Westway LAB: a mais-valia do intercâmbio musical e cultural (parte 1)

Mariana Bragada em palco // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

Antes de começar a falar sobre a edição deste ano faço uma curta viagem pela história do Westway Lab nos dois anos transatos…

O festival costuma realizar-se no decurso do mês de abril, assim tem sido no seu historial. Em 2020 a pandemia do Covid19 fez com que a 7ª edição tivesse sido, inevitavelmente, adiada. A organização escolheu os dias 15, 16 e 17 de outubro desse mesmo ano para a concretização do evento com público. A situação epidemiológica menos favorável do
concelho de Guimarães fez com passasse a ser uma edição 100% digital. Tal aconteceu à última da hora e os concertos foram transmitidos online tendo contado com a presença de artistas como The Legendary Tigerman, Valter Lobo, The Lemon Lovers ou Mão Morta Redux.

A 8ª edição em 2021 não teve percalços de última hora e foi desenhada como sendo um evento totalmente virtual logo de início tendo-se realizado entre 7 e 10 de abril. Teve uma
edição repleta de artistas portugueses tais como Da Chick, Diabo a Sete, Beatriz Pessoa ou Pedro Lucas.

Chegados a 2022 já podemos respirar melhor contudo ainda sem prescindirmos da máscara, em determinados locais e ocasiões ainda é de uso obrigatório como foi o caso deste festival.

A felicidade maior esteve na presença de público, houve novamente palmas in loco durante os concertos. Felizmente estiveram reunidas as condições para uma edição bem mais aproximada daquilo que presenciei e vivi no Westway LAB em 2018 e 2019.

Quarta-feira, 6 de abril

Neste regresso ao formato nativo, a abertura do capítulo de concertos deu-se com um projeto muito peculiar. Trata-se do Ensemble Caleidoscópio, formado por oito músicos minhotos que estiveram sob direção artística do compositor e multi-instrumentista lisboeta Bruno Pernadas. Estes 8 jovens músicos (6 do género masculino e 2 do feminino)
atuaram na sala principal do Centro Cultural Vila Flor e fizeram o melhor aproveitamento possível desta bela oportunidade.

Para introdução da performance Bruno Pernadas surgiu em palco a solo e explicou o contexto do projeto tendo referido que o conteúdo musical do concerto foi elaborado numa residência artística resultando portanto num trabalho original. Este ensemble junta pessoas dos concelhos de Braga, Barcelos, Fafe e Guimarães. Trabalharam na Fábrica ASA em Guimarães e no gnration em Braga. Será também nesse espaço bracarense que vão apresentar o seu trabalho, acontecerá no gnration open day no próximo dia 30.
[Para mais detalhes do projeto clicar aqui]

image

Ensemble  Caleidoscópio no Grande Auditório do CCVF // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

Regressando propriamente ao concerto do Westway LAB… Deparamo-nos com 8 músicos em palco devidamente alinhados e que proporcionaram ao público uma intro um pouco esquizofrénica mas ao mesmo tempo entretida nos primeiros minutos. Foi, direi, um aquecimento de “motores”.

Durante a hora que estiveram em palco apresentaram composições originais
de autoria dos 8 elementos. Tocaram temas que mergulharam em diferentes
ambientes musicais sempre com uma pitada de estilo de improvisação.

A bateria e o vibrafone foram, quiçá, os instrumentos em maior destaque, sempre muito bem manejados. O tema “Não Pensar” de autoria de Catarina Gomes foi um dos momentos mais tocantes. A jovem artista cantou e tocou piano tendo sido bem acompanhada pelos companheiros de projeto. Foi ela mesma que chamou a palco Bruno Pernadas para ser o 9º elemento no último tema da noite. Perante um público interessado e entusiasta, ou não tivéssemos tido amigos dos músicos presentes e a mandarem piropos do género “és linda”, a atuação findou conforme decorreu o concerto, em belo estilo. Nota
final para referir que foi notório um nervosismo inicial, no entanto, ficaram todos mais à vontade com o decorrer dos minutos.

Na segunda parte deste primeiro dia foi a altura, como é habitual numa programação normal do festival, os showcases resultantes das residências artísticas. O festival emparelha artistas lusitanos com outros vindos dos mais diversos países mundiais e durante uma semana trabalham em conjunto. No final desse período mostram as suas criações que têm de resultar em performances com pelo menos 30 minutos de duração.

image

Christina Quest em palco // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

A primeira parelha juntou Christina Quest, cantautora e pioneira da guitarra a solo em Portugal, com Catharina Boutari, também conhecida pelo seu nome artístico Puder. Proporcionaram uma performance com muitos sorrisos à mistura e bem agradável de assistir com algum girl power pelo meio.

A primeira grande surpresa destes momentos apresentados no Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor surgiu com a atuação da parelha composta por Jorge da Rocha e do francês Yann Cleary. Ambos mostraram dotes em vários instrumentos, o que resultou numa combinação inusitada de instrumentos: do banjo ao contrabaixo (o instrumento forte do artista lusitano) até ao cavaquinho tocado pelo artista francês que o próprio
foi buscar aos bastidores. A performance deles incluiu uma interação teatralizada em idioma inglês, tão bem trabalhada que ficava no ar se estavam realmente a improvisar ou não… Sem margem para dúvidas, um dos showcases mais originais que já assisti desde que tenhoacompanhado as várias edições desde 2018. Foi imensamente divertido.

image

Yann Cleary eJorge da Rochaem palco // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

Quinta-feira, 7 de abril

A apresentação de European Ghosts ocupou o Grande Auditório Francisca Abreu do Centro Cultural Vila Flor a partir das 19:40h. Este projeto é uma exploração criativa de cocriação de novas obras baseadas em antigas tradições musicais europeias, reinventadas para o século XXI. Uma iniciativa com cofinanciamento do programa Europa Criativa da União Europeia

Subiram ao palco mais de uma dúzia de músicos de vários países europeus incluído 3 lusitanos e outros europeus de países como a Islândia, as Ilhas Faroé, a Polónia, entre outros.

image

European Ghosts no CCVF // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

Um dos elementos explicou em palco que o projeto desenvolveu-se na Alemanha, mais propriamente em Hamburgo, no “meio de uma onda de Covid19”. O resultado foi apresentado em Guimarães durante 40 minutos e foi bastante agradável de ouvir. Em regime de tom acústico escutamos um som indie-alternativo com ramificações em sons tradicionais de vários países tal como era o objetivo primordial e exemplarmente conseguido.

Na parte da noite foi a vez de assistir a mais 2 showcases resultantes do processo de criação em sistema de parelha. A primeira atuação juntou Tiago Sampaio (conhecido por fazer parte da banda Grandfather’s House e a solo como St. James Park) a Eliën, uma cantora/compositora com origem nos Países Baixos. Ela trouxe consigo o produtor Daniël van der Duim e os três trabalharam em conjunto. Eles têm em comum o planeta eletrónico e o mundo dos sintetizadores pelo que a sua performance foi uma viagem às experiências sónicas digitais por entre uma voz feminina com reverb. Tiago, Eliën e Daniël estiveram sempre muito concentrados no palco do Café Concerto do CCVF. A
performance foi conseguida com sucesso para agrado do público presente em bom número.

image

Tiago, Eliën e Daniël, respetivamente da esquerda para a direita // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

O último showcase resultante de criação original coube a Nicolás Farruggia e a Mariana Bragada. Nicolás é um homem/artista do mundo pois nasceu na Argentina, cresceu na Itália e viveu 10 anos no Brasil onde assimilou a cultura musical daquele país. Mariana, oriunda de Bragança, apresenta-se artisticamente como Meta e teve alguma exposição nacional pela sua participação no Festival da Canção em 2019 no qual chegou à final.

Desta parelha resultou uma atuação bem interessante pois ambos resultam de um contraste musical. Ele assumiu-se como um homem de sons tradicionais empunhando de forma bem visível a sua guitarra clássica, um homem de cordas como chegou a dizer. Já Mariana gosta igualmente da tradição porém na sua abordagem musical faz questão de apimentar essa relação com a introdução de elementos eletrónicos. A união das sonoridades de ambos foi bonita e resultou numa atuação descontraída e muito agradável.

image

Mariana Bragada eNicolás Farruggia em palco // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

Nos agradecimentos Mariana referiu todos os companheiros de criação as quais agradeceu do coração sendo que todos acabaram por subir ao palco para uma merecida salva de palmas.

A mais-valia do intercâmbio musical e cultural entre músicos de diferentes contextos e que atingem um entendimento através da linguagem da música é, sem dúvida, um dos superiores objetivos do Westway LAB. Está mais que comprovado que tal é atingido com nota máxima.

image

Todos os artistas que estiveram em residência artística // Mais fotos no nosso instagram @headliner.portugal

Vejam toda a foto-reportagem pelo Jorge Nicolau: 

Dia 1

Texto:
Edgar Silva

Fotografia:
Jorge Nicolau

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.

Ainda sem comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.