Caldo verde, bifanas e concertos incríveis à chuva – Dia 1 do Festival Rodellus 2023 | Reportagem

Nuno Duarte, vocalista e guitarrista dos USG | mais fotos clicar aqui
Rodellus para mim já é uma espécie de Meca anual dos festivais de verão. Já são 5 anos a marcar presença no festival mais rural de Portugal. Quando falo marcar presença falo mesmo em viver em todo o esplendor do que o festival de Ruilhe tem para nos oferecer. Neste ano de 2023 comecei esta vivência única de música e amizade com uma primeira paragem obrigatória pelo campismo.
Passava pouco das 21h, desta sexta-feira dia 28 de julho, quando cheguei ao corredor de tendas já montadas, obrigando-me a serpentear pelos já muitos abrigos ali montados. Praticamente quando começamos a tirar as fundações do meu aposento para aqueles 2 dias intensos, começo a sentir as primeiras gotas na minha face. O tempo foi passando e a chuva foi começando cada vez mais a fazer sentir-se sem piedade, mas nem o tempo inesperado fez-me demover de acabar a montagem daquele tão importante e indispensável ritual que ano após anos me faz andar quilómetros.

Afonso Dorido, o intrépido guitarrista dos Indignu | mais fotos clicar aqui
Já com o receio de não conseguir apanhar o concerto dos Indignu, assim que todas as fundações da tenda estavam bem fixas, pus-me a correr por entre as ruas de Ruilhe até chegar ao recinto que se ergue pelas margens do rio Este e por entre campos de milho. Após o atraso inevitável digno de uma sexta-feira, assim que percorro a pequena ponte que nos leva ao recinto do Rodellus, consigo avistar ainda a banda barcelense a tocar os últimos acordes. Sempre intenso, o inquieto Afonso Dorido e a sua guitarra sempre com a sua postura punk e estridente foram contagiando as já algumas centenas de pessoas que começavam a popular o bonito recinto.
Na bagagem a banda trouxe-nos ‘adeus’, disco intenso como um bom disco de post-rock deve ser, transportando esse sentimento para o festival mais rural de Portugal. A setlist foi curta ao invés do comprimento dos temas. “Devolução da essência do ser” foi o primeiro tema interpretado, outros que não faltam foram “Urge decifrar no céu” e “Sempre que a partida vier”.

Indignu com mais uma incrível atução | mais fotos clicar aqui
Toda esta correria por entre o relvado molhado, abriu-me o apetite. Como um bom festival que vive o campo, não poderia faltar o caldo verde e uma boa bifana. As baterias carregaram-se para uma das bandas que pouco conhecia (ou nada), mas que, no entanto, já percorrer essas estradas fora desde 2007. E ainda bem que foram carregadas à máxima potência, já que os dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS fizeram o favor de as descarregar de imediato.
Uma descarga de energia veio projetada sem pedir licença para cima de mim. Como disse, não conhecia nada do quarteto de Lisboa, mas logo nas primeiras linhas de baixo a minha presença corporal ficou afixada ao eixo da terra, completamente perplexo por toda aquela explosão sonora. Desde a fusão do free-jazz com post-rock fazendo lembrar Black Midi, ou passando mesmo pelo noise-rock e estridente dos Lightning Bolt, os dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS ofereceram um cocktail de isto tudo e muito mais.

Desmarques dos dUAS sEMIcOLCHEIAS iNVERTIDAS | mais fotos clicar aqui
Para cima do palco trouxeram o último ep 卌. Difícil de pronunciar ou soletrar? Não interessa, o que interessa é que façam o favor de ouvir uma das excelentes surpresas que o Rodellus trouxe. Energia contagiante de um som tresloucado e que cativou o público que foi começando a preencher a terra molhada. Sempre liderados ora pelo saxofone tenor ou pelo saxofone alto, a força bruta era tal que olhando para a cara dos muitos presentes era palpável a admiração, os sorrisos e os headbanging que iam acompanhado o kick da bateria.
A chuva não deu tréguas, nunca, nem 1 minuto. A água já escorria face abaixo e nem um impermeável conseguiria salvar qualquer ser humano da total molha. Nada disto demoveu as centenas de pessoas que iam continuando a chegar ao recinto. Eu, depois da descarga brutal de energia que tive com os dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS, a solução seria apenas voltar à zona de restauração, pedir mais um fino e abrigar-me da chuva intensa que se fazia sentir.
Uma das bandas mais interessantes do panorama recente da música portuguesa, ia subir em palco pouco tempo depois do meu descanso merecido. Falo dos Unsafe Space Garden. Quem já os viu ao vivo sabe do que falo, quem ainda não viu, deveria. Logo nos primários segundos é bem percetível ao que vem a banda vimaranense. Muito interventivos e de cartazes com mensagens de amor em riste, vão agitando as águas que ainda caiam do céu, sem nunca ter dado tréguas.

Unsafe Space Garden simplesmente fantásticos | mais fotos clicar aqui
Um concerto dos Unsafe Space Garden vai para muito além da música tocada. Ver o conjunto de 6 músicos vestidos a rigor no qual a cor e alegria que reluzia das suas vestes, fez transportar a minha infância para aqueles metros quadrados. Em palco apresentaram-nos o seu novo belo disco ‘WHERE’S THE GROUND’, e quem já o ouviu, consegue imaginar (ou não) a incrível teatralidade que todos os elementos deixam em palco, empurrando-nos para a narrativa do seu mundo colorido. Liderados pela incrível voz de Alexandra, um pouco infantil e mesmo inocente, contrasta de uma forma punk com o som das guitarras a rasgar riffs, de sons grandiosos e dos ritmos psicadélicos fazendo lembrar uma das bandas mais interessantes que ouvi no panorama internacional, os Crack Cloud.

Alexandra, a irreverente vocalista, teclista e tudo mais dos USG | mais fotos clicar aqui
Estava molhado da cabeça aos pés, mas estava feliz. Posso dizer que vi ali um dos melhores concertos do ano de uma das bandas que o headLiner segue desde o seu início.
O dia já ia longo, a noite ainda mais, mas não poderíamos partir para os nossos molhados aposentos sem antes ver Scúru Fitchádu. O artista de nome Marcus Veiga praticamente sempre acompanhado pelo seu ferrinho, instrumento oriundo de Cabo verde, trouxe-nos o seu funaná com um toque bem punk, noise, sujo. Algo completamente tresloucado que anda no limbo entre a dança do funaná ou fazer um moche pit. Alias, foi exatamente esses dois lados tão opostos, que de certo modo se tocam com Scúru Fitchádu, que foram visíveis por entre as centenas de pessoas que não arredaram o pé deste primeiro dia do Rodellus.

Scúru Fitchádu sempre com energia para “dar e vender” | mais fotos clicar aqui
Um dia longo de muitas descobertas, muita chuva e muitos sorrisos. Mas faltava ainda um dia intenso de vida no campo.
Foto-reportagem completa deste dia: Clicar Aqui
Texto: Luís Silva
Fotografia: Jorge Resende
