Sérgio Godinho e Rodrigo Amarante realizaram dois épicos brilharetes no Manta

Reportagem Completa

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O magnifico Sérgio Godinho no Manta | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Em 2023 não estive presente no Festival Manta pois o cartaz não foi apelativo tendo em conta os meus gostos. Em 2024 marquei presença porém não escrevi reportagem, adorei os concertos de David Fonseca e Still Corners, ambos que fazem parte das minhas já longas memórias de festival Manta. Já acompanho este evento desde 2008, ano em que vi os The National. Foi lá a minha primeira vez com esta notável banda. Uma altura em que ainda não imaginava, sequer minimamente, a possibilidade de existência do headLiner nem que me iria dedicar à escrita sobre concertos e música. Regressei ao evento neste 2025 sendo que na segunda noite estive muito bem acompanhado pela minha namorada. Ela que até apreciou o programa não sendo propriamente dos seus favoritos.

Como recordação, relembro alguns nomes que já passaram pelo festival: The Young Gods, Blood Red Shoes, Nite Jewel, Linda Martini, Capitão Fausto, Thurston Moore, Angel Olsen ou Rodrigo Leão só para citar alguns dos mais sonantes. Como curiosidade extra recordo que o Manta foi de entrada paga nos primeiros anos.

O jardim do Centro Cultural Vila Flor voltou a ser o palco privilegiado deste evento vimaranense já com tradição e uma rica história que vem sendo escrita desde 2006. Espera-se um cartaz bem especial no próximo ano com a celebração de 20 anos de Manta.

12 de setembro, sexta-feira

O lusitano Tiago Machado e a irlandesa Sarah-Jane Burke conheceram-se em Vigo no verão de 2013 e desde então as suas vidas alteraram-se. Dão corpo ao duo Hot Air Balloon já há alguns anos, o primeiro álbum que editaram intitula-se ‘Behind The Walls’ cuja edição ocorreu em abril de 2016.

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Tiago Machado e Sarah-Jane Burke | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Já há algum tempo que têm por base a cidade de Guimarães, depois de terem passado por vários países. Pelo norte vão partilhando vida de casal à qual já agregaram descendentes.

Têm conseguido, no meio de tudo o que a vida lhes tem proporcionado, dado continuidade à carreira musical. Tiveram até um momento bem especial no passado mês de agosto quando tocaram no último dia do Jazz Na Relva no Festival Vodafone Paredes de Coura em formato banda.

Agora, na passada sexta-feira dia 12 de setembro, regressaram ao seu típico e aconchegante modo duo para mais uma viagem relaxante no seu balão de ar quente. A música dos Hot Air Balloon é intimista e penetrante. O duo luso-irlandês mostrou nesta edição de Manta o mais recente registo discográfico ‘Come This Far’ editado no passado mês de maio.

Tiago ocupou-se da guitarra e Sarah-Jane, além do emprego da sua belíssima voz esteve encarregue do teclado e sintetizador.

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Hot Air Balloon a tocarem novos temas | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Tal como no álbum a faixa “Come This Far” foi a que abriu o concerto. Com o passar das primeiras canções tive uma ligeira vibe sonora a fazer lembrar os convidados do ano passado, os Still Corners.

“Keep Me Going” soou fresca e cativante. Literalmente adequada ao clima do festival numa noite em que a temperatura lá ia descendo devagarinho. Pelo meio houve a interpretação de um tema com letra gaélica. Já “Do It Again” revelou-se introspetiva, com uma pitada taciturna. Em “Let’s Forget” tivemos um tema que fala de reconciliação.

Apesar da onda mais introspetiva e melancólica tanto Tiago como Sarah-Jane demonstraram-se bastante felizes em palco: deu para ver e sentir. Com diversos amigos e respetivos filhos na plateia este concerto de 50 minutos só podia ter sido o que foi: um agradável momento bem reconfortante e bucólico.

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Hot Air Balloon em palco | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Com a pequena encosta já totalmente preenchida toda a gente esperava o momento principal da noite: o grandioso Sérgio Godinho entrou às 22:36 horas em modo de Sérgio & Os Assessores. Público maduro (com alguma juventude pelo seu meio) e conhecedor do percurso musical prestou ao músico logo aí primeira ovação.

Sérgio de Barros Godinho chegou a Guimarães poucos dias depois de ter celebrado o seu 80º aniversário. Efetivamente invejável a carreira deste compositor, poeta e intérprete tal como a sua ainda frescura física e mental, pese embora uma ligeira dificuldade motora. A sua condição ainda lhe permite dar um concerto com mais de uma hora de duração, este do Manta quase alcançou uma hora e meia de duração.

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Sérgio Godinho em palco | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Sérgio revelou ser “uma alegria estar em Guimarães”, a sua dedicação bem como o seu sorriso traquina e genuíno eram a nota disso mesmo. “Foi Aos 25 Dias De Abril”, “Grão da mesma mó”, “Cuidado Com As Imitações” e “Maré Alta” foram os temas que surgiram na fase inicial.

Godinho fez questão de afirmar que a liberdade estava a passar por ali e que é um “terreno que devemos preservar”.

Antes de “Mariana Pais, 21 anos” sentou-se pela primeira vez na cadeira. Fiquei deveras impressionado com o impressionante silêncio em total contemplação com o mestre.

“Dancemos no mundo” foi dedicada ao povo de Gaza num claro gesto de solidariedade.  Na sequência tivemos a incrível faixa “Espectáculo” bem como três mini poemas de Alexandre O’Neill musicados de forma mais tradicional com todos os músicos juntos na parte frontal do palco.

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Todos reunidos para momentos musicais mais tradicionais | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Por falar em músicos: Sérgio Godinho foi excelentemente coadjuvado por Sérgio Nascimento na bateria, João Cardoso nos teclados, Nuno Espírito Santo no baixo/percussão, Miguel Fevereiro nas guitarras/percussão e Nuno Rafael nas guitarras/cavaquinho/percussão. São estes “Os Assessores”.

Antes da saída de palco a eterna “Com um Brilhozinho nos Olhos” foi interpretada num modo reverente. O encore teve quatro temas: uma versão de “Vampiros” de José Afonso e “O Primeiro Dia” foram os temas mais marcantes deste encerramento. O concerto foi delicioso e o público soube gerir muito bem os momentos: dando a devida reverência com silêncio e sendo efusivo nas ocasiões certas.

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Visão geral de Sérgio & Os Assessores | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

13 de setembro, sábado

Beatriz Pereira, nascida e criada em Ourém, tem como nome de palco Bia Maria e uma das artistas que mais quis ver em 2025 por causa do seu último álbum ‘Qualquer Um Pode Cantar’ ter sido eleito como um dos melhores do ano de 2024. Já a tinha visto no Sonoridades (um evento que teve o headLiner como Media Partner) na Vila das Aves no passado mês de maio e repeti a experiência agora no Manta.

Pouco antes da entrada ouvia-se na instalação sonora  “Time to Pretend” dos MGMT e sentia-se umas pingas de chuva na pele. Felizmente o tempo aguentou bem sem ficar mais agreste… Por algum tempo.

Bia Maria fez-se acompanhar de Samuel Louro na percussão/guitarras e Alberto Hernández nas guitarras (clássica e elétrica). Ela própria, além do uso da sua belíssima voz, tocou viola e utilizou sintetizador. Já o seu repertório, de punho firme de cantautora, assenta em sonoridades inspiradas no fado, no pop e na bossa nova com um cunho firme no canto popular como ponto de partida.

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Bia Maria bem concentrada | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Revelou-se uma comunicadora nata, com uma abordagem muito simpática. Ela não foi extremamente faladora, como nesse concerto do Sonoridades, pois teve sempre a noção que o seu tempo em palco era controlado quase ao minuto. Não pode ser mais faladora nem explicar algum contexto das suas canções.

Fez questão de agradecer pelo “arroz de pato incrível” e afirmou que são “sempre bem recebidos no norte”.

O concerto teve diversas etapas incluindo momentos em que Bia atuou a solo. Foi nessa parte em que tocou também música não editada como foi o caso de “Glícinia”. Houve também “música triste e melancólica” como, por exemplo, “Lenço de Papel” e outras menos soturnas como “Marcha da Paridade” ou “Roupa velha”

Para o fecho de atuação ficou guardada “Qualquer Um Pode Cantar”, uma canção que teve a colaboração do público com coros, algo que já tinha acontecido em “Aconchegos de Um Sujeito”. Uma performance de Bia Maria segura, descontraída e bem apoiada por Samuel e Alberto.

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Bia Maria em formato trio com Alberto e Samuel | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Pela primeira vez assisti a uma performance de Rodrigo Amarante, músico de 49 anos oriundo do Rio de Janeiro. Ele que ganhou notoriedade nos Los Hermanos, banda de rock alternativo que surgiu em 1997 na sua cidade natal. Ao longo do Século XXI, mesmo depois do anúncio do hiato em 2007, esse projeto continuou a realizar alguns concertos. A vida profissional de Rodrigo foi-se igualmente desenvolvendo noutros percursos: na Orquestra Imperial (uma big band brasileira) e nos Little Joy.

A par dessas situações Amarante desenvolveu igualmente um percurso a solo e foi nesta qualidade que apresentou-se em Guimarães para uma performance no Manta com a sua voz, violão e piano.

O jardim, mais precisamente na encosta para o Café Concerto do Centro Cultural Vila Flor, estava repleta de público, não só vimaranense como além do concelho. Apesar dos pingos de chuva mais insistentes foram poucos aqueles que optaram por sair dos lugares que ocupavam.

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Rodrigo Amarante a solo com voz e violão | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

“Começou a chover? São as minhas lágrimas” disse Rodrigo Amarante logo para risada coletiva. Ele que esteve bem-disposto e divertido na comunicação com o público, sempre na “palhaçada”.

“Toco essas músicas tristes mas estou muito feliz” foi outra das suas afirmações e efetivamente a maioria dos seus temas tem essa carga mais melancólica. Até por isso a sua “palhaçada” serviu como forma de “quebrar o gelo” e deixar as pessoas mais relaxadas e recetivas à sua música. Boa parte do público era conhecedor do seu repertório por isso foi fácil a ligação entre os dois lados.

O artista brasileiro passou uma temporada na casa de um amigo em Tavira e aproveitou este concerto para tocar novas composições. Rodrigo fez a estreia total de um tema escrito nos últimos dias ao qual teve a aprovação total da audiência.

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Concerto de Rodrigo Amarante muito concorrido | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Apesar do seu “espírito bem maluco” Amarante conseguiu cativar as pessoas e o concerto foi impressionante. Nem a “chuva de molha-tolos” mais persistente foi entrave para a vivência de um concerto que contou com temas chave da sua discografia, tais como “Tardei”, “Irene” ou “O Cometa”.

“Maré” foi interpretada em ritmo de “versão Bahia”. Já“Tuyo”, a famosa canção do genérico da série Narcos da Netflix, também fez parte do alinhamento.

As últimas quatro canções foram ao piano e o requisitado encore aconteceu com o brasileiro a utilizar a guitarra clássica no repescar de “uma bem antiga”. A despedida aconteceu com “O Vento”, tema dos Los Hermanos.

Rodrigo Amarante veio para cima das colunas em frente ao palco e agradeceu de forma bem simpática e sentida aos que marcaram presença. Gostei imenso desta performance, fiquei com a certeza que irei querer repetir a experiência numa sala fechada para desfrutar mais comodamente das canções deste incrível artista.

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Rodrigo Amarante ao piano | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

A organização do Festival Manta arriscou bastante, sobretudo neste último sábado, ao não ter mudado o local dos concertos para uma opção resguardada. Em anos anteriores o Centro Cultural Vila Flor tem sido esse resguardo. Apesar desta chuvinha chata, o evento felizmente decorreu de forma tranquila e tendo contado com a intensa perseverança do público. A noite de sexta-feira e sábado teve 4 concertos bem proporcionados e que ficam para a história de Manta. Este festival fará em 2026 os seus 20 anos de existência. Agora é esperar por uma programação de excelência no próximo ano. O evento merece-o.

Agradecimento à assessoria de Imprensa d’ A Oficina pela disponibilização das fotos oficiais do evento, em particular ao Bruno Barreto pela simpatia e disponibilidade.

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Outra perspetiva do público durante o concerto de Rodrigo Amarante | foto © Paulo Pacheco, A Oficina

Texto: Edgar Silva
Fotografia: © Paulo Pacheco – Fotos Oficiais A Oficina, entidade gestora do Centro Cultural Vila Flor

Edgar Silva

Administrador de página e de conteúdos do HeadLiner

Adoro ouvir música. Ir a concertos é mesmo onde me sinto no meu elemento, é como um peixe na água. No headLiner junto ambos os gostos adicionando o gosto pela escrita: com artigos sobre música (bandas e eventos) e também umas coisitas acerca de alguns dos concertos a que assisto.