
Guimarães foi em outrora habitada por reis e rainhas, que ao longo de muitos anos foram escrevendo parte da história de Portugal. Agora podemos viver parte dessa história por entre as estreitas ruas de pedra, pelo imponente castelo e os seus jardins, pelas típicas casas umas a seguir às outras desde a Praça de Santiago à Praça de Oliveira, passando pela bonita e histórica praça do Toural. Cidade que ganha ainda umas tonalidades místicas quando a temperatura começa a baixar, as árvores ganham cores mais outonais e a luz que reflete nos antigos edifícios se espalha pela cidade tornando-a única. Todos estes elementos têm vindo-se a cruzar desde 2013 quando o Mucho Flow invadiu a cidade. Por entre diversos espaços da cidade, o festival que cruza as artes sonoras e expressões
visuais, convida todos os festivaleiros, também a descobrir parte da cidade, num
passeio entre palcos que abraça toda a sua mui antiga história, encurtando distâncias
entre o antigo do passado e a modernidade do futuro.
Dia 1 – Do jazz à eletrónica experimental num fechar de olhos
O primeiro espaço a receber a 8ª edição do Mucho Flow, foi um dos mais recentes e vanguardistas edifícios da cidade: Centro Internacional das Artes José de Guimarães vulgo Plataforma das Artes . Inaugurado em 2012, esta estrutura dedicada à arte contemporânea recebeu na sua Black Box, o concerto de Chão Maior, projeto liderado pelo trompetista Yaw Tembe, que veio apresentar o seu disco de estreia, editado pela Revolve (mesma entidade que traz o Mucho Flow), o brilhante ‘Drawing Circles’.
Numa viagem pelo jazz, o kraut, o rock ou folk, os 6 elementos da banda composta por conhecidos nomes da música portuguesa como o percussionista Ricardo Martins ou o guitarrista Norberto Lobo, iam hipnotizando todos os presentes em conjunto com o jogo de sopros de Yaw Tembe e de Yuri Antunes. Uma grande mixórdia (no bom sentido) de sons, seguindo sempre a batida forte e imponente de Ricardo Martins e acompanhados pela suave e doce voz de Leonor Arnaut. Na sala revestida toda ela pela cor preta, realçava ainda mais a banda. Com muitas horas nas pernas que ainda os festivaleiros teriam pela frente, a escolha de grande maior parte foi assistir a este, e a todos os concertos na mesma sala, sentados, tornado o concerto de Chão Maior uma delícia para quem assistia.

Chão Maior no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram:@headliner.portugal]
Após o concerto na Centro Internacional das Artes José Guimarães, CIAJG, veio o primeiro contacto com a cidade que este festival oferece. Numa viagem a pé de cerca de 10min, as dezenas de pessoas que assistiram a este primeiro concerto, deslocaram-se para o Centro Cultural de Vila Flor, atravessando praças, passando pelo mítico “Aqui Nasceu Portugal” até subir a avenida Dom Afonso Henriques acompanhados pelas tradicionais árvores gigantes. Lá dentro, o espaço que estávamos habituados a coabitar, não foi o esperado. Ao entrar pela sala principal do centro cultural, rapidamente nos
apercebemos que aquele não seria o palco da nova experiência audiovisual que o Mucho
Flow nos trazia, mas sim o backstage, bem por detrás das compridas cortinas que separavam a principal sala daquele bonito local.
Lá já se encontravam centenas de pessoas a fervilhar pelo duo de Manchester Space Afrika. A ambient music que podia ser perfeitamente apreciada sentada, tornaram os muitos corpos na sala deambulantes ao ritmo quase inexistência da música.
Sob uma projeção de paisagens urbanas a preto e branco, ajudou a cada um de nós que assistia, criar texturas auditivas. Por vezes sentíamos a chuva a bater-nos no braço, ou mesmo a tempestade que se intensificava sendo audível o som dos trovões bem ao longe. Outras vezes abríamos os olhos e estávamos no meio da azafama de uma cidade britânica por entre buzinas e vozes distantes, sem saber qual seria o rumo daquela viagem. Mesmo com alguns problemas técnicos, o transe que se espalhava na sala era audível pelo silêncio. Nem mesmo em alguns momentos em que o som do duo não nos fazia dançar
nem nos levava para outra dimensão, a qualidade sonora do espaço era tal que fez ultrapassar essa barreira empurrando-nos constantemente para o mundo dos Space Afrika.

Space Afrika no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
Space Afrika deixaram-nos num estado meio hipnótico-transe, sempre com a sede de começar a dançar de forma tresloucada. Não era esse também o papel do duo de Manchester, mas sim o do duo seguinte: Croatian Amor & Varg2TM.
A dupla nórdica composta pelo dinamarquês Croatian Amor e o sueco Varg2TM, percorreram a Europa para apresentar em Portugal o seu quarto trabalho em conjunto, ‘Body of Content’. Já com o backstage do CCVF praticamente cheio, a dupla entrou de uma forma muito mais rompante pelos nossos ouvidos adentro. A navegarem entre o trap e o techno vibrante, a componente visual que este festival nos traz, faz sentir cada batida ainda mais forte. Os fortes strobes a entrar dentro da nossa retina, as luzes a deambular plateia adentro, vai acompanhando os corpos que iam cada vez mais libertando-se. Foram os primeiros grandes momentos que esperávamos sentir nesta edição de Mucho Flow, jogo de luzes condizentes com os fortes e acelerados bits dignos de uma boa rave.

Croatian Amor & Varg2TM no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
Tinha terminado mais um palco, e era hora de nos movimentarmos para um novo espaço. Desta feita descemos a tal avenida coberta de árvores ora à direita ora à esquerda, deixando-nos a meio caminho de São Mamede, próxima sala de espetáculos e que iria encerrar a noite.
Quando chegamos a uma das salas mais bonitas da cidade, já se encontrava em palco Muqata’a e na plateia umas largas dezenas de corpos a balançar ao ritmo incoerente dos BPMs do músico da Palestina. O produtor veio a Portugal com um disco saído este ano, ‘Kamil Manqus’, disco que reflete bem como foi o set que veio apresentar ao Mucho Flow assim como toda a sua sonoridade. Entre samples de hip hop, passando por trap ou batidas a roçar o dubstep, nenhuma batida é igual à anterior tornado completamente imprevisível o próximo passo do artista palestiniano. Apesar disso, não tirou a vontade de cada um de nós que estávamos cá em baixo, dançássemos e viajássemos até ao seu país natal, que como sabemos, encontra-se num clima de muita instabilidade político-social, algo que se reflete a “ouvidos nus” na música de Muqata’a.

Muqata’ano Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
Um dos momentos mais esperados para esta 1ª noite, estava a cargo de Loraine James. Com batidas mais dançáveis, muito graças ao seu mais recente disco editado em
2021 intitulado ‘Reflection’. Aí, a plateia de pé do São Mamede CAE já se encontrava bem carregada de corpos dançantes e a entrar na cena clubbing londrina. Por vezes com batidas mais aceleradas e bits difíceis de definir, tornou-se um pouco turvo os passos de dança que iriamos executar, tirando pouco a vontade daquela sala cheia de dançar, mesmo com kms de pista de dança nas pernas.
Já sem nos lembrarmos a quantas andávamos, lá nos lembrávamos do set do último nome da 1ª noite do Mucho Flow. Arrogance Arrogance, é um nome incontornável da cena eletrónica underground portuense, e trouxe com ele os bits psicadélicos que podemos ouvir por essas raves foras, nomeadamente nas ÁCIDA.

Arrogance Arrogance no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
A festa foi longa e cansativa neste primeiro dia, culpa talvez das horas de trabalho que levamos nas costas por ser uma sexta-feira, mas é certo que não viemos por menos para mais uma edição do Mucho Flow. Isto é porque ainda não vos contamos sobre o 2º e último dia do festival vimaranense.
Dia 2 – Depois da bonança, a tempestade
A cidade de Guimarães não é só repleta de uma forte história, como também de uma carregada tradição. Não acordamos propriamente cedo, nem era esse o objetivo. Calçamos o mesmo calçado gasto e voltamos a emergir nas bonitas ruas. Estávamos a passar perto do imponente estádio do Vitória Sport Club, quando começamos a ouvir um estrondoso barulho de bombos em uníssono (algum vá). Para quem chega a Guimarães e não conhece bem o que se está a passar, podendo ser confundido com algo do próprio festival. Novembro é o mês das conhecidas festas Nicolinas, festa que move toda a cidade,
especialmente os alunos da secundária do Liceu de Guimarães embora hoje em dia tenha alastrado a toda a população estudantil. E era precisamente isso que estava acontecer, centenas de alunos das escolas secundárias da cidade a desfilar pelas ruas com os seus bombos, a antecipar a noite mais longa do ano da Cidade-Berço.
À hora marcada, dirigimo-nos para o CIAJG, onde iríamo-nos estrear a ver um dos bateristas mais respeitados em Portugal, Ricardo Martins. O artista trouxe o seu mais recente EP, ‘Incerteza Absoluta’. De volta à Black Box e a momentos de pura acalmia onde todos se encontravam sentados, assistimos a uma ode à percussão e a tudo que ela nos pode oferecer. Acompanhado por uma “caixa de ritmos”, fazia as delícias de que assistia com as suas batucas, seguindo de forma rítmica e tresloucada as samples que eram debitadas pelo sintetizador. Foi um autêntico recital dos tempos modernos orquestrado por Ricardo Martins, onde ele próprio era dono de cada nota que ouvíamos.

Ricardo Martins no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
Logo a seguir, na mesma sala, ía assistir a dos nomes que mais queria ouvir. Musicalmente um pouco mais distante dos outros nomes que pisaram esta 8ª edição do Mucho Flow, mas decerto um dos nomes com maior progressão na cena indie. Falamos, pois, de Anna B Savage. A artista britânica apresentou-se o mais minimalista possível, fazendo-se acompanhar apenas da sua voz e guitarra. Desprovida de outros elementos como bateria, baixo ou saxofone, foi ainda mais percetível o poder vocal da britânica, tornando-se neste concerto, um completo oposto do que o festival tinha sido até então. A voz foi o principal
instrumento durante aquelas dezenas de minutos com que Anna nos enfeitiçou.
Envergonhada e doce quando se dirigia ao público, foi durante músicas como “Chelsea
Hotel #3”, “A Common Term” ou “Corncrakes”, (retiradas do seu disco de estreia lançado este ano, ‘A Commun Turn’) que foi bem audível a voz grave, poderosa e única que possuía, fazendo-nos lembrar por vezes a irreconhecível voz de ANOHNI. Um concerto cheio de sentimento, intimismo, e que decerto pisará um palco de outra dimensão, talvez não num futuro assim tão distante.

Anna B Savage no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
Tínhamos uma longa pausa até ao próximo concerto, num final de tarde bem frio típico não só da época como da cidade de Guimarães. Deslocamo-nos para um tasco bem típico português para o nosso jantar munido de um bom vinho da casa. Localizava-se perto da praça do Toural, já a meio caminho do nosso próximo destino, o Centro Cultural de Vila Flor.
Quando lá chegamos já tinha começado o concerto em estreia (e que privilégio) de Fura Olhos. Formado por dois artistas de gerações distintas: de um dos lados estava Miguel Pedro, fundador dos Mão Morta, e de outro lado Inês Malheiro, jovem multifacetada oriunda de Braga. No tal palco que se encontrava no backstage da sala principal do CCVF, agora com as cortinas para cima revelando toda a imensidão daquela sala, estava a dupla com o seu disco de estreia lançado há poucos dias da ida ao festival, e com lançamento via, Revolve.
Logo a seguir à estreia, veio um dos momentos mais aplaudidos do dia. O italiano Lorenzo Senni. Já com uma sala bem composta e provavelmente com casa quase esgotada, a sala estava pronta para receber mais uns kms de dança. Com samples que nos transportavam para o espaço sideral, como foi no caso de “Canone Infinito”, ou levando-nos para um estado emocional entre o transe e de alegria pura como foi no caso de malhas como
“The Shape of Trance to Come”, os bits debitados do sintetizador do italiano começaram a soltar os verdadeiros reis da pista de dança, sendo impossível ficar indiferente à energia que sai das colunas da sala. Não era só da energia que bebíamos, mas também do próprio Lorenzo, que entre danças frenéticas, passando pelo seu tronco irrequieto que acompanhava cada BPM, passando pelas expressões faciais bem visíveis, foi contagiando cada um de nós fazendo do seu set um dos momentos mais dançáveis de todo o festival.

Lorenzo Senni no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
A noite parecia já estar bem embalada, mas ainda não tínhamos presenciado uma das razões que tinha trazido centenas de pessoas ao Mucho Flow 2021. Falamos claro do duo eletrizante, Giant Swan.
A caminhada fez-se novamente entre o CCVF e o São Mamede CAE, sala que ia encerrar mais um dia e mais uma edição. A caminhada de cerca de 10 minutos pouco quebrou o ritmo que trazíamos do concerto de Lorenzo, tal era a vontade de assistir a um concerto desta dupla britânica.
Conseguem imaginar uma fusão entre o punk, fuzz e o BPMs acelerados, eletrónica experimental? Pois bem, Robin Stewart e Harry Wright, dupla que forma os Giant Swan, traz à vida essa miscelânea explosiva, não fossem eles oriundos de Bristol, cidade do Reino Unido onde este movimento é muito forte. As duas figuras bem esguias, viradas uma para a outra como se de uma batalha se tratasse, traziam toda a sua atitude
rebelde para cima do palco. Desde as skinny black jeans, ao tronco nu, passando
pela shaved head, estas duas figuras fizeram o seu set de mais de 1h completamente um campo de batalha onde as intensas batidas techno foram bombardeadas para as centenas de pessoas que dançavam sem lei. Não há muito mais a contar deste concerto. Um set de Giant Swan quase só pode ser descrito vivendo-o, desde o bass explosivo, à distorcida performance vocal quase improvisada passando pelo jogo de luzes que fazia daquele ambiente apocalíptico, ainda mais brutal.

Giant Swan no Mucho Flow 2021 [Mais fotos no nosso instagram: @headliner.portugal]
Mal respirava de tanto dançar, sem interrupções para estabelecer os meus sinais vitais, o concerto da dupla de Bristol foi sempre a rasgar, trazendo poucos momentos de acalmia.
Era isto que precisamos, sim, falando por todo o público presente.
A fechar a noite e o festival, até às tantas da manhã, esteve Lee Gamble que trouxe os seus mais recentes trabalhos ‘A Million Pieces Of You’ e a compilação ‘Flush Real Pharynx 2019-2021’, com um componente muito mais ambient, minimalistas e mesmo polifónicos, trazendo momentos bem bonitos no nosso subconsciente, contrastando com o tom bem “sujo” e agressivo (tudo no bom sentido) dos Giant Swan. A cargo de fechar mais um Mucho Flow, esteve o português DJ LYNCE, conhecida ara de quem frequenta as noites da cidade do Porto, fazendo gastar as poucas energias que nos restava nas pernas.
Festival de tendências, de descobertas, de explorações áudio e visuais, festival que vai para além da música e abraça uma cidade histórica, cheia de tradições, mas que traz uma sonoridade vanguardista, moderna e sem rótulos. É assim o Mucho Flow.

Texto:
Luís Silva
Fotografia:
Jorge Nicolau
