Mirror People proporcionou “Gud Times”, já Mazgani deliciou-nos com o seu poderoso timbre

Mazgani proporcionou uma incrível matiné | Foto © Município de Santo Tirso

A mais recente edição do Sonoridades realizou-se no Centro Cultural Municipal de Vila das Aves, espaço cultural que tem sido a casa do evento desde sempre. Este ano, este certame musical, viu concretizada a sua nona edição. Iniciou-se na véspera do Dia do Trabalhador, nomeadamente na quinta-feira dia 30 de abril, tendo-se prolongado até domingo, dia 3 de maio.

A organização esteve ao encargo, como vem sendo hábito, da Câmara Municipal de Santo Tirso, a impulsionadora do evento. A direção artística e produção coube à 1bigo – Artistas e Eventos, promotora que repetiu este labor relativamente a anos anteriores.

Pela segunda vez, o Sonoridades teve apoio do headLiner como Media Partner, este foi o segundo ano consecutivo. O headLiner tem marcado presença constante desde 2023.

Dia 30 de abril – Mirror People

Já se tornou um regresso reverenciado a este auditório tão aconchegante. Com os seus 160 lugares pode-se considerar pequeno contudo reúne condições gerais incríveis para uma experiência valiosa e memorável. As boas sensações e vivências positivas aconteceram novamente tal como têm sido recorrente deste 2023.

Rui Maia e Rö: os Mirror People | Foto © Município de Santo Tirso

O Município de Santo Tirso disponibilizou, mais uma vez, bilhética online. A estreia ocorreu em 2025 e trata-se de uma mais-valia pois permite a pessoas de fora da zona a comprarem o seu ingresso e a garantirem a sua presença na Vila das Aves.

Mirror People é uma várias “camadas musicais” do músico, produtor e DJ português Rui Maia e foi com este seu projeto que o Sonoridades arrancou este ano. ‘Desert Island Broadcast’, trabalho discográfico editado no ano passado a 26 de setembro, foi o mote do concerto. Um disco de música de dança, que alterna entre o disco, o funk e a eletrónica.

Rui foi o primeiro a entrar em cena, 15 minutos depois da hora aprazada, e numa introdução curiosa tentou sintonizar uma estação emissora em AM ou em FM num pequeno rádio de bolso com antena. Só foi possível ouvir ruido estático, a sua missão foi mal sucedida, fez-nos, no entanto, recuar ao famoso apagão ocorrido precisamente há um ano.

Rui Maia a sua tentativa de sintonizar uma rádio | Foto © Município de Santo Tirso

Depois de uns sons introdutórios surgiu em palco Maria do Rosário, conhecida artisticamente simplesmente por Rö. Em versão duo apresentaram um dos principais temas deste último álbum, falo pois de “Million Question”, a faixa que deu a conhecer a primeira pista de ‘Desert Island Broadcast’ pois foi o primeiro single a ser lançado. Curiosamente é a primeira faixa do disco.

Maia geriu a sua parafernália eletrónica, nomeadamente os sintetizadores e caixas de ritmo. Deu também corpo aos temas com a sua voz. Já Rö contribuiu com a sua voz e controlou os efeitos que deu às suas vocalizações em determinados temas.

Maria do Rosário foi um acrescento belíssimo a toda a performance devido ao seu “espírito livre”, esteve até descalça. Dançou e bailou livremente, tendo produzido toda uma exibição cénica bastante vistosa. Um desses momentos aconteceu durante a interpretação de “Shut Up”. Efetivamente o seu resultado foi de benefício bem prático e complementar aos temas de Mirror People.

Maria do Rosário, artisticamente conhecida como Rö | Foto © Município de Santo Tirso

A voz de Rui esteve bastante ‘blindada” pelos efeitos eletrónicos/reverb, já a de Rö esteve mais “límpida”, não foi permanente o recurso aos efeitos.

Tanto Maia como Maria estiveram sempre com boa onda, totalmente descontraídos e sorridentes. Na interação com o auditório, esteve bem composto neste debute do certame, deram a liberdade para as pessoas desfrutarem das canções em pé. As pessoas optaram por ficar sentadas porém deu para perceber que estavam a curtir o concerto mesmo sem essa faculdade de “dar um pézinho de dança” de pé.

Palmas deram ritmo a “Gud Times”, um dos temas interpretados e que está incluído no álbum ‘Heartbeats Etc.’ de 2022, fase em que o público estava claramente mais soltinho. Na fase final surgiu outro deste disco, nomeadamente, “Parallel Lines”.

Rui Maia mais concentrado e Rö mais desinibida | Foto © Município de Santo Tirso

O momento áureo da performance foi numa viagem no tempo, um recuo até 2015 e ao álbum ‘Voyager’. O tema mais popular desse registo, “I Need Your Love”, conta com o apoio vocal de Maria do Rosário e foi interpretado para satisfação do público. Efetivamente foi o tema mais saudado da noite. Curiosamente o tema foi reiniciado a pedido de Rö para ir certinho até ao seu final. Outros temas significativos da noite foram “Any Color U Like” e “Madragoa”, ambos editados em 2025.

Infelizmente não houve encore, o público puxou pelo regresso dos artistas, algo que não aconteceu. Notou-se que o público saiu um bocadinho desiludido por causa dessa situação. Ao fim de cerca 1 hora e 10 minutos de atuação a atuação da dupla Mirror People terminou e pode-se dizer que foi um início bastante agradável. Ao fim de uma longa jornada de trabalho soube bem descontrair com os sons eletrónicos criados por Rui Maia.

Dia 1 de maio – Mazgani

Shahryar Mazgani é um luso-iraniano que chegou a Lisboa com apenas 5 anos de idade. Veio com a sua família em fuga da opressão dos Baháʼí pela Revolução Islâmica no Irão. O artista tem 51 anos e conta já com 20 anos de carreira. Apresentou-se na Vila das Aves para uma estreia em versão duo, trouxe consigo Vítor Coimbra.

Tive acesso aos preparativos do concerto e assisti aos ensaios. Uma dinâmica muito trabalhosa para os técnicos, igualmente uma fase de reconhecimento por parte dos músicos do espaço e a sua envolvência. Mazgani e Vítor realizaram um demorado soundcheck em que afinaram todos os detalhes até estarem todos devidamente no ponto pretendido, sempre com descontração. Para o técnico de som que os acompanhou foi um período bastante enérgico no qual teve sempre doses de paciência e concentração bastante elevadas.

Mazgani em versão duo com Vitor | Foto © Município de Santo Tirso

Com o som, as luzes e tudo devidamente afinado foi altura para o segundo concerto deste Sonoridades em 2026 com honras de casa lotada. Mazgani entrou às 18:40h a solo tocando na abertura “Sonhos Marinhos”. Além da utilização da sua voz, fez também uso da guitarra. A sua voz de é timbre fortemente grave, pujante e penetrante. Fez lembrar um pouco da profundidade vocal de Leonard Cohen. No dedilhar da guitarra demonstrou-se igualmente dotado com bastante mestria.

Para o segundo tema “A Avenida” compareceu o seu parceiro Vítor Coimbra. Este versátil músico teve sempre uma canseira na troca de instrumentos, demonstrou-se afinado entre o baixo e o contrabaixo.

Foram dois temas do seu mais recente álbum ‘Cidade de Cinema’, editado em 2024, é o primeiro em que canta em português. Após 13 anos e seis discos em inglês este álbum surgiu na sequência de um desafio de Pedro Gonçalves. O malogrado músico entrou em cena mesmo numa fase avançada da sua doença e conseguiu convencer o luso-iraniano a uma reinvenção. Durante o concerto Mazgani fez questão de evocar o incrível músico que fez parte dos Dead Combo tendo merecido uma salva de palmas bem vincada.

Mazgani efetuou uma atuação memorável | Foto © Município de Santo Tirso

O concerto prosseguiu com viagens a temas da sua já vasta discografia com mais passagens pelos seus temas em português, nomeadamente, por “Frente Leste” e “A Chama”. Do álbum ‘Song of Distance’, editado em 2010, escutamos vários temas, por exemplo, “Dust in the Sun” e “Mercy”. Já de ‘Common Ground’, editado em 2013, fomos presenteados com “Dog At Your Door” e “Blow Wind”.

Uma criança estava pela plateia algo irrequieta e um pouco ruidosa. Mazgani fez um pedido de forma muito simpática aos pais de uma criança para que ela não perturbasse pois ele precisa de silêncio para poder dar o seu melhor. Até final da atuação estiveram reunidas todas a condições.

As interações de Mazgani com o público foram sempre bastante descontraídas e com piada. Foram aqueles momentos habituais de “quebra-gelo” enquanto os instrumentos não estão devidamente afinados. Uma assistência bastante heterogénea nas faixas etárias com pessoas vindas de fora do concelho de Santo Tirso revelando o interesse por este concerto específico. Pessoas que desfrutaram de uma matiné incrível com muitos fãs do artista e que saíram com toda a certeza satisfeitas.

Vitor Coimbra ocupou-se do contrabaixo e do baixo | Foto © Município de Santo Tirso

Ao fim de uma hora de atuação o duo saiu por breves segundos e regressou para um encore junto ao público de pé já na plateia para uma “rapidinha” de 2 minutos. Foi o fecho de uma atuação incrível em que a mensagem final do músico foi a de que “o amor é super punk”.

Texto:
– Edgar Silva

Fotografia:
– Município de Santo Tirso

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

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