestria de ambos na guitarra. Frankie tem o seu projeto a solo, já Peixe podemos vê-lo a tocar nos Pluto e Ornatos Violeta. Ambos tocaram de óculos de sol. Tiveram uma boa adesão de público numa tarde bastante quente, este que foi o concerto de abertura da edição de 2026.
Para esta diferenciada atuação trouxeram convidados especiais como António Serginho como baterista e ainda um Quarteto de Cordas Solistas da Casa da Música. Outro convidado foi João Cabrita, no saxofone, também fez parte mais adiante no concerto. Convidados mesmo de luxo que deram mais “corpo” aos temas, soaram ainda mais incríveis.
Uma brisa suave de guitarras a saber a fim de tarde na praia. As imagens que passavam atrás dos músicos não deixaram margem para equívocos. Musicalmente bastante aprazível e fiquei bastante contente por ter marcado presente, ainda não tinha visto este projeto ao vivo.

A maior surpresa do dia iniciou-se às 17:25 horas no palco principal com a atuação dos Westside Cowboy. Oriundos de Manchester cujo inicio de projeto ocorreu em 2023 são compostos por Jimmy Bradbury (voz/guitarra), Reuben Haycocks (voz/guitarra), Aoife Anson O’Connell (voz/baixo) e Paddy Murphy (voz/bateria). Por vezes a 4 vozes! A voz de Aoife marca pela diferença, pujante e doce ao mesmo tempo.
Jimmy queixou-se do sol pois batia na zona do palco onde estava. Felizmente foi algo temporário, pois as condições ficaram melhores pouco mais adiante e lá prosseguiu bem mais desafogado.

Estes Westside Cowboy “cunharam” o seu estilo como “Britainicana” dado ao cruzamento de elementos musicais norte-americanos como o Country e o Folk com energia punk rock típica do Reino Unido. Trazem uma frescura renovada ao indie inglês e têm merecido bastantes elogios.
“Drunk Surfer”, “Pin Up Boys” e “Don’t Throw Rocks” foram três dos excelentes temas que ouvimos da discografia destes britânicos. Efetivamente estes meninos têm muito potencial e foi uma performance que fica na memória como uma das mais marcantes desta primeira jornada.

Jorge Romão dos GNR, Manuela e Hélder dos Clã estiveram presentes no meio de uma plateia cujos muitos curiosos fizeram juntar alguns milhares. Aliás, foram vários os músicos lusitanos que se viam pelo recinto, algo já habitual neste festival.
O som destes britânicos tem uma pitada nostálgico, no entanto, por alguma razão soa fresco e bem sofisticado. Uma estreia em Portugal maravilhosa, de muito belo efeito. Agora é aguardar por mais coisas boas e por um regresso ao nosso país para um concerto em nome próprio numa sala fechada.

A banda leiriense First Breath After Coma repetiu o palco principal dois anos depois. Em 2024 tiveram a colaboração de Noiserv e da Banda de Música de Mateus. Agora, num contexto diferente com o lisboeta Salvador Sobral.
Mostraram em Coura o espetáculo que criaram juntos e que já tinham mostrado em sala fechada. Um projeto apelidado de ‘A Residência’. O cenário de uma casa, de estilo rústico e antigo, foi ocupado aos poucos por cada um dos músicos. Estiveram todos intensamente teatrais.

Roberto Oliveira, Telmo Soares, Rui Gaspar, Pedro Marques e João Marques são os membros desta formação leiriense que juntamente com Salvador Sobral até aproveitaram para passear à beira-rio durante a tarde para descontraírem. Sobral foi o segundo a entrar. Ele também todo de branco, aliás, todos os músicos tinham vestimentas brancas.
Em hora de ponta do eclipse solar, o céu estava límpido com as condições ideais para visualizar o evento. Foram muitos curiosos a visualizar o evento. Muitas pessoas aproveitaram para espreitar o fenómeno ao mesmo tempo que iam acompanhando a performance.

Uma das passagens mais incríveis foi pelo tema “Got My Needs”. Contou com a colaboração vocal de Jenna, esposa de Salvador Sobral. Outros temas interpretados, igualmente de belo efeito, foram “Now that you’ve come in” e “O quarto da Aïda”. Momento íntimo dividido com alguns bons milhares de pessoas. Totalmente adequado musicalmente ao contexto deste final de tarde bem especial.

Horsegirl são um jovem trio norte-americano formado por três meninas da Geração Z: Nora Cheng (guitarrista/segunda voz), Penelope Lowenstein (vocalista/guitarrista) e Gigi Reece (baterista) têm um enorme potencial.

Tocaram algumas canções novas além de faixas menos recentes como “Anty-glory” do álbum ‘Versions of Modern Performance’ editado em 2022. O foco teve virado para ‘Phonetics On And On’, editado em 2025, o segundo álbum deste trio feminino. Deste registo discográfico mais recente escutamos, por exemplo, “Rock City”, “Julie” e “2468”. O concerto encerrou com “Switch Over”.
Com bandas com esta pujança e originalidade o rock nunca estará em vias de extinção. O seu indie rock é sólido em versão disco e igualmente ao vivo. Depois da estreia no Primavera Sound Porto no ano passado, e que tive também o gosto de ver, este regresso a Portugal reafirmou a vitalidade destas meninas enquanto coletivo feminino indie.
A entrada de CMAT e seus companheiros em palco aconteceu ao som de “Amanhã De Manhã”, tema das Doce. Aconteceu às 21h em horário nobre com o tema “The Jamie Oliver Petrol Station”.
CMAT é Ciara Mary-Alice Thompson, cantora e compositora irlandesa conhecida pelas suas letras espirituosas e narrativas, misturando influências de pop, country e folk de forma única. Ela que revelou adorar o nosso país, a estreia dela em Portugal teve lugar no último dia do NOS Alive de 2025.
Ciara mostrou-se vestida de encarnado e esteve sempre imensamente vulcânica e teatral. Bastante comunicativa igualmente. Ela teve o auxílio de 6 músicos em diversos instrumentos de cordas, teclados e percussão. Todos bastante extrovertidos.
Com uma forte base de fãs LGBTQ+, CMAT define-se como uma artista para “as raparigas e os gays”. O seu terceiro disco, ‘Euro-Country’, foi lançado em outubro do ano passado e apresentado com pompa em Coura.
Incrível a escolha multimédia para o ecrã principal com divisão a dois com a mesma a imagem repetida em forma de espelho. Revelou-se impactante de belíssimo efeito.
Um concerto, com a sua pitada intensa de sensualidade e sexualidade, com muito espetáculo pelo meio acompanhado pelo público com bastante vibração e participação. Final apoteótico com “Stay For Something” em que todos o seu máximo, eram muitos os milhares a deleitarem-se com a performance de CMAT.
Os Capitão Fausto regressaram ao Vodafone Paredes de Coura, desta vez ao cenário secundário, depois do tremendo sucesso em 2019. Completamente lotado o espaço perante o palco Coura sem Paredes para este concerto que arrancou às 22:05h. O público lusitano está totalmente rendido à banda lisboeta. Verdade seja dita, mereciam novamente honras de palco principal. Foi “erro de casting” agendá-los para o secundário.
Durante a atuação não faltaram temas mais recentes como “Na Na Nada” ou “Muitas Mais Virão” e outros menos recentes como “Amanhã Tou Melhor”. Numa participação especial surgiu Salvador Sobral tendo participado em “Cantiga Infinita”.
O quarteto lusitano composto por Tomás Wallenstein (voz e guitarra), Manuel Palha (guitarra e teclas), Domingos Coimbra (baixo) e Salvador Seabra (bateria) esteve igual a si mesmo, mesmo irrepreensível.
Rhian Teasdale (voz principal/guitarra) e Hester Chamber (guitarra/coros) são as responsáveis pelo surgimento do projeto Wet Leg em 2019. Ao vivo têm o apoio de três elementos. São um dos projetos mais atraentes surgidos no universo do rock alternativo do Reino Unido nos anos mais recentes.
A atitude afirmativa da vocalista Rhian Teasdale contribui decididamente para todo o power que os Wet Leg possuem. A banda estava literalmente elétrica e desfrutou da performance, tal como muitos dos milhares presentes.

A terceira tocada foi “Wet Dream” e o público foi à naturalmente à devida loucura. Mais adiante surgiu outro dos temas mais conhecidos falo de “Chaise longue”. Mais uma vez a participação musculada e vibrante por parte do pessoal, público este sempre muito agitado sobretudo na parte frontal do palco.
Outros temas tocados foram, por exemplo, “catch these fists”, “liquidize” e “Too Late Now” numa setlist bem polida na sua construção.
A saída de palco foi algo fofinha ao som de “Careless Whisper”, tema sobejamente conhecido de George Michael.

Este foi um regresso triunfante dos Wet Leg a Portugal, um forte seguimento à presença no Primavera Sound Porto no ano passado. Para mim um dos melhores momentos da primeira jornada do Vodafone Paredes de Coura em 2026.
Em abril do ano passado a banda britânica The Horrors tocaram em Lisboa e no Porto numa cortesia da At The Rollercoaster. São uma das bandas mais emblemáticas do movimento gótico e shoegaze deste milénio. O álbum mais recente, ‘Night Life’ editado em 2025, já abraça uma onda de darkwave.

Eles têm uma nova constituição, está centrada no duo formado pelo vocalista Faris Badwan e o guitarrista Joshua Hayward. A eles juntam-se Amelia Kidd nos teclados, Jordan Cook na bateria e o baixista Rhys Webb. Os dois últimos membros originais Tom Furse e Joe Spurgeon abandonaram o projeto no entretanto.
Agora regressam a Portugal no seguimento da comemoração dos 20 anos (feitos em 2025) do aparecimento do projeto. Esse ‘Night Life’, o sexto álbum, é o primeiro sem membros originais dos The Horrors.

“The Silence That Remains”, “More Than Life” e “LA Runaway” foram temas novos apresentados. Da discografia anterior tivemos, por exemplo, “Sea Witin A Sea” e “Lotus Eater”
A atuação neste Vodafone Paredes de Coura foi intensa, com alguns momentos de maior furor e outros declaradamente melancólicos. Alguns corpos lá foram bailando ao som dos temas numa plateia que não esteve tão cheia como em concertos anteriores neste palco “Coura Sem Paredes”.

O meu roteiro festivaleiro deste dia terminou com uns longos minutos de KNEECAP. O meu limite horário para ficar em Coura cifrou-se nas 2 horas da manhã. A seguir houve uma viagem de pouco mais de 1 hora até Guimarães num percurso chato numa autoestrada paga sem iluminação e com algum nevoeiro…
A estreia em Portugal dos KNEECAP teve lugar em 2024 no no Super Bock Super Rock no Meco. Regressaram no passado mês de junho no Primavera Sound Porto. Sem surpresas este terceiro concerto lusitano no Vodafone Paredes de Coura teve um alinhamento semelhante ao anterior bem como toda a coreografia de cena.

A primeira foi “Smugglers & Scholars”. Já a segunda foi “Better Way to Live” com a voz de Grian Chatten, de forma virtual, perante um público que se demonstrou entusiasta desde início.
O anfiteatro de Coura e o seu público deram um maior impacto à atuação destes irlandeses de Belfast. Isto em comparação com a performance portuense. Houve muita gente a abandonar o recinto depois dos Wet Leg contudo a famosa encosta registou um belo preenchimento para esta performance que teve início à 1:25 horas, já madrugada de quinta-feira.

A veia política saiu logo pelo lema “Free Palestine” em letras garrafais no ecrã e gritado pelos irlandeses. Seguiu-se “Get Your Brits Out” e a animação continuou. Fora de palco e também nele sobretudo com Mo e Móglaí a movimentaram-se pelo palco, e pelos seus palanques, de modo enérgico. Sempre de olhos no público.
Naquilo que pude observar o trio formado por Mo Chara, Móglaí Bap e DJ Próvaí neste regresso ao norte de Portugal cumpriu perante uma plateia que demonstrou apreço pelos KNEECAP.
Reportagem fotográfica Completa: clicar aqui
Texto:
– Edgar Silva
Fotografia:
– Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)
– Ana Ribeiro da Printz Media @ printzmedia (Instagram)
